sexta-feira, 11 de março de 2011

50.º Aniversário de Casamento

Éramos novos e tínhamos devaneios...


... mas cumprimos sonhos que nem sabíamos que o eram!


(Gentil oferta do trio do Noéme, Guarda: Filomena, Paulo Miguel e Bruno)

quarta-feira, 9 de março de 2011

RTP1 – Conversa entre o padre Alberto e a Isabel

Na segunda metade dos anos setenta, havia um programa na RTP-1 intitulado Gente Crescida, da apresentadora Maria Elisa, que era genericamente apresentado como «Duas pessoas que travam conhecimento perante as câmaras da televisão, duas pessoas pertencentes, por vezes, a mundos diferentes que se encontram pela primeira vez perante o maior auditório nacional. Uma emissão que vale por aquilo que valer o diálogo entre o adulto e o jovem.»

O episódio transmitido no dia 17 de Setembro de 1979 foi o resultado da conversa havida entre o conhecido padre Alberto Neto e a minha filha Maria Isabel (12 anos) – que, de facto, não se conheciam de lado nenhum. A Isabel foi seleccionada na escola Luís António Verney (Bairro da Madre de Deus – Lisboa), e a certa altura recebi um telefonema de Maria Elisa pedindo autorização para a Isabel participar no programa.


Assisti à gravação a partir da sala onde o realizador dirigia a acção. Enquanto a Isabel, descontraída, ia conversando com o padre Alberto, eu sofria a bom sofrer... e ao fim do dia tinha uma enorme dor de cabeça!

Aquando da transmissão televisiva, a conversa entre o padre Alberto e a Isabel foi (de uma maneira geral) favoravelmente acolhida. No que se segue, são transcritas passagens de críticas de televisão então publicadas.


MÁRIO CASTRIM
Diário de Lisboa, Canal da Crítica, 18.Setembro.1979
Quando “gente crescida” nos ajuda a crescer


Veio dentro da noite, pelo telefone, aquela voz clara, aquela voz que a noite tivera quase estrangulada. Veio e disse: «Amanhã o ‘Canal da Crítica’ não deve falar senão da Isabel e do Padre Alberto.» Era um pedido, não sei. Ou seria uma sugestão para esquecer o acessório e fixar apenas o essencial. (...)

A Isabel e o Padre Alberto foram ontem uma transfusão de sangue nas veias amorfas da TV. Até falaram do 25 de Abril, expressão que na TV se encontra totalmente fora de uso como as moedas de tostão.

Quererá isto dizer, ou quererei eu dizer com isto, que foi um diálogo político? Bom. Eu quero dizer isso. Eu quero dizer que foi um diálogo político, mas não apenas por ter dito o Padre Alberto como seria uma desgraça se voltássemos ao 24 de Abril e por Isabel ter recordado as dificuldades herdadas do antigamente pela democracia e por o Padre Alberto ter dito que os governos não tinham sabido criar um projecto mobilizador e por a Isabel ter afirmado que «se não tivesse havido o 25 de Abril, o meu irmão, que tem agora dezoito anos, iria para a guerra».

Político, sim, mas não apenas nos limites que as congeminações declaradamente políticas consentem. A gente crescida de ontem pisou o mais criador dos terrenos políticos, ou seja, aquele que desperta a inteligência, a reflexão, o conhecimento da vida e do mundo. Foi um diálogo na perfeita acepção do termo, quer dizer, a procura em conjunto de uma razão comum.

A palavra serena do Padre AIberto emocionou os espectadores não somente quando se referiu à festa do 1.° de Maio de 1974, que ele atravessou de Lisboa ao Algarve, mas também quando se referiu à sua actividade de professor, quando recordou o papel fundamental da escola: o de acordar as raparigas e os rapazes vivos para a vida viva, para a realidade que os cerca. De súbito, enquadrado na meditação sobre a capacidade criadora do nosso povo, uma frase de contornos tão definidos que guarda a perfeita arquitectura de um «slogan» para a acção: Deveríamos depender do estrangeiro só naquilo em que não pudéssemos depender de nós.

