terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estadia em Paris e... a Avenida das Tílias

Depois de ter sido admitido no Laboratório Nuclear de Sacavém em 1961, fui enviado para França em 1962 para completar os estudos em Física e Engenharia de Reactores Nucleares, tendo regressado em 1965. Foi assim que conheci Paris na primeira metade dos anos 60.
Durante esta permanência fui colega de hotel do Prof. Doutor António Marcos Galopim de Carvalho – Galopim para os mais íntimos – que havia sido meu assistente de Geomorfologia na Faculdade de Ciências de Lisboa. Aliás, foi o Galopim que me “puxou” para o Hotel Blanadet (Rue Monge) após uma curta estadia no Hotel Lisbonne (Rue Vaugirard, do lado do boulevard de Saint Michel) – tudo no Quartier Latin ou suas proximidades.

Acontece que, há dias, o Galopim encaminhou um e-mail que recebera com um power-point intitulado “Os Nostálgicos Anos 60” recheado de canções de artistas que então ouvíamos regularmente (Françoise Hardy, Sylvie Vartan, France Gall, Richard Anthony, Bécaud, Adamo e tantos outros).

Dizia o Galopim e a Isabel (sua esposa):
Caros amigos
Recebemos este e-mail e de quem nos lembrámos no imediato? Do casal Eduardo - Piedade!, das inúmeras vezes que estas canções foram entoadas e dos bons momentos que a elas estiveram associados. Bons tempos, de que restam saudades sem fim.
Um abraço bem apertado, esperando que se deliciem tanto quanto nós ao tornar a ouvir o que nunca foi esquecido.
Isabel e Galopim

E aí pensei: É desta vez que vou escrever um post sobre a estadia em Paris!
Mas… pensando melhor: Escrever para quê? O Galopim já o fez tão bem em livro! Basta copiar a “Avenida das Tílias”: está lá quase tudo o que eu poderia dizer para tipificar o ambiente geral em que vivíamos… E foi o que fiz. Apreciem a escrita colorida do Galopim. 


«Avenida das Tílias
Como disse atrás, França ainda era para nós, neste começo dos anos 60, o destino da maioria dos nossos jovens em início de carreira docente e/ou científica, a fim de aí estagiarem com os mais conceituados mestres. Essencialmente francófonos, tínhamos, com as conceituadas instituições francesas, grande proximidade e um relacionamento vindo do último quartel do século XIX. Nas estantes das nossas bibliotecas dominavam os livros escritos em francês. Nem todos os estudiosos liam o inglês com a eficácia desejável, como acontece nos dias de hoje, e eram raros aqueles que se serviam dos livros alemães, não obstante a qualidade das obras escritas nas duas línguas e o prestígio dos respectivos autores e dos laboratórios e universidades nos quais exerciam as suas actividades.

Estagiar em França fora a principal opção dos docentes e investigadores de diversos domínios científicos que me antecederam e, ao chegar a minha vez de alargar os horizontes do conhecimento, foi para França que me mandaram. O boom da investigação científica no pós-guerra, à escala mundial, com relevo para os Estados Unidos da América, e a globalização da língua inglesa, quase puseram fim a esta nossa dependência do saber francófono. Como um dos derradeiros representantes de uma classe de bolseiros na terre des gaulois, ali estava eu num pequeno hotel, na Cidade das Luzes, a cerca de um quarto de hora, a pé, do Museum.

Naquele ano de 1962, fui o primeiro de uma série de portugueses, a cumprirem estágios científicos em Paris, que, por meu intermédio, fixaram residência neste mesmo hotel. Recomendado por um amigo, jornalista de profissão, fui responsável por uma vaga de admissões de colegas, na maioria geólogos. De início instalados num qualquer andar, Mlle. Bruel ia-os encaminhado para o último, à medida que aí vagava um quarto ou um apartamento. Assim, o 6.º andar, por nós baptizado como Avenida das Tílias, passou a ser uma muito unida comunidade lusíada, com um americano encravado e bem aceite no seu seio. Bill McLean, texano, estudante de sociologia, a preparar uma tese de doutoramento sobre os graƒƒittis de Paris, foi um agradável companheiro nesses anos. Sozinho, cozinhava, tratava da sua roupa e do arrumo do seu apartamento que, como diria a minha mãe, era um brinquinho. Muito crítico da sociedade americana e um tanto ingénuo, fora casado com uma alemã de quem se separara porque, como ele próprio afirmava, num certo tom malicioso,
- Elles [as alemãs] ne savent pas ƒaire l’amour.

