quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Cai neve na Natureza...

Fotografias de Filomena Santos, mãe do meu neto Bruno,
tiradas ontem junto à residência familiar na cidade da Guarda.






BALADA DA NEVE
de Augusto Gil

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.





Augusto César Ferreira Gil nasceu no Lordelo do Ouro em 31 de Julho de 1873 e faleceu na Guarda em 26 de Fevereiro de 1929. 
Foi advogado e poeta. 
Viveu praticamente toda a sua vida na cidade da Guarda onde colaborou e dirigiu alguns jornais locais. 





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Estorninhos sobre Lisboa

Ao fim da tarde passam, a intervalos regulares, grandes bandos de estorninhos sobre a cidade. Vejo-os de um 7.º andar na zona onde habito (Largo do Leão). São às centenas, no total milhares, vindos de norte para sul. Presumo que de manhã cedo façam o caminho inverso em busca de comida. Em cada dia vou esperá-los à hora certa, e tenho sempre a mesma sensação de encantamento por esta migração interna.


Infelizmente não tenho equipamento fotográfico que me permita registar bem estes momentos. Anteontem tirei a fotografia possível para ter uma ideia do número de estorninhos num bando grande. Nessa fotografia, (1) fiz um crop - foto acima (ficaram muitos de fora); (2) no crop seleccionei uma zona rectangular (ficaram muitos de fora, como se pode verificar); e (3) contrastei a zona rectangular para melhor visualização na contagem - foto abaixo. 

Não cheguei a um número… Quererá o leitor tentar?


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Hugo numa "Classe de Neige"

O meu neto Hugo – aluno do 5.º ano na Escola Europeia, em Bruxelas, onde reside com os pais e a mana Inês – tem estado numa Classe de Neige*, com os colegas e o Professor José Virgílio, numa estação de ski na zona de Grenoble. Consta-me que tem sido instrutivo e divertido... Aqui fica o registo fotográfico com o meu "desportista" devidamente equipado acenando para a multidão...


 * «Une classe de neige est un voyage et un séjour à la montagne organisés par une école, les jeunes élèves continuant à suivre des cours traditionnels tout en découvrant le milieu et en pratiquant les sports d'hiver.» 

sábado, 19 de janeiro de 2013

O marco do correio (ou Eles levam tudo)

Meu artigo publicado no semanário O MIRANTE em 17.Janeiro.2013 

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Bertolt Brecht, in “Dificuldade de Governar”
Eles levam-nos a confiança, prejudicam a democracia. Eles prometem uma coisa hoje e fazem o contrário amanhã. Não surpreende que sejam enxovalhados quando aparecem em público. Eles entram pelas portas do fundo. Péssimo sinal que se escondam. Que não se assumam como gente crescida.
Eles levam-nos para a recessão, para o abismo. Caminhamos sem sabermos para onde vamos, e duvidamos que eles saibam. Caminhamos em longas filas, em silêncio, por enquanto... Encolhemos os ombros, porque eles nos dizem que não há alternativa. Sente-se a chantagem.
Eles levam-nos o Estado social. Os hospitais estão em dificuldade, mas eles dizem que é possível fazer omeletes sem ovos… Muitos professores das escolas públicas estão em desespero, mas eles acham que é pieguice… Entretanto, o número de pedidos de aposentação está em crescendo. Será por masoquismo que as pessoas se contentam com reformas minguadas?
Eles levam-nos as certezas de outrora. Eles desprezam contratos firmados. Eles levam-nos os subsídios estipulados por lei. As leis podem agora ser aplicadas retroactivamente? Eles levam os pensionistas a pagar mais impostos do que qualquer outro tipo de rendimento. Eles entendem que a redução da despesa pública tem de passar pelos mais desprotegidos, os que não têm voz. E dizem que o que fazem é com a consciência tranquila…
Eles levam-nos a desacreditar de intenções a longo prazo. Quem concordou com o OE-2013 veio depois dizer que o OE-2014 não pode ser o mesmo. Jogo de palavras? Eles desculpam-se que estavam numa posição difícil, que não era responsável abrir uma crise política e… que não tinham peso eleitoral suficiente para fazer melhor na coligação. Quem garante que daqui a um ano têm?
Eles levam o despautério ao ponto de afirmar que os portugueses esqueceram o mar, a agricultura e a indústria. Não é sério culpar os portugueses de se terem esquecido das pescas, da agricultura e das fábricas. Porque foram eles que levaram a esse esquecimento, desprotegendo o futuro. Foram eles que, a troco de uns euros, pagaram aos pescadores e aos lavradores para não pescarem nem lavrarem.
Eles levam o ajustamento das contas públicas para além dos limites do memorando de entendimento. Serão eles mais troikistas do que a troika? Eles parecem ignorar que se as previsões falharem, como toda a gente diz que acontecerá, a troika poderá sempre dizer-lhes: Não tivessem apertado tanto o garrote!
Eles levam tudo, eles levam tudo…. Agora até levaram o marco do correio da zona de Lisboa onde habito. Felizmente, não podem levar os melros do Largo do Leão.
Ver fotografia aqui.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Morreu o Quim Machado


