sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

In Memoriam RUY BELO (1933-1978)


Morte ao meio-dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Baleia a Oeste!


Artigo publicado nos Cadernos de Educação de Infância 
CEI n.º 103, setembro/dezembro 2014

BALEIA A OESTE!
Experiências de arte urbana

Tintas, pinceis, esponjas, batas, banco e escadote… foram semanas a caminhar para aquela parede até darmos como concluída a baleia azul, à qual nem faltava um piercing prateado na cauda (argola metálica existente na parede).
No fim, o comentário de um vizinho, de idade avançada, cujo passo lento, subindo a rua, permitia apreciar com calma a obra nascendo: “Tanto trabalho… tanto trabalho… e valerá a pena?... Isto um dia vem abaixo…será demolido…” Curiosa conversa sobre o efémero, questão central na “street art”… Troca de palavras com as crianças e comigo. Por fim pergunto-lhe: E o que acha? Ficou bonito? Gosta de ver a baleia quando aqui passa? Confirmou que sim, era bonito… era diferente. Então já valeu a pena! digo-lhe antes de encetar o regresso ao Jardim com os meninos, batas, mãos e cabelos sarapintados de azul…
Ela tinha estado sempre lá… naquela parede ocre gigante, de uma casa em desagregação. Quantas vezes passámos desatentos, sem olhos de ver… até ao dia em que o grupo vislumbrou aquela enorme baleia… Daí à sua pintura foi ato quase imediato! Muitas sessões de pintura depois, lá estava ela… a baleia azul, que agora cumprimentam sempre que por ali passam.
O grupo sabia o que era “street art”, pois já vira projeções de intervenções de artistas em espaços da natureza ou em zonas urbanas algo degradadas. Uma das sessões, aberta à família, revelou a TOUR PARIS 13, aquela que foi considerada a maior exposição de arte urbana de sempre, realizada num prédio em vias de demolição, em Paris, onde 100 “artistas de rua”, incluindo 10 portugueses, pintaram todas as divisões de 36 apartamentos.
Muitos assuntos eram abordados nestas sessões: os locais, a ideia que o artista tivera, a intenção revelada, o processo, os materiais usados, o que pensariam as pessoas sobre as intervenções encontradas inesperadamente na rua.
Com esta inspiração como pano de fundo, de repente todos passaram a descobrir formas e desenhos nos muros e paredes por onde passavam, inspirados por uma fenda, uma falta de reboco, um cano saliente…
Terminada a “baleia azul”, uma parede muito texturada fez idealizar um “dragão vermelho”… da falta de reboco num muro surgiu um “pássaro quivi”, tubos de escoamento de águas sugeriram um “elefante espantado” e uma “cara que chora”, nas heras (que na imaginação do grupo são lianas) apareceu um macaco pendurado. E que surpresa… quando àquela mancha descolorada num muro um menino chamou, de imediato, “senhora pálida”!
Em incursão um pouco mais distante do Jardim nasceu ainda um papagaio tão estilizado que talvez se pudesse chamar “papagaio Miró”…
À exceção da baleia, em todos os restantes trabalhos houve diversos planos desenhados pelas crianças sobre a imagem fotográfica da parede ou muro a intervencionar. Após a seleção da melhor solução/ideia, passava-se à sua pintura.
Muitos desenhos, projetos, conversas e decisões em grupo… muitas caminhadas com tintas, bancos e escadotes pela rua fora. O olhar, agora treinado, a descobrir constantemente novas imagens!
Pensar o espaço/ambiente que nos rodeia… ousar intervir nele, desafiando também os habitantes a entrar no jogo da divergência, foi uma experiência de liberdade para todos.
Uns tempos mais tarde, inspirados pelo artista de rua SPIDERTAG, estávamos a construir uma espiral com pregos e lãs numa velha porta de madeira da casa onde “mora” a nossa baleia, quando uma vizinha nos interpelou: Então, o que estão os meninos a fazer? Muito decidido, responde o que martelava na altura: Uma spidertag! Uma quê??? Lá traduzi… explicando que se tratava de uma espécie de teia de aranha e falando-lhe sobre o artista que nos inspirara. A vizinha entusiasmou-se e entrou no jogo: ”Olha, vocês querem uma aranha que eu tenho lá em casa para pôr aí também???” Claro que queriam e a senhora desapareceu por alguns minutos deixando todos na expectativa, entre divertida e assustada, do seu regresso com uma aranha a sério! Afinal era uma aranha em borracha cinza e rosa… Prendemo-la mesmo no meio da espiral. Ficou perfeito…
E lá ficou ela tecendo incessantemente a sua teia...
Como ela, o nosso pequeno Jardim de aldeia vai tecendo a sua “teia” com as pessoas, com a Arte… teimando em sobreviver e construir cultura na sua comunidade.

Helena Martinho
(Educadora de Infância)

Nota: O presente Projeto foi desenvolvido no Jardim de Infância do Vimeiro – Agrupamento de Escolas e Jardins de Infância D. Lourenço Vicente, no ano letivo 2013/2014. O resultado do trabalho originou uma Exposição que esteve na Biblioteca Municipal da Lourinhã em Maio e na galeria de Exposições do Centro de Interpretação da Batalha do Vimeiro entre Junho e Julho. Para a produção desta mostra o Jardim contou com a colaboração do atelier de arquitetura ESBOÇO CÚBICO, através da arquiteta Ana Timóteo, mãe de uma criança do grupo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O Prof. Mambo e Schrödinger...

... é o título de um artigo de David Marçal e Carlos Fiolhais 
onde se fala de homeopatia, ciência e pseudo-ciência.

«Por muito divertido que seja este desfile de títulos nobiliários, a ciência não se baseia neles. Baseia-se em provas experimentais, que possam ser confirmadas por grupos de investigação. Uma coisa não é verdade por haver pessoas notáveis ou com histórias engraçadas que dizem que é verdade. Essa é uma das razões por que em ciência qualquer um pode ter razão desde que apresente provas. Pode até de início estar sozinho. Quando cem cientistas nazis contestaram Einstein, este perguntou: “Porquê cem? Se eu estivesse errado bastaria um.”»