... em Santa Cruz, para além do "obstáculo".
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Antero de Quental...
... na Meia-Laranja, junto à antiga igreja de Santa Cruz.
Redenção
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...
Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!
Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...
Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?
Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.
E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!
Antero de Quental, in “Sonetos”
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
domingo, 9 de agosto de 2015
Gaivota vigilante...
... na praia de Santa Cruz
clicar para ampliar
O filhote deixara-se cair numa "armadilha" donde só se libertou ao fim de três dias.
A gaivota não arredou pé até o filhote conseguir sobrevoar o obstáculo.
sábado, 8 de agosto de 2015
A razão a quem a tem
05.Agosto.2015
E-mail enviado a Dr. JM Paquete de Oliveira
Provedor do Leitor do jornal Público
Há umas semanas enviei um texto para a
Directora do Público tendo em vista a sua eventual publicação.
O artigo não foi publicado. Contra isso nada tenho a dizer, dado o direito que assiste ao Jornal de publicar, ou não, o que muito bem entende.
O que não acho bem, para não dizer que acho mal, é o interessado ficar completamente “no escuro”, por tempo indeterminado, sem saber o que vai acontecer ou o que poderá esperar. Ele irá "descobrir" a resposta, por si, ao fim de um intervalo de tempo maior ou menor...
Face a esta realidade, pergunto: Não será possível organizar o serviço de tal modo que, tendo sido tomada uma decisão por quem de direito, ela fosse comunicada ao interessado por um administrativo através de um simples e-mail padronizado?
Acusar a recepção seria, só por si, um acto de boa educação e de respeito pela pessoa que se deu ao trabalho de escrever um texto a pensar no vosso jornal. Desejável seria completar a informação, com um sim ou um não (há maneiras de dizer "não" que não ferem susceptibilidades...).
Com os meus melhores cumprimentos,
Eduardo Martinho
O artigo não foi publicado. Contra isso nada tenho a dizer, dado o direito que assiste ao Jornal de publicar, ou não, o que muito bem entende.
O que não acho bem, para não dizer que acho mal, é o interessado ficar completamente “no escuro”, por tempo indeterminado, sem saber o que vai acontecer ou o que poderá esperar. Ele irá "descobrir" a resposta, por si, ao fim de um intervalo de tempo maior ou menor...
Face a esta realidade, pergunto: Não será possível organizar o serviço de tal modo que, tendo sido tomada uma decisão por quem de direito, ela fosse comunicada ao interessado por um administrativo através de um simples e-mail padronizado?
Acusar a recepção seria, só por si, um acto de boa educação e de respeito pela pessoa que se deu ao trabalho de escrever um texto a pensar no vosso jornal. Desejável seria completar a informação, com um sim ou um não (há maneiras de dizer "não" que não ferem susceptibilidades...).
Com os meus melhores cumprimentos,
Eduardo Martinho
07.Agosto.2015
E-mail recebido ontem
Prezado
leitor Eduardo Martinho
Dei conta à Direcção do jornal deste seu reparo. Tem razão. Já outros leitores
têm manifestado esta opinião.
Com os melhores cumprimentos
JM Paquete de Oliveira
Com os melhores cumprimentos
JM Paquete de Oliveira
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Que efeito Sampaio da Nóvoa? (II)
O post anterior foi objecto de reacções por parte
de alguns leitores. Umas interessantes, outras nem por isso. Um colega
e amigo enviou-me um e-mail onde, no essencial, exprimia duas ideias: reconhece
a injustiça, mas exonera Sampaio da Nóvoa de responsabilidades. Dizia ele:
(1) «É também compreensível que te sintas magoado pela
injustiça feita ao teu genro no concurso para catedrático de Geologia.»;
(2) «[…] não vejo como possas assacar as culpas a António
Sampaio da Nóvoa, então Reitor da Universidade, no chumbo do teu genro. A sua
participação foi abrir o concurso, nomear o Júri, fazer-se representar como
Presidente do Júri e depois homologar a decisão do Júri. Essas são missões do
Reitor.»
O facto de se tratar do “meu genro” não tem relevância
digna de realce. A vantagem é que fiquei a conhecer o processo “por dentro”. Se
conhecesse em pormenor outras situações semelhantes, julgo que também as
denunciaria com o mesmo vigor.
Contrariamente ao meu colega e amigo, eu vejo razões para
assacar culpas a Sampaio da Nóvoa no chumbo do meu genro.