Um comovente texto de evocação, escrito por Joaquim António Emídio e publicado hoje no jornal O MIRANTE, pode ser lido aqui . 

Começa assim: 
Morreu com 62 anos, na Chamusca, Joaquim Ricardo Banha Machado, farmacêutico de profissão, considerado um profissional de corpo inteiro e um homem de bom coração.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Dividir para reinar

Parágrafo do artigo de José Pacheco Pereira intitulado «O peixe apodrece pela cabeça» - PÚBLICO, 12.Janeiro.2013

Todo o discurso político do poder é o da divisão e o apelo à luta de classes, grupos, idades, profissões, cada um contra o outro, mesmo quando a condição de cada um é a mesma do outro. Os que tinham toda a razão para fazer greve voltam-se contra os que fazem greve. Os jovens são instigados a voltarem-se contra os velhos, pensionistas e reformados. Os que têm alguns meios de vida desdenham dos que recebem subsídios de desemprego. Os que ainda não viram a sua profissão como alvo apontam a do outro como o alvo que deveria ser o seguinte. Polícias olham para os militares, os militares para os polícias. Trabalhadores do sector privado culpam os funcionários públicos, os funcionários públicos fecham-se com medo do desemprego. Os que ganham 900 euros apontam o dedo aos que ganham 1000 euros. Uma inveja social mesquinha e corrosiva perpassa tudo e todos e cada um defende o seu território, dando razão ao Governo, que aponta toda a contestação como sendo “corporativa”. Só a minha “corporação” é que não é corporativa, todas as outras são-no. O vírus da intriga e da divisão sempre foi a melhor garantia da intangibilidade do poder. E não é difícil em tempos de crise propagar estas epidemias, mas é perigoso. Porém, o medo ajuda, ajuda muito. (Texto completo aqui)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Que valores para 2013?

O jornal PÚBLICO convidou 13 personalidades para produzir uma série de textos sobre “os valores humanos da sociedade portuguesa e europeia em 2013”.

Ontem foi a vez de Teresa Pizarro Beleza, professora de Direito Penal e directora da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, que escreveu um texto intitulado “Carta a minha mãe sobre o SNS e outras coisas em Portugal”. Termina assim:

«Mãe, se agora cá voltasses, ao mundo dos vivos, acho que terias uma desilusão terrível. Melhor que não vejas o que estão fazendo do nosso país»

domingo, 6 de janeiro de 2013

O figurão de 2012 e as tarefas urgentes em 2013

O figurão do ano
Carlos Fiolhais
PÚBLICO, 26.Dez.2012
Os media escolhem, nesta época, as figuras do ano. Para figura do ano a Time escolheu Barack Obama e, entre nós, o Expresso escolheu Angela Markel e o contribuinte português para figuras respectivamente internacional e nacional. Proponho-me aqui escolher o “figurão do ano” e o escolhido não pode deixar de ser Miguel Relvas, ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares.
Em Portugal, no ano que ora finda, foram muitos os figurões. Na cena política, mas também nas cenas académica, empresarial, mediática, autárquica e desportiva, vários foram os personagens que, tentando sobressair, caíram no palco com estrondo. A escolha foi, porém, fácil, pois nenhum desses insucessos foi tão grande como o de Relvas, que, figurando em todas essas cenas, não houve nenhuma em que não caísse. (Texto completo aqui.)