Quanto à lsabel, guardamos dela a imagem de uma jovem que não habita o futuro como quem habita um convento. Não pretende armar à intelectual para quem tudo o que não sejam espaços siderais é alimento para asa de pardal mourisco. O facto de se interessar pela música ligeira ou de gostar da banda desenhada não a impede de amar a liberdade, de compreender o 25 de Abril e de o trazer no coração, não lhe fecha os olhos para a realidade dos bairros de lata onde as pessoas parecem animais e afinal são gente como nós.

Gente Crescida, com Isabel e Padre Alberto: uma poderosa tentativa de dar responsabilidade a milhões de espectadores que, dia após dia, a TV procura menorizar. E agora digam lá se a inteligência é ou não é um grande espectáculo televisual...

CORREIA DA FONSECA
O Diário, TV Crítica, 19.Setembro.1979
Isabel e as evidências


Maria Isabel não tem dúvidas. Ela disse no “Gente Crescida” de anteontem, que foi um dos mais esclarecedores e autênticos encontros de toda a série: podia o 25 de Abril não ter trazido mais nada: a conquista da Paz em África teria sido, só por si, razão bastante para o justificar. Porque a Maria Isabel tem lá em casa um irmão de 18 anos que, de outro modo, estaria agora em vésperas de ser mandado para lá, a matar ou a morrer. E com ele milhares de outros, irmãos ou não de outras Isabéis lúcidas.

Foi assim que uma menina apenas adolescente veio à Televisão dar uma lição de limpidez e honestidade política a muitos que por aí andam, aplicadíssimos, a jogar ao esconde-esconde com a evidência. O certo é que os frutos bons de Abril se revelam naturalmente até a uma criança, porque têm a ver com os valores fundamentais da vida: a sobrevivência, a esperança, a dignidade de poder um homem viver sem se tornar um matador. Veio a Maria Isabel, em conversa com o Padre Neto, confirmá-lo perante nós todos. Foi bom.

Excepto, naturalmente, para os lavradores da mentira. Que hão-de ter ficado a fermentar cóleras e a cozinhar calúnias. Sem se darem conta de que, ao fazerem-no, apenas fornecem a contraprova da justeza.

MÁRIO ROCHA
Diário Popular, Crítica TV, 19.Setembro.1979
Nunca é tarde...

Cada uma das conversas que se sustentam em «Gente Crescida» merece, naturalmente, um comentário especial – aquele que resulta do interesse do próprio diálogo e da capacidade de comunicação dos interlocutores, sobretudo do adulto, que está ali para mostrar o que vale por si mesmo e para fazer que a criança mostre, ou não, valer alguma coisa.

O diálogo do padre Alberto com a pequena Maria Isabel valeu muito mais do que se poderia imaginar, tanto porque o adulto se mostrou a altura do professor de Moral que é, como porque a jovem foi surpreendente com os seus escassos doze anos, invadindo domínios culturais e sociais pouco comuns em conversas de gente da sua idade.

Está muito adulterado o termo, mas não encontro outro mais capaz de definir a personalidade do padre Alberto: progressista. Um progressismo, aliás, que nada tem que ver com o estilo demagógico de tantos progressistas (?) que por aí pululam, mas que assenta no primado do cristianismo que o padre Alberto professa. Porque é sacerdote católico? Talvez sim e talvez não. Muitos há, por esse país fora, que julgam e interpretam a doutrina de Jesus à luz de uma religião retrógrada, incapaz de entender o que quer que seja de evolução e de progresso e de dar combate às injustiças sociais que ensombram ainda a realidade no Mundo. E tudo isto, entender o progresso e lutar por que a sociedade seja mais humana e mais justa, é precisamente a doutrina que Cristo apregoou. Claro que há dois mil anos, o Mundo ainda não falava em democracia, nem em sistemas políticos pluralistas. Não sei se é este o postulado político-social por que se bate o padre Alberto, mas estou em crer que o seu progressismo se não coaduna com a ideia de regimes totalitários que alimenta alguns espíritos ditos progressistas.

Quanto à jovem Maria Isabel, pois, sim senhor, marcou dois pontos, e em confronto com o adulto que tinha na sua frente chegou a ser brilhante e deu-lhe ensanchas para mostrar como deve falar com as crianças esclarecidas um autêntico professor de Moral.