Comecemos por dois factos menos relevantes, mas com um
certo significado:
(a) não me parece normal que Sampaio da Nóvoa tenha assinado
em plenas férias do Verão (02.Agosto.2011) um aviso de abertura de um concurso para
professor catedrático (aviso a que se pretendia dar ampla divulgação, pelo menos
segundo o estipulado no próprio Edital);
(b) não me parece normal que na composição de um júri
para a especialidade de Geodinâmica Externa não tenha entrado nenhum
especialista em Geodinâmica.
Mas a questão central está na homologação da decisão do júri do concurso. E qual foi a decisão
crucial?
No início, diz o Edital de abertura do concurso:
«Doutor António Sampaio da Nóvoa, Reitor da Universidade
de Lisboa: Faz saber que […] se encontra aberto concurso para recrutamento de
um posto de trabalho de Professor Catedrático, do Departamento de Geologia, na
área científica de Geologia, especialidade de Geodinâmica Externa.»
Mais adiante, o Edital refere-se à avaliação em mérito
absoluto:
«Encontrando-se as candidaturas devidamente instruídas (…),
a admissão em mérito absoluto dos candidatos dependerá da posse de currículo
global que o júri considere revestir mérito científico compatível com a área ou
áreas disciplinares para que foi aberto o concurso.»
Ora, consultando o currículo científico do candidato (ver aqui), constata-se que, entre 2001 e 2011, Fernando Ornelas Marques (co)publicou
quase meia centena de artigos em prestigiadas revistas internacionais (International Peer Reviewed Publications), como Earth and Planetary Science Letters,
Environmental Geology, Geological Society of America Memoir, Geology,
Geophysical Journal International, Geophysical Research Letters, Journal of
Applied Geophysics, Journal of Geophysical Research, Journal of Geoscience
Education, Journal of Structural Geology, Physics and Chemistry of the Earth, Tectonics e Tectonophysics.
[Reportada a actualização a 11.Julho.2015, o CV de Fernando
Ornelas Marques compreende 78 artigos no ISI ResearcherID, 77 dos quais com 872
citações e o parâmetro h-index igual a 17. Haverá actualmente algum geólogo
português que se lhe compare?]
É nestas circunstâncias que o júri do concurso,
na sua apreciação, concluiu que o currículo do candidato não tinha
mérito científico compatível com a área disciplinar (Geologia...) para que foi
aberto o concurso. Em consequência, chumbou liminarmente o candidato em mérito
absoluto! Alguém, algures, deverá ter cogitado em provérbios populares como corta-se o mal pela raiz ou mata-se o bicho, acaba-se a peçonha… Só
que a verdade é incómoda, não se dá bem com manivérsias.
Com a mesma perplexidade de sempre, continuo a
interrogar-me: Que se passou para o júri conseguir a “proeza” de reprovar
Fernando Ornelas Marques em mérito absoluto?! Como é possível que o júri tenha produzido
uma tal aberração?! Que dizer de um júri que comete um tal desvario?!
Pois bem, Sampaio
da Nóvoa homologou a decisão do júri, o que significa que a aprovou, que a
reconheceu oficialmente como legítima!
Dito isto, para mim a conclusão só pode ser uma: A responsabilidade última pela malfeitoria feita ao “meu genro” é do
Professor Doutor António Sampaio da Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa à
data dos factos. Ponto.
O meu colega e amigo ainda diz, a terminar o e-mail:
«De todos os nomes até agora aventados [como candidatos presidenciais, suponho], António
Sampaio da Nóvoa é o que mais me satisfaz.»
Aproveito a oportunidade para afirmar que não me move
qualquer motivação de natureza política. Esta minha “luta” vem de há três anos,
quando ainda não se falava do que se fala hoje. Só voltei a "mexer" no assunto agora porque Sampaio da Nóvoa decidiu apresentar-se como candidato presidencial e, portanto, é do
interesse colectivo dos portugueses saber “que decisões tomou, grandes ou
pequenas, na medida em que elas contribuam para traçar o perfil de quem se
propõe ocupar o cargo mais elevado da nação.”
domingo, 12 de julho de 2015
Que efeito Sampaio da Nóvoa?