As coisas urgentes que temos de fazer em 2013
José Vítor Malheiros
PÚBLICO, 31.Dez.2012
Tivemos 2012 com esta mistura de espanto e de indignação, de urgência e de impotência, de revolta e de desespero, de ódio e de vergonha. Sabemos que batemos no fundo em termos de bem-estar, de solidariedade social, de moralidade no Governo, de dignidade na política, de exercício da cidadania, de democracia, de confiança nas instituições, de confiança uns nos outros, de confiança no futuro, de dignidade. Sabemos que começamos a ter vergonha de nos olhar nos olhos na rua, que as costas estão mais curvadas, as roupas mais baças, as expressões mais carregadas. Sabemos também que este fundo em que caímos se vai afundar ainda mais e que novos abismos se vão abrir em 2013 porque a decência deste Governo é inexistente, porque os interesses inconfessáveis que serve não se encontram em nenhuma linha da Constituição. Sabemos que as coisas podem sempre piorar e que, em 2013, as coisas vão mesmo piorar. Mas sabemos também que as coisas não podem piorar ainda mais sob pena de ficarem piores para sempre e de condenarmos o país ao desalento e à miséria eterna. O que fazer?
(Texto completo aqui)

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

In Memoriam Dr. José Lopes

Meu artigo publicado hoje no semanário O MIRANTE


Quis o acaso que um jovem chamusquense se tivesse cruzado com o Dr. José Lopes, director do Externato Braamcamp Freire, em Outubro de 1951. Durante os cinco anos que permaneci em Santarém, este Amigo ajudou-me de várias maneiras, talvez sem se dar bem conta da importância desse apoio.
Desde logo, concedeu-me uma bolsa de estudo para frequentar gratuitamente o Externato e, assim, completar o curso dos liceus. Isto hoje parece trivial, mas naquele tempo foi decisivo: marcou exactamente a diferença entre a possibilidade de eu continuar, ou não, os meus estudos. A contrapartida da bolsa consistia na realização de algumas tarefas na secretaria do colégio.    
Foi também o Dr. José Lopes que me aconselhou o alojamento em Santarém, na casa da D. Sofia, sua tia. Guardo uma terna recordação do tempo que passei na Travessa da Roda, mesmo ao lado do Sá da Bandeira. A mensalidade foi fixada em seiscentos escudos, que o dinheiro que vinha da Chamusca não dava para mais. Nesse tempo, uma geral no Rosa Damasceno custava vinte e cinco tostões...
Foi ainda o Dr. José Lopes quem me arranjou o primeiro explicando, tinha eu dezasseis anos. Lembro-me de que se tratava de lições de Português. A princípio, fiquei receoso com a ideia por duvidar que pudesse dar conta do recado. Mas a experiência correu bem, abrindo caminho a outras explicações. Que bem me sabia aquele dinheiro de bolso ao fim do mês!
Recordo um momento de humor e aflição, devido a um atrevimento meu numa aula de História. Foi na véspera de um 1.º de Dezembro. A professora dissertava sobre o estado em que o País ficara depois da dominação espanhola. Dizia ela: «A marinha estava desorganizada, a indústria desmantelada, o comércio...». Inopinadamente, interrompi-a: «O comércio estava fechado... era feriado!». Os meus colegas riram muito, mas a professora é que não achou piada à graçola. Resultado: fui expulso da aula e mandado apresentar ao “Senhor Director”!
Foi com o rabo entre as pernas que bati à porta do seu gabinete. «Então, rapaz, o que é que há?», perguntou-me, percebendo logo que ali havia asneira. Comprometido, contei-lhe o sucedido. Foi com surpresa que entrevi um leve sorriso nos seus lábios, enquanto me ralhava mansamente: «O menino não pode armar-se em engraçado nas aulas, não se esqueça que tem de dar o exemplo. Quando terminar a aula, trate de ir pedir desculpa à senhora professora.» E tudo ficou por ali.
A atitude serena do Dr. José Lopes foi uma lição para mim: um mestre não necessita de dramatizar as situações para se fazer respeitar, basta-lhe um julgamento equilibrado e uma decisão adequada às circunstâncias.
Onde quer que esteja, Bem-Haja Amigo!
PS – Curiosamente, o Externato Braamcamp Freire funcionava onde é hoje a sede do jornal O MIRANTE. 


