domingo, 17 de junho de 2018

"Aquele golo", prosa poética de MEC


Miguel Esteves Cardoso (PÚBLICO, 16 de Junho de 2018)

Foi estranho o que aconteceu ao tempo durante o livre de Cristiano Ronaldo. Parou. Mas abriu só o suficiente para entrar a bola na baliza.
Foi como observar um pensamento ou um sonho de um rapaz pequeno. Estava lá a eternidade. Estava lá a ilha da Madeira. O guarda-redes ficou preso à trajectória. Todo o mundo parou. Só a bola foi autorizada a mexer-se.
Visto em directo, o golo de Cristiano Ronaldo parecia já uma repetição, em câmara lenta, de um livre muito antigo que se estuda nas universidades muito lá para o futuro, quando já estivermos todos mortos.
A bola seguiu o caminho desejado em todos os nossos inconscientes, curvando como a linha feita por um dedo a escrever o nome num vidro embaciado.
O golo interrompeu o jogo que era um vaivém de esforços e sortes e vinganças. Disse que estava farto de pressas e de incertezas e de medos. Fez com que um empate soubesse a derrota, fez com que um empate soubesse a vitória.
O livre de Cristiano Ronaldo foi um jogo à parte. Foi jogado contra a ideia que contra a Espanha ele não marcava golos. Foi jogado contra a ideia que ele já não era quem tinha sido. Foi jogado contra a noção que à Espanha ninguém marca três golos.
Foi um livre como música. Tocada por Miles Davis. Ou um gatafunho de Picasso a completar a única pomba do mundo. Foi um golo para espantar toda a gente menos o próprio marcador. Por uma vez a coisa correu como ele quis: a vontade e a realidade desistiram de andar à pancada uma com a outra. Assim se abriu uma brecha no tempo.

sábado, 16 de junho de 2018

Ronaldo, impossível não falar dele




Antes de marcar o terceiro golo na partida frente à Espanha, Cristiano Ronaldo transbordava confiança. Com o habitual semblante fechado quando se aproximam momentos decisivos, CR7 puxou os calções, respirou fundo e deu uns passos atrás, para depois marcar um golo para a história, que colocou um ponto final no resultado (3-3).

Fonte: Jornal de Notícias

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Escrito na Pedra

Não há nada tão estúpido como a 
inteligência orgulhosa de si mesma.
 
Mikhail Bakunine (1814-1876), sociólogo, filósofo, revolucionário


terça-feira, 12 de junho de 2018

Sporting à beira do abismo

Fonte: Record
E a responsabilidade é minha?!

Muita parra, pouca uva



Sorrisos, apertos de mão e três reuniões entre o Presidente dos EUA e Kim Jong-un. No final, os dois líderes assinaram um acordo que é considerado bastante vago pelos analistas.

Fonte: PÚBLICO

domingo, 10 de junho de 2018

O racismo existe e há quem saiba o que isso é


 
Bárbara Wong (PÚBLICO, 10.Junho.2018)