Ao apresentar publicamente a sua candidatura à
presidência da República, António Sampaio da Nóvoa (ASN) ficou obviamente
sujeito ao escrutínio dos portugueses, sejam eles jornalistas, comentadores ou
simples cidadãos. É assim que funciona a democracia. Pretende-se neste post contribuir
para o escrutínio de ASN enquanto reitor da Universidade de Lisboa (UL) durante
dois mandatos (2006-2013). Antes, porém, afigura-se oportuno evocar outras
intervenções públicas afins.
1. João
Miguel Tavares (JMT), no artigo “O burocrata Sampaio da Nóvoa”
(Público, 23.Junho.2015), comentou o caso de um pedido formulado por um grupo
de moradores de Oeiras no sentido de embargar as obras de ampliação de um lar
de acolhimento para adultos com paralisia cerebral. Soube-se pelos jornais que
ASN fora o primeiro signatário deste pedido. Face ao esclarecimento dado
posteriormente por ASN para justificar a sua acção, JMT afirmou o seguinte: “parece-me
extraordinário que um homem dado a discursos tão empolgantes (…) troque
subitamente o idealismo mais elevado pela mais deslavada resposta burocrática
só porque está em causa o jardim ao lado de sua casa.”
Houve quem não gostasse desta opinião e classificasse o
artigo como um “exemplo de parvoíces elevadas a artigo de opinião num dos
jornais de referência”. JMT retomou o assunto no artigo “A falta de
escrutínio em Portugal” (Público, 02.Julho.2015), onde esclareceu que “o
escrutínio de um político, sobretudo numa eleição unipessoal, é muito mais do que brincar aos polícias: implica
saber o que fez, com quem fez, quais as suas opções de vida, de onde vem, que
decisões tomou, grandes ou pequenas, na medida em que elas contribuam para
traçar o perfil de quem se propõe ocupar o cargo mais elevado da nação.”
2. Em
contraposição, Jorge Ramos do Ó, professor associado do Instituto de Educação
da UL, num artigo laudatório intitulado “O efeito Sampaio da Nóvoa”
(Público, 30.Junho.2015) enaltece, compreensivelmente, as qualidades do seu
colega, que conhece “há mais de 25 anos”. Desse artigo, chamaram-me a atenção
duas passagens respeitantes à UL.
A primeira é esta: “(...) enquanto reitor da
Universidade de Lisboa, e além do governo da instituição, [Sampaio da Nóvoa] estabeleceu pontes e
articulou ideias suficientes das quais resultaram a mais importante
transformação – a fusão com a Universidade Técnica em 2013 – que a instituição
sofreu desde a sua fundação, há pouco mais de um século atrás”. Sobre esta matéria, há quem
pense que se tratou de um “casamento de conveniência”, mas ainda é cedo para
avaliar os eventuais ganhos de escala resultantes da fusão. Uma coisa é certa:
no ranking das universidades, a UL continua numa posição modestíssima, sendo superada
até por universidades portuguesas mais novas, nascidas quando o Prof. Veiga Simão era
ministro da Educação.
A segunda prende-se com uma afirmação forte:
“Bateu-se por uma universidade do amanhã (…)”. Julgo ter razões
para duvidar que ASN se tenha batido, verdadeiramente, “por uma universidade do
amanhã”. As instituições só podem melhorar “amanhã” através de um esforço
porfiado de reconhecimento do mérito “hoje”, e não através de continuadas
relações de consanguinidade baseadas em preconceitos e em formas de compadrio.
Ora o sistema de avaliação (do mérito) vigente na UL é deste tipo e ASN foi
incapaz de o modificar enquanto reitor. Discursos retóricos podem empolgar
certas plateias, mas não resolvem problemas estruturais graves.
Vejamos duas histórias, uma ficcionada e outra real, que
servem como ilustração do não reconhecimento do mérito na UL.
3. A
história que se segue é ficcionada, mas traduz a lógica de funcionamento do
sistema, muito em especial quando se trata de concursos para preenchimento de
vagas de professor catedrático. Vem no livro “Um Crime na Teia
Universitária” da autoria de um professor da Faculdade de Ciências da
UL (Chiado Editora, 2013). Eis três passagens da fala do director da Faculdade
aquando de um diálogo com o professor responsável pelo Departamento em apreço.