Fotografias tiradas em 1993 aquando da 
comemoração dos 85 anos do Dr. José Lopes


 Ex-alunos e professores do Externato Braamcamp Freire com o Dr. José Lopes

 O Dr. José Lopes convidou-me para dizer algumas palavras na "sala de aula"

A Dra. Mariana Ginestal Machado, minha excelente professora de Filosofia

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

sábado, 22 de dezembro de 2012

Época de Natal...

... para alguns e de tristeza para muitos.

Presépio (315 x 285 cm)
Paulo Miguel Pinheiro Martinho

Presépio (muito actual: sem vaca nem burro...)
Artesanato do Peru (7 x 8 x 5 cm)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Revelação

Soube há dias que o meu primo Carlos Pinheiro Colaço (cf. post anterior) tem um hobby: a pintura. Com uma particularidade: para ele quaisquer suportes servem... Foi uma agradável surpresa. Gostei muito do que vi. Houve quem dissesse: Temos mais um artista na família... Aqui ficam três exemplos do seu trabalho (atenção: as fotografias são meio-artesanais).




Clicar sobre as fotografias para as ampliar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Encontro de primos

A minha tia Julieta Pinheiro Colaço (Avó Jú para os mais jovens da família) sugeriu um dia que os filhos – Abel Pinheiro Colaço (médico) e Carlos Pinheiro Colaço (professor universitário) – se reunissem mais vezes com os sobrinhos Maria da Piedade Pinheiro Martinho, Rosa Maria Pinheiro Diogo e Adalberto Pinheiro. Pelo menos uma vez por ano, dizia ela, porque “só nos encontramos nos funerais”… expressão que me faz lembrar a "Dedicatória aos Amigos" de Fernando Pessoa (ver aqui).

Os nossos encontros têm acontecido regularmente desde então. Este ano o encontro possível (nem todos puderam comparecer à chamada) deu-se num almoço no restaurante “O Barbas” (Costa da Caparica), onde tudo é do Benfica, incluindo a garoupa e o robalo grelhados que comemos…

 A tia Julieta com os filhos e com os sobrinhos (2006)

 O Abel e o Carlos com as respectivas esposas Teresa e Madalena

  Os três primos presentes no almoço (Abel, Piedade e Carlos)

domingo, 16 de dezembro de 2012

Carteiristas há muitos

Meu artigo publicado em 13.Dez.2012 no semanário O MIRANTE

Carteiristas há muitos, os propriamente ditos e os outros. Os propriamente ditos são os carteiristas encartados, digamos assim, como os que operam em Lisboa, sobretudo em áreas frequentadas por turistas.

Dizia um jornal há dias que um carteirista de 55 anos havia sido presente ao DIAP 41 vezes desde 1999. Este é um bom exemplo de carteirista encartado, embora não se saiba se pertence a alguma Associação Nacional de Carteiristas, com cartão e tudo, ou se a profissão consta do bilhete de identidade.
Mais dizia a notícia que o homem não ofereceu resistência no momento da detenção – o que, de acordo com a PSP, revelava “maturidade criminosa” – e foi entregue ao Estabelecimento Prisional de Lisboa para cumprir uma pena de prisão em “regime de dias livres”. Que quer isto dizer? Significa que se apresentava voluntariamente todas as sextas-feiras à noite e ficava encarcerado até à manhã da segunda-feira seguinte. Porquê? Porque o juiz entendeu que o crime cometido não fora especialmente gravoso, e não existiam motivos para que o condenado ficasse longe da família e se sujeitasse a perder o emprego. Ora aqui está uma condenação humanizada: o juiz não quis que o carteirista perdesse o emprego e zelou pelo bem-estar familiar.
Os carteiristas encartados são perigosos para o País? Verdadeiramente, não. É certo que causam incómodos pessoais e não são publicidade que se recomende junto dos turistas, mas não são especialmente perigosos. Roubam uma carteirita aqui, outra ali, às vezes até com pouco dinheiro, que a crise a todos afecta. Numa palavra, procuram apenas ganhar a vidinha.
O problema para o País não são os carteiristas propriamente ditos, são os outros. Pelo que consta nos órgãos de comunicação social, esses outros usam gravatas caras e fatos de estilo; movimentam-se em instituições onde está em jogo dinheiro graúdo; conhecem bem os paraísos fiscais; fazem falcatruas, provocam desfalques e rombos bancários; promovem parcerias ruinosas para o Estado. Aparentemente são difíceis de identificar, pelo que – oh justiça suprema! – andam por aí à solta, sem cuidados ou receios de maior.
E quem paga as malfeitorias desses outros carteiristas? Somos todos nós, claro, os cidadãos comuns. A crise em que o País se encontra não aconteceu por acaso. Dizem-nos que a causa do “buraco” é os portugueses terem andado a gastar acima das suas possibilidades. A verdade é outra, apesar de alguém do DCIAP nos ter dito, “olhos nos olhos”, que “os nossos dirigentes não são corruptos”.
Agora, ao fim de tantos ajustamentos, optimismos e previsões falhadas, vêm dizer-nos que é necessário “refundar” umas coisas… Será desta que vamos mesmo ao “fundo”? Talvez não, calma. Não foi um distinto banqueiro que afirmou há dias que o povo aguenta ainda mais austeridade? Então…