A BOLA, Cautchú, 20.Setembro.1979
«Vedeta» da semana


«Cautchú» gostou tanto, tanto do programa televisivo «Gente Crescida», de segunda feira passada, que não resiste a pôr aqui, preto no branco, a sua opinião: a Isabel e o padre Alberto são as «vedetas TV» da semana (ou do mês? ou do ano?). O número 3, que o padre Alberto aqui exibe (pedindo uma substituição quando, quatro anos atrás, era dirigente do futebol do Sporting) é o mesmo que lhe atribuímos (nota «3», a máxima do «Somelos-Helanca») pela sua grande «exibição» no «Gente Crescida» (tal como a Isabel): humanismo, inteligência e... coragem. As mesmas qualidade que, no Sporting, o tornaram um director muito querido dos jogadores – alguns dos quais, já adultos, já «craques», ele muito ajudou a voltarem a estudar: Pedro Gomes, Chico, Damas, Libânio...

É um lamento gasto (porque, sempre ficamos só no Iamento...), mas o mundo não seria a «selva» que é (a Norte e a Sul, a Este e a Oeste), se todos tivéssemos um pouco mais de «Isabéis» e de «padres Albertos».

EUGÉNIO ATAÍDE
O Jornal, Televisão, 21.Setembro.1979
Deixai vir a nós as criancinhas

Queremos ganhar pontos em televisão? Tapem a boca a um adulto chato e ponham uma criancinha a falar. O «GenteCrescida» da última segunda-feira na RTP-1 foi isso, com uma diferenca, aliás fundamental, o adulto era também uma presenca empática, telegénica e com muita coisa para dizer. Disse-o sem papas na língua. Chama-se Alberto Neto, é sacerdote. Frequentadores da capela do Rato conhecem-no. Parece que agora vai pastorear para Belas.

O padre Alberto ia assim a ver quem lhe calhava, porque às vezes há meninos que parecem adultos, tão certinhos e bem comportadinhos (e postiços!) eles se nos mostram. Ah, mas teve cá uma sorte que nem de encomenda: calhou-lhe a Isabel, uma miúda gira, e então o padre, que só precisava dessa chispa, desse empurrão, apropriou-se do pequeno “écran” e deu-nos uma bela lição de sagacidade a que juntou o valor fundamental da tolerância; e ainda outro, o companheirismo, ser-se homem entre homens, evitar feri-los, tentar compreendê-los. Isabel jogava no mesmo “team”: tinha ido ao frio estúdio do Lumiar a ver que adulto calhava no rol, apostada em não se deixar baratinar pela empáfia daqueles grandes que parecem os tais pequenos que se parecem com os tais grandes, adultos e chatos. Quando deu pelo padre Alberto respondeu à letra.

Esta aposta do «Gente Crescida», cópia de um modelo-francês em boa hora traduzido para a programação da RTP por Maria Elisa, só pode ser ganha se o adulto e a crianca (ou o adolescente) tiverem naturalidade. Naturalidade que não basta – é também preciso comunicar, sem o que a dupla, por muitos esforços que faça, «enche» mal um precioso espaço televisivo. Estou a lembrar-me de um outro momento em que o adulto, que era o “cartoonista” Sam, descobriu diante de si o interlocutor ideal, um rapazinho a aprender para serralheiro. Ora, com o padre Alberto e a Isabel, a conversa, se possível, foi ainda mais calorosa. Que distância, para melhor, da “Gala” da canção infantil na Figueira da Foz!

"Foto" do Pe. Alberto: http://umaescola.blogspot.com/2010/02/pequena-biografia-do-patrono-da-escola.html
Foto de Mário Castrim:
http://fotos.sapo.pt/lusa
Foto de Correia da Fonseca:
http://odiario.info
Cf. http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.com/2011/01/desde-muito-cedo-que-minha-filha-maria.html

sábado, 5 de março de 2011

A bicha nacional

1. Embora o dicionário de Rodrigo Fontinha tenha lá escarrapachado que uma bicha -- no sentido de fila, entenda-se! -- é «um grupo de pessoas em fileira, uma a uma ou duas a duas, etc.», é mentira. A bicha lusitana não responde a este apelo. Nas bichas da nossa terra, as pessoas nunca se colocam «uma a uma» ou «duas a duas», colocam-se sempre em «etc.». Por natureza, a bicha nacional é um magote, tudo ao molho e fé em Deus.

