Compreende-se a reacção. Hoje em dia, o automóvel é quase obrigatório. Dá prestígio social. Mesmo que se tenha de cortar no essencial para pagar as prestações, ou que a meio do mês já não haja dinheiro para a gasolina. Já lá vai o tempo em que o aparecimento da primeira bicicleta a motor na Chamusca foi motivo de conversa. Automóveis, havia poucos. Não era arriscado atravessar a rua principal. Nessa altura, ganhava-se pouco. Os pobres tinham consciência da sua condição. Não pretendiam passar por aquilo que não eram.O facto de não se ter automóvel cria, por vezes, algumas dificuldades. Não nos podemos dar ao luxo de preguiçar de manhã na cama, porque temos de nos levantar a horas certas para não perder o autocarro. Em domingos de sol, apetecendo ir para a linha do Estoril ou para a Costa da Caparica, há que ficar sujeito ao horário dos transportes públicos. Aquando de uma situação de urgência, tem de se recorrer a um táxi. Mas estas dificuldades não chegam a constituir verdadeiros problemas. Superam-se facilmente. É uma questão de hábito, eventualmente de filosofia de vida.
Em contrapartida, há vantagens largamente compensadoras em não ter automóvel (é claro que não se consideram aqui as situações em que o carro é um instrumento imprescindível para ganhar a vida). Viajando em transportes públicos, estamos mais próximos do cidadão comum, apreende-se melhor o pulsar da vida. Pode-se dormir descansado, sem receio de roubarem o carro ou de o encontrar danificado pela manhã. Não se anda em permanência com o credo na boca para fazer face a todo o tipo de despesas que um automóvel comporta, desde a reparação de avarias normais até ao prémio do seguro, para não falar de situações acidentais onerosas. Não nos cansamos em filas enervantes de um trânsito caótico. Não se corre o risco de provocar acidentes, com todo o cortejo de sequelas que daí podem resultar. Não contribuímos para a poluição de que todos nos queixamos. Etc. Sem automóvel, não se tem status? Paciência. Não se pode ter tudo na vida...Artigo publicado no jornal O MIRANTE em 08.Junho.1993
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