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Eles levam tudo, eles levam tudo...

... e até levaram o marco do correio do Largo do Leão
(no enfiamento da Avenida Manuel da Maia, Lisboa)


Clicar sobre a fotografia para a ampliar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Como dás as aulas?

Meu artigo publicado em 29.Nov.2012 no semanário O MIRANTE

O Nelo entrou no meu gabinete e, após umas primeiras palavras de circunstância, perguntou-me: «Como dás as aulas?». Percebi que o assunto era sério, porque vi comoção no olhar do meu colega.

Ambos tínhamos em comum uma turma do curso de Física (1978-1983) na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Eram alunos que tinham uma craveira intelectual acima da média. De entre eles, vieram a destacar-se, por exemplo, os actuais professores da FCUL João Lin Yun (Astrofísica), Luís Matias (Geofísica) e Margarida Cruz (Física da Matéria Condensada), e o investigador do Laboratório Nuclear de Sacavém Nuno Pinhão (Física Atómica e Molecular). Como eu não tinha razões de queixa da turma e os mesmos alunos consternavam o Nelo pelo seu alheamento nas aulas, percebe-se a pergunta: «Como dás as aulas?».
Que podia eu responder ao Nelo que ele não soubesse? Foram momentos de grande constrangimento. Julgo que o que lhe disse não deve ter servido para muito, porque o problema não tinha a ver com a competência científica dele, nem com a preparação das aulas ou a falta de empenhamento. A questão era outra… e eu nada podia fazer para o ajudar a desatar aquele nó cego.
Rómulo de Carvalho disse um dia, numa entrevista ao Jornal de Letras, que a aptidão para o ensino «não é coisa que os professores aprendam nas escolas, quando estão a preparar-se para a profissão, é uma coisa natural», ao que acrescentou um “mas”: «fartei-me de trabalhar, sabe, fartei-me de trabalhar.» É claro que um candidato a professor pode apreender ensinamentos no sentido de tornar mais eficaz a sua aptidão para comunicar, mas tais ensinamentos são apenas condições necessárias, que não suficientes.
Há qualquer coisa de indefinível que faz com que os bons professores – aqueles que marcam os alunos e são recordados com carinho – se destaquem dos outros. Serão, em geral, as qualidades humanas? Será, em particular, o perfil físico? O tom de voz? A experiência? O empenhamento? A honestidade? A humildade? A imaginação? A disponibilidade? O jeito para dialogar? A capacidade de fomentar e gerir cumplicidades? Não sei. Sei apenas que dos professores bem se pode dizer que “são muitos os chamados... mas poucos os escolhidos”.
PS – Há dias enviei um email a um dos alunos mencionados acima para lhe pedir uma informação. Já não contactávamos há uns trinta anos… E eis que, na volta do correio, ele me surpreendeu: «É com enorme gosto que recebo e leio uma mensagem sua. Gostaria que soubesse que foi dos melhores professores que tive na FCUL, alguém de quem guardo uma recordação muito positiva e construtiva.» O leitor não acha natural que este testemunho me tenha dado uma grande alegria?

