sábado, 9 de julho de 2011

O “Adeus” definitivo de Rómulo de Carvalho

ADEUSinRómulo de Carvalho [Memórias]” (pág. 497)
Edição da Fundação Calouste Gulbenkian


Ǥ 170 - Meus queridos tetranetos.
(...)
Por tudo isto [grande sofrimento físico devido a doença grave] me decidi a terminar [1 de Fevereiro de 1997] a escrita destas memórias. Ficasteis a saber de mim tudo quanto era facilmente comunicável. Morro tranquilo porque nunca fiz mal a ninguém e sempre ajudei o próximo em tudo quanto pude. Nunca me zanguei com ninguém, como já vos disse, e de boa vontade pediria desculpa a quem tivesse tido de mim qualquer impressão de que o ofendera ou magoara. Cumpri sempre os meus deveres para com o próximo e o distante. Trabalhei a vida inteira e, embora mal remunerado, sempre o fiz com todo o esmero possível.

A vida nunca me seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi o morrer. Se não tivesse nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem. É preciso ter vocação para viver e é por isso que alguns se suicidam, o que é digno de todo o respeito. Nunca pensei nisso e só em consequência de um sofrimento excessivo o faria.

O mundo é repugnante e a vida não tem sentido. É uma luta permanente e feroz em que cada um busca a satisfação dos seus interesses exactamente como outros quaisquer seres vivos, animais ou plantas, que se espreitam e se atacam. Em nós, humanos, que somos o ponto mais elevado do desenvolvimento das espécies, o modo de proceder é diferente e as manhas são outras. Mas o homem que está comodamente sentado à secretária do seu gabinete, com a esferográfica na mão e o papel defronte, ruminando em qual será a melhor maneira de atacar o próximo, de o explorar, de o dominar e de encher os seus próprios bolsos, em nada difere, nas intenções, de um quadrúpede qualquer, de um insecto, de um peixe, do que for, que está muito quieto no seu reduto, espreitando o outro que anda ali próximo, para dar o salto no momento próprio. Ele vigia, o insecto, o peixe, o quadrúpede, pensa, faz cálculos, analisa, decide e, num relâmpago, atira a sua arma sobre o irmão distraído, pisa-o, esmaga-o, massacra-o e descansa, olhando em redor, não venha outro como ele fazer-lhe o que agora tanto o satisfaz. E nós a julgarmos que somos os únicos e privilegiados animais presentes. Não é sem pensar que o pobre cão perdido a longa distância da sua casa, a dos seus donos, consegue reencontrá-la e de novo repousar no seu habitual aconchego. E assim já tem sucedido. Ou a gaivota que levanta voo do rochedo para ir examinar o mar e regressa para comunicar às companheiras que a aguardam como as coisas decorrem. Ou as formigas que vão e vêm, numa carreirinha, segredando umas às outras o que se vai passando.

As minhas dores no estômago e nos intestinos continuam sem descanso e os médicos não descobrem o que tenho apesar de todo o seu saber, simpatia e generosidade. É preferível morrer. É neste estado que vos escrevo embora a minha letra, que aqui vêdes, não dê sinal de tantos males e de tão profundo abatimento. Fui sempre pessoa de grande coragem e espero conservá-la até o último momento.

A todos os que me estimaram e, no extremo, me amaram, um longo adeus com os olhos tristes. Muito em particular para os meus mais íntimos. Deixo, neste vale, a vossa tetravó Natália, dois filhos (uma filha e um filho) e cinco netos (duas netas do filho, e uma neta e dois netos da filha). Todos me estimaram, e até me amaram muito, cada um com a sua capacidade de expressão.

A tristeza da minha situação actual conseguiu arrancar os fechos das portas dos esconderijos onde a vossa tetravó Natália conservava guardados, desde há longos anos, os seus afagos, os seus carinhos, os seus sentimentos de amor, tão vivos, tão ansiosos de préstimo como se tivessem nascido no momento. Ninguém tem culpa de nada. Tudo quanto fazemos resulta dessa luta interminável entre insignificantes células hereditárias que nos dominam completamente e fazem de nós um complexo inevitável de comportamentos e de sentimentos a que somos alheios. Ela é uma mulher intelectual e tudo nela foi intelectualizado e assim arrumado, em prateleiras, e tudo por ordem. De repente tudo se desmoronou, as prateleiras ruiram e no alvoroço dos escombros apareceram uns olhos ardentes, espreitando o mundo e poisaram-se em mim.

E é tudo.

Chamo-me Rómulo e nasci no dia 24 de Novembro de 1906 com sete meses de gestação. Faleci em 19 de Fevereiro de 1997


Cf. http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.com/2010/12/romulo-de-carvalho-memorias.html
Cf. “Escolhas de Livros de Carlos Fiolhais” em link colocado em:
http://dererummundi.blogspot.com/2011/07/memorias-de-romulo.html

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