«― Bem Guido, como sabes, após as últimas
reformas de vários colegas, o teu Departamento tem um número de professores
abaixo do número máximo que lhe é permitido ter. Por isso falei com o Reitor e
aceito abrir lugares de professor para o vosso Departamento, entre eles um de
catedrático. Mas não queremos contratar alguém de fora, nem abrir o concurso a
toda a gente, a ideia é promover um dos nossos professores associados com
agregação.
― Bem, fazemos aquilo que se chama um concurso
com fotografia. Vocês no Departamento decidem quem querem promover. E abrimos o
concurso ajustado a essa pessoa, escolhendo por exemplo a área de trabalho
muito bem definida.
― E mais: tens de escolher um júri para o
concurso que seja favorável ao que decidirem. Nota que a lei obriga a que os
membros externos estejam em maioria. Por isso tens de garantir que pelo menos
um irá votar tal como os membros internos. Os restantes não interessam nada.
Servem só para enfeite.»
A história prossegue com a análise dos currículos dos
candidatos internos e com a reunião dos professores catedráticos do
Departamento destinada a escolher “o” candidato. Fica-se então a saber que «A
Ilda era a candidata que tinha melhor currículo e que seria mais justo
promover. Mas ele [Guido] detestava a Ilda, sabia que tinha
mau feitio e antipatizava fortemente com ela.» A partir daqui podemos
imaginar o resto: a Ilda é preterida, apesar de ser a mais competente, e o
escolhido é o Geraldo, uma espécie de lacaio de Silvino, que era o catedrático dominante...
4. Curiosamente,
conheço uma situação que corresponde “exactamente” ao caso romanceado no livro. Conta-se em poucas palavras:
(1) Por
aviso assinado por Sampaio da Nóvoa em 02.Agosto.2011, foi aberto um concurso geral para professor catedrático do
departamento de Geologia da Universidade de Lisboa. Como o concurso foi aberto em plenas férias de Verão (!), não surpreende que tenham concorrido apenas dois candidatos internos - um candidato e uma candidata - e zero candidatos externos (estes poderiam provir de outras
universidades, inclusive estrangeiras, dado que estes lugares são sempre muito apetecidos).
(2) O
júri, escolhido a preceito, decidiu logo à partida chumbar em mérito absoluto (!) o candidato
com melhor currículo (ver AQUI) e deixou em cena a candidata
restante (ver AQUI).
(3) Resultado
óbvio do concurso: o melhor candidato foi eliminado e a candidata foi
promovida.
(4) O
candidato injustiçado ainda recorreu, mas a decisão final do júri foi homologada por Sampaio da Nóvoa que, com a sua assinatura, a converteu
no acto administrativo necessário (e suficiente) para a concretização prática
da finalidade do concurso.
Neste
processo acabou por se verificar ainda uma outra incongruência reveladora do
modo como o sistema funciona: o concurso foi aberto para
preencher “um” lugar de professor catedrático na especialidade “X”,
mas, em consequência do concurso, o departamento de Geologia passou a
ter “dois” professores na especialidade “Y” (a candidata
aprovada e o então presidente do Departamento) e “nenhum” professor
na especialidade para que fora aberto especificamente o concurso por Sampaio
da Nóvoa.
Quer isto dizer que, num aspecto tão crucial para uma “universidade
do amanhã”, ninguém cuidou de cotejar o resultado final do concurso com o objectivo inicial que
motivou a sua abertura. Em termos populares, dir-se-ia que ninguém cuidou de saber por que
razão não deu a bota com a perdigota.
E assim vamos vegetando nesta "pátria parada à beira de um rio triste"...
PS – A história real do concurso pode ser
lida AQUI.
* * * * * * * * * * * * * *
Pausemos então...
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Circo PAF apresenta...
... palhaço Nai e palhaço Nai
Pergunta do referendo:
"Apoia incondicionalmente a austeridade defendida pelos credores para Portugal?"
(Inimigo Público, 10.Julho.2015)
quinta-feira, 9 de julho de 2015
quarta-feira, 8 de julho de 2015
"Ditosa Língua", de Hélia Correia
Hélia Correia recebeu ontem o Prémio Camões em Lisboa.
Este é o texto completo que a escritora leu na entrega do
prémio.
![]() |
| Hélia Correia com o meu neto João Guilherme |
O peso destes
nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza
ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos,
menor pavor inspira a sua sombra.
Não venho aqui
como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por
ambições identitárias. Com Luís de Camões passeio em Sintra, enquanto ele
espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco
ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço,
Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me
infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que
esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu,
uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com
eles, não entre eles. E assim estou bem.