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Dave Brubeck (1920-2012)


Morreu ontem o famoso compositor e pianista de jazz americano Dave Brubeck.

Descobri o tema Take Five (de Paul Desmond) no princípio da década de 1960 em Paris. Foi uma revelação. Ouvia-se um pouco por todo o lado. Um êxito avassalador. 

Vale a pena recordar o tema aqui (1959).

Cf. Biografia de Dave Brubeck aqui.

Eles garantem que não terão dito o que disseram...




"Objectos vegetais" da autoria de:
Paulo Miguel Pinheiro Martinho 
Cf. http://madeiraviva.blogspot.pt/

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

In Memoriam Doutor J.L. Nunes Petisca (1922-1996)


Autor da fotografia: Joaquim António Emídio

José Lino Nunes Petisca nasceu na Chamusca (Ribatejo) a 10 de Maio de 1922 e morreu em Lisboa a 3 de Dezembro de 1996. Era licenciado e doutorado em Ciências Médico–Veterinárias. Foi um distinto Patologista fundador de uma autêntica Escola Portuguesa de Anátomo–Histopatologia Veterinária. (…) Nunes Petisca gostava de ensinar. Era de fácil abordagem e tornava-se facilmente querido dos seus alunos, que o respeitavam e admiravam. (…) A Universidade Técnica de Lisboa distinguiu-o com o título de “Conselheiro da Universidade” e a Ordem dos Médicos-Veterinários agraciou-o com o título de “Membro Honorário”. Foi autor de mais de duzentas publicações dispersas por numerosas revistas científicas nacionais e estrangeiras (ver texto completo aqui). Publicou artigos de divulgação científica em periódicos da nossa terra natal comum: revista trimestral Chamusca Ilustrada e semanário O Mirante.

Consultando a base de dados norte-americana ISI Web of Knowledge, constatei que trabalhos científicos assinados pelo Doutor J.L. Nunes Petisca continuam a ser citados a nível internacional. 

Segue-se a listagem de artigos de autores estrangeiros publicados após o falecimento do Doutor J.L. Nunes Petisca (faz hoje 16 anos), onde são citados trabalhos científicos seus. Dele se pode dizer que o Cientista morreu... mas a Obra perdura!

Author(s): Cetre-Sossah, Catherine; Billecocq, Agnes; Lancelot, Renaud; et al.
Source: PREVENTIVE VETERINARY MEDICINE  Volume: 90   Issue: 1-2   Pages: 146-149   DOI:10.1016/j.prevetmed.2009.03.011   Published: JUL 1 2009

Author(s): Tulman, E. R.; Delhon, G. A.; Ku, B. K.; et al.
Book Editor(s): VanEtten, JL
Source: LESSER KNOWN LARGE DSDNA VIRUSES  Book Series: CURRENT TOPICS IN MICROBIOLOGY AND IMMUNOLOGY   Volume: 328   Pages: 43-87   Published: 2009

Author(s): Bhanuprakash, V; Indrani, BK; Hosamani, M; et al.
Source: COMPARATIVE IMMUNOLOGY MICROBIOLOGY AND INFECTIOUS DISEASES  Volume: 29  Issue: 1   Pages: 27-60   DOI: 10.1016/j.cimid.2005.12.001   Published: JAN 2006

Author(s): Boinas, FS; Hutchings, GH; Dixon, LK; et al.
Source: JOURNAL OF GENERAL VIROLOGY  Volume: 85   Pages: 2177-2187   DOI: 10.1099/vir.0.80058-0   Part: Part 8   Published: AUG 2004

Author(s): Wesonga, HO; Bolske, G; Thiaucourt, F; et al.
Source: ACTA VETERINARIA SCANDINAVICA  Volume: 45   Issue: 3-4   Pages: 167-179   DOI:10.1186/1751-0147-45-167   Published: 2004

Author(s): Wesonga, HO; Bolske, G; Thiaucourt, F; et al.
Source: ACTA VETERINARIA SCANDINAVICA  Volume: 45   Issue: 3-4   Pages: 167-179   DOI:10.1186/1751-0147-45-167   Published: 2004