Ainda consultei o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa -- por ser moderno, precisamente --, mas a definição também não está actualizada. Diz lá que bicha é um «grupo de pessoas dispostas em linha recta, lado a lado ou atrás umas das outras», mas não é. As pessoas, quando se dispõem em linha, nunca é em linha recta, é numa linha muitíssimo abstrusa. Talvez porque está por inventar a geometria do civismo em Portugal.

As pessoas nunca se põem atrás umas das outras, põem-se em cima umas das outras. Em vez de se colocar na bicha à espera da sua vez, cada um coloca-se na bicha à espera da vez dos outros. O pessoal põe-se onde calha ou onde acha que melhor pode iludir os seus competidores.

2. Quando o padeiro pergunta «Quem é que está a seguir?», há pelo menos dez bocas que se abrem, esfomeadas de vez, prontas para comer o vizinho que se atrever a responder primeiro. O homem, à cautela, ainda diz «Tenham calma, que há pão para toda a gente», mas ninguém se comove. Cheira a complicação na padaria do bairro.

Havendo peixeira na bicha, isso então é o fim do mundo: o caldo entorna-se em dois tempos, jorra molho de escabeche por tudo quanto é rival de ocasião. Ninguém escapa, na procura de um bode expiatório para o mal-estar que se instala. «A culpa disto tudo é do Governo!», ouve-se. O silêncio que se segue é de assentimento.

A confusão só acalma quando alguém mais bem composto, com o ar de quem está habituado a ser obedecido, diz serenamente: «Quem está primeiro é a senhora do casaco encarnado.» Num só movimento, todos os olhares convergem na dita cuja. Há uma breve hesitação. E, antes que alguém tenha tempo de pôr em dúvida o que quer que seja, uma voz fininha aproveita a pausa: «Quero um pão grande e doze papo-secos.»

O padeiro retoma o vaivém rotineiro, atendendo o pedido da senhora do casaco encarnado. A crise, essa, segue dentro de instantes. O melhor é dar uma volta e regressar mais tarde.

3. Quem diz padeiro, diz mercado, talho ou mercearia. Diz café de esquina à hora do almoço em pé ou bicha de autocarro em hora de ponta. Onde quer que seja necessário o pessoal ordenar-se, é certo e sabido que se estabelece o caos, a entropia aumenta. Só há civilidade na bicha quando não há ninguém à frente de ninguém. A bicha nacional é a imagem da falta de organização do País.

Acresce que a lusa gente gosta muito de bichas. Onde houver um amontoado informe de pessoas, está lá uma bicha portuguesa, com certeza. Nem que seja para verem melhor o acidente. Para poderem contá-lo em pormenor, enquanto se queixam das bichas.


Texto publicado em Alma Nova – Suplemento Cultural de O MIRANTE, 12.Março.1997

Ilustrações (pela ordem apresentada) in
http://afilanossadecadadia.files.wordpress.com/
http://imaginacaoativa.wordpress.com/
http://www.onoticiasdatrofa.pt/

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Burro do Moleiro


O burro do Moleiro
trabalha o dia inteiro...
O burro do moleiro
não vai em lérias
não faz férias...
O burro do Moleiro
vem do moinho
subindo, descendo encostas
derreado, cansadinho
com a saca de farinha às costas...
Já o pai, Moleiro e burro também
não pedia ajuda a ninguém...
Por que é que o burro do Moleiro
que trabalha o dia inteiro
e é casmurro
não compra um Burro?...

Paulo Miguel Pinheiro Martinho

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Gato que Ensina Gaivotas a Voar...

“Sabe” dizia-me a mãe dela “eu gostava que a Maria lesse mais... ela até escreveu um texto para Português a dizer que não lia muito, nem gostava muito de ler porque nunca tinha encontrado um livro que lhe tivesse tocado o coração...” e continuava “Ela não o mostrou à professora? É que ela gosta tanto de Ciências que pensei... mas, provavelmente, teve receio de a magoar, pois gosta de si, gostou muito dos seus livros e não deve ter querido que ficasse a pensar que não lhe tinham tocado o coração...”.

Aquela conversa