Devo falar de
tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome
maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha
escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu
como língua materna o português.
Também com
gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo
Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo
caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátria. Que me imagino
armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela
independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se
perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que
morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!
Rodrigues Lobo
formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar,
grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para
resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o
castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação,
tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de
oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a
erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande
resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.
Faz agora oito
séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E
prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que
dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia
ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não
de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez
não passe de especial, convidativa variedade na fonética.
Fácil é para nós
esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo
e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi
modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas
décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação.
Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se
detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi,
não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições
presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está
hoje a acontecer.
Esta paixão pela
língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos.
Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu
multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo.
Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a
disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não
geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem
História. E a História é bruta e territorial.
Para abordar o
assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários
delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me
por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve
opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos
e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum
moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como
vingança.
As línguas são os
únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se,
mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre
imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão
é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na
bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e
procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica
progride.
Que desígnio será
o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude,
reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas,
seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo
Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância
cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos
imaginários"?
Como num
pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de
destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por
ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média
que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a
palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se,
tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se
extinguir, extingue-se tudo.
O nosso mundo de sobreviventes
está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas
diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construírem
uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao
brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve
Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas
narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol considera Lispector «uma irmã inteiramente
dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar - não como o invasor
ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração - um espaço livre, um sítio
para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é
a ditosa língua, minha amada.
Eu dedico este
prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda
paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a
poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual
não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira,
"não seríamos nada".
ζουν Ελλ?δα ,
zoun Elláda, viva a Grécia.
terça-feira, 7 de julho de 2015
segunda-feira, 6 de julho de 2015
8 extinções 8
Trabalhei ao longo de mais de 40 anos
no extinto
Laboratório de Física e Engenharia Nucleares (1961-1978)
da extinta Junta de Energia Nuclear
no extinto Instituto de Energia (1979-1985) e
no extinto Instituto de Ciências e Engenharia Nucleares (1985-1992)
do extinto Laboratório Nacional de
Engenharia e Tecnologia Industrial
no extinto Instituto de Ciências e Engenharia Nucleares
(1992-1994)
do extinto Instituto
Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial
e, finalmente,
no extinto
Instituto Tecnológico e Nuclear (1995-2002)
que, em 2011/2012, passou a Campus Tecnológico e Nuclear
integrado no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.
domingo, 5 de julho de 2015
Abensonhado MIA COUTO faz hoje 60 anos
Biografia de Mia Couto
Horário do Fim
morre-se nada
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
morre-se tudo
quando não é o justo momento
e não é nunca
esse momento
Mia Couto
quando chega a vez
é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos
morre-se tudo
quando não é o justo momento
e não é nunca
esse momento
Mia Couto
in "Raiz de Orvalho e
Outros Poemas"
sábado, 4 de julho de 2015
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Joaquim Veríssimo Serrão
quarta-feira, 1 de julho de 2015
terça-feira, 30 de junho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
sexta-feira, 26 de junho de 2015
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Parabéns...
a toda a equipa nacional de futebol sub-21, que chegou às meias-finais do
Europeu 2015 e vai estar presente nos Jogos Olímpicos no Brasil (2016)
terça-feira, 23 de junho de 2015
domingo, 21 de junho de 2015
Pela translação é que vamos...
... viajando pelas estações do ano,
a uns 30 quilómetros por segundo!
clicar para ampliar
(…) Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei. (…)
António Gedeão
Versos de Poema para Galileo (aqui)
sábado, 20 de junho de 2015
Lampeiros...
José Pacheco Pereira, PÚBLICO, 20.Junho.2015
(…) Enquanto
ninguém disser na cara do senhor Primeiro-ministro ou do homem “irrevogável”
dos sete chapéus, ou das outras personagens menores, esta tão simples coisa: “o
senhor está a mentir”, e aguentar-se à bronca, a oposição não vai a lado
nenhum. (…)
Foto adaptada (ver original aqui)
sexta-feira, 19 de junho de 2015
Empatas...
Grécia vs. Europa & PS vs. PAF
ou "Nem o pai morre, nem a gente almoça"...
Diário de Notícias, 19.Junho.2915
quinta-feira, 18 de junho de 2015
quarta-feira, 17 de junho de 2015
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