Author(s): Goncalves, R; Ferreira-Dias, G; Belo, A; et al.
Source: SMALL RUMINANT RESEARCH  Volume: 46   Issue: 1   Pages: 51-62   Article Number: PII S0921-4488(02)00172-4   DOI: 10.1016/S0921-4488(02)00172-4   Published: OCT 2002

Author(s): Grieco, V; Boldini, M; Luini, M; et al.
Source: JOURNAL OF COMPARATIVE PATHOLOGY  Volume: 124   Issue: 2-3   Pages: 95-101   DOI:10.1053/jcpa.2000.0433   Published: FEB-APR 2001

Author(s): Ferreira, AJA; Jaggy, A; Varejao, AP; et al.
Source: JOURNAL OF SMALL ANIMAL PRACTICE  Volume: 41   Issue: 4   Pages: 165-168   DOI:10.1111/j.1748-5827.2000.tb03187.x   Published: APR 2000

Author(s): Mellor, PS; Leake, CJ
Source: REVUE SCIENTIFIQUE ET TECHNIQUE DE L’OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES  Volume: 19   Issue: 1   Pages: 41-54   Published: APR 2000

Author(s): Abd El-Rahim, IHA; Abd El-Hakim, U; Hussein, M
Source: REVUE SCIENTIFIQUE ET TECHNIQUE DE L’OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES  Volume: 18   Issue: 3   Pages: 741-748   Published: DEC 1999

Author(s): Bashiruddin, JB; Santini, FG; De Santis, P; et al.
Conference: COST 826 Workshop on Ruminant Mycoplasmoses Location: THESSALONIKI, GREECEDate: APR 24-26, 1996
Source: VETERINARY RECORD  Volume: 145   Issue: 10   Pages: 271-274   Published: SEP 4 1999

Author(s): Scanziani, E; Paltrinieri, S; Boldini, M; et al.
Conference: Workshop on Mycoplasmas of Ruminants- Pathogenicity, Diagnostics, Epidemiology and Molecular Genetics of Cost Action 826 Location: THESSALONIKI, GREECE Date: APR 24-26, 1996 
Source: JOURNAL OF COMPARATIVE PATHOLOGY  Volume: 117   Issue: 2   Pages: 127-136   DOI:10.1016/S0021-9975(97)80029-1   Published: AUG 1997

Author(s): Carrasco, L; Bautista, MJ; GomezVillamandos, JC; et al.
Source: VETERINARY RESEARCH  Volume: 28   Issue: 1   Pages: 93-99   Published: 1997

ADENDA DE CITAÇÕES (10.Out.2015)

Seroepidemiological survey on Rift Valley fever among small ruminants and their close human contacts in Makkah, Saudi Arabia, in 2011
By: Mohamed, A. M.; Ashshi, A. M.; Asghar, A. H.; et al.
REVUE SCIENTIFIQUE ET TECHNIQUE-OFFICE INTERNATIONAL DES EPIZOOTIES  Volume: 33   Issue: 3   Pages: 903-915  Published: DEC 2014

Renal epithelial cells can release ATP by vesicular fusion
By: Bjaelde, Randi G.; Arnadottir, Sigrid S.; Overgaard, Morten T.; et al.
FRONTIERS IN PHYSIOLOGY  Volume: 4     Article Number: 238  Published: 2013

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Nota pessoal
Conheci o Doutor José Petisca (nome por que era conhecido na Chamusca) e estive com ele em diversas situações: na sua residência em Lisboa acompanhando Joaquim António Emídio aquando da entrevista dada ao jornal O Mirante, em reuniões de trabalho no Laboratório Nacional de Investigação Veterinária e até numa viagem de serviço a Pinhel (tivemos um projecto de trabalho em comum, mas infelizmente não chegou a concretizar-se). Nesses contactos pude apreciar as qualidades humanas do Doutor José Petisca que caracterizam os homens sábios. 


(Foto Romão)     07.Maio.1977 - O Doutor José Petisca ao lado de sua esposa (x) 
num Encontro de Professores e Alunos da antiga Escola Secundária da Chamusca
organizado por João José Samouco da Fonseca, director da Chamusca Ilustrada.