A minha mãe é portuguesa. Alfacinha de gema, filha de lisboetas, neta de beirões, da Beira Alta e da Beira Baixa, bisneta e trineta de descendentes de judeus (sabem que os judeus quando perseguidos foram esconder-se para aqueles lados?) e de africanos, do Norte de África (não é por acaso que a Mouraria se chama Mouraria, também sabem disto?). A minha mãe portuguesa casou-se com o meu pai chinês, raça pura, amarelo de gema.
A minha mãe podia ter-se casado com um alemão, com um guineense, com um israelita, com um coreano, com um argentino — a universidade onde estudou tinha gente de todo o lado —, mas casou-se com o meu pai, com quem aterrou na Portela no início da década de 1970. O pai da minha mãe não gostou, sempre o tratou por “senhor engenheiro”; a minha avó adorava-o e chamava-o pelo seu nome.
Crescer numa altura em que havia apenas dois canais de televisão — um deles só começava a funcionar a meio da tarde —, não havia Internet e pouquíssimos portugueses tinham saído da sua terra, não foi fácil. Não me esqueço de um domingo, a seguir à missa, numa terreola qualquer perdida no centro do país, de os miúdos da nossa idade nos virem tocar, a mim e aos meus irmãos, para confirmarem que éramos reais.
As pessoas ficarem a olhar para nós e a comentar, como se não as víssemos nem as ouvíssemos, era constrangedor e, à medida que fomos crescendo, cada um foi criando a sua carapaça, lidando com a coisa da melhor maneira que sabia. Na minha adolescência não se falava de bullying, mas não tenho dúvidas de que fui vítima de violência verbal e psicológica sistemática. Sempre relativizei as bocas, os empurrões, os bilhetinhos anónimos, porque se não fosse por ser chinesa, seria por ser bem-comportada, por me vestir de uma maneira estranha, por me chamar Bárbara no tempo das Carlas, das Paulas e das Sandras, ou, simplesmente, porque sim. Isso acontece a todos os que são diferentes, não é?
Tive a “sorte” de ser pouco chinesa. Costumo dizer que a raça se foi aperfeiçoando à medida que os meus irmãos foram nascendo. Eu sou amarela e pequena, mas tenho os olhos e o nariz grandes; o meu irmão é alto e de tez clara, só o feitio dos olhos esverdeados o denunciam; segue-se a minha irmã do meio, que poderia ser tailandesa, e, por fim, a mais nova é chinesa, chinesa, ninguém dirá que a sua mãe é portuguesa senão pelo tamanho das suas ancas. Depois do 3.º ciclo nunca mais ouvi uma boca, já a minha irmã ouve expressões como: “Volta para a tua terra.” Palavras que também os portugueses de origem africana ouvem.
Numa noite de Santos Populares caminhava de braço dado com a minha irmã do meio e, de repente, levamos um empurrão de duas raparigas, umas africanas elegantíssimas, que nos olharam e cuspiram um “chinesas...” com desdém. Desarmámo-las com uma gargalhada, não podemos deixar de nos rir, as duas, pelo ridículo da situação, e comentámos: Não sofrerão do mesmo? Por que não há solidariedade racial?
Hoje lembro-me de que tenho origem chinesa — na verdade, é só um nome, porque não conheço a língua, a história ou a cultura, uma opção parental — quando entro num táxi, em trabalho, e o meu nome lá está, Wong, escarrapachado no ecrã. “Yung, Oom, Vongue, Yang, como é que isto se diz... onde é que foi buscar um nome destes? É casada com um chinês? É chinesa? Não é nada! Você é bonita e elas são tão feias...” Quando vou mais aborrecida, sou capaz de responder torto, olho para o cartão de identificação do taxista e digo-lhe: “Por acaso perguntei-lhe por que é que se chama Silva?” Outras, ponho a cassete, tal como faço com os professores doutores que vou entrevistar e que me perguntam o mesmo: “Naquele tempo ainda não havia Erasmus, mas a minha mãe foi estudar engenharia química para a Alemanha e conheceu o meu pai na universidade.”
Gostava de dizer que o racismo não existe, que os brancos não são racistas, que os negros não são racistas, que os amarelos não são racistas, que o que se passou na Feira do Livro de Lisboa  (uma voluntária da feira interrompeu um debate sobre racismo, onde os convidados eram todos negros) não é sintomático do que nós somos — racistas. Nos momentos mais dramáticos do meu crescimento, porque a adolescência é um drama, perguntava em lágrimas à minha mãe: “Por que é que te casaste com um chinês?”, e a resposta era óbvia: “Porque amo o teu pai.” Eu achava-a tão egoísta. “Como é que não foste capaz de pensar em nós?”, e virava-lhe as costas de maneira teatral. Hoje, consigo compreender que o amor pode ser a resposta para tudo na vida, até para o racismo.