Este nosso amigo corria os bairros urbanos e suburbanos da cidade, a fotografar escritos, pinturas, desenhos e outros riscos nas paredes e onde quer que os descobrisse. Entrava em tudo o que eram instalações sanitárias de cafés, restaurantes, escolas, universidades e quartéis, em busca de todos os elementos que servissem o seu objectivo. No apartamento convertia todos esses elementos em fichas que sistematizava por temas sociais, políticos, escolares, de caserna, pornográficos, etc. Com o regresso a Portugal perdi-lhe o rasto, mas, anos mais tarde, ao consultar um catálogo de uma livraria francesa, tive a alegria de ver o seu nome como autor de um volumoso estudo – a sua dissertação – sobre os graffittis de Paris.
No período da minha estadia, viviam sete portugueses no último andar do Blanadet, todos com varanda para a rua, e, ainda, o nosso amigo texano, nas traseiras, com uma óptima vista para as arènes de Lutèce. Da comunidade lusa apenas dois casais dispunham de apartamento com sala e mesa suficientemente amplas, para as confraternizações que fazíamos, e uma pequena cozinha. Para serem T1 só lhes faltava a casa de banho privativa, coisa que não havia em nenhum dos andares. Havia, sim, um WC colectivo, no corredor, e uma casa de banho, propriamente dita, com chuveiro, no 3.º andar. Para tomar um duche, o cliente pedia a chave na recepção e pagava a quantia estipulada. Para obviar a esta deficiência muito francesa, os quartos e apartamentos tinham lavatório com água quente e fria e um bidé.

Um desses dois apartamentos mais amplos era nosso. O outro era o dos Martinho. De vez em quando, aos domingos, num ou noutro, reuníamo-nos todos em portuguesíssimos almoços, prolongados e ruidosos, contando e ouvindo episódios do dia-a-dia de cada um de nós, ávidos de falar a própria língua, ao fim de uma semana de francofonia e de restaurante universitário em self-service. Nessa altura, em que o franco francês rondava os seis escudos (o preço de um litro de gasolina), comprava-se no talho um coelho médio por sete a oito francos, com a curiosa particularidade de a metade dianteira, o devant de lapin, quase sempre rejeitado pela clientela mais desafogada, ser vendida aos clientes de menores posses por apenas um franco. O dèrrière, ou seja, os quartos traseiros, bem mais caro, ficava pelos restantes seis ou sete. Com as cabeças, as mãos, os peitos e as fressuras de três ou quatro coelhos comia-se, no dizer de todos, o melhor arroz do dito, um pouco ao jeito do sabor da cabidela perfumada com cominhos.

Galopim, Isabel, Miguel Ramos, Piedade e Martinho

- Este manjar devia ser comido de joelhos, acompanhado de louvores à Natureza e à arte culinária, e sempre regado por um bom tinto du Rhône – afirmava o Miguel Ramos, um saudoso e alegre amigo, prematuramente desaparecido, a chupar à mão, uma a uma, as finas costelinhas do animal.

As nossas confraternizações prolongavam-se tarde fora, de mistura com muita conversa e animação que crescia na razão inversa do nível do líquido nas respectivas bouteilles. Muitas destas conversas visavam histórias decorrentes da nossa condição de irmãos dos imigrantes que enxameavam os bairros mais pobres dos arredores de Paris e ali asseguravam as tarefas profissionais menos qualificadas, que os franceses rejeitavam, à semelhança do que hoje aqui se passa com os milhares de africanos que tão mal tratamos, já esquecidos da experiência dolorosa que tivemos por essa Europa rica.
Uma outra causa de uma certa menorização, de que éramos alvo, residia na nossa condição de naturais de um país sem prestígio internacional, conduzido por um ditadorzinho a que nós, ovelhas submissas, não tínhamos artes de pôr fim. Os ventos da descolonização de África sopravam fortes e Salazar e sua política, de um Portugal uno e indivisível, ao arrepio desses ventos, eram causa de uma antipatia e de uma hostilidade que acabava por se reflectir em nós. Foi este o pano de fundo da nossa vivência parisiense, o que não quer dizer que não tivéssemos, todos nós, tido relações de amizade e de trabalho que apertaram laços para a vida.»

Et c'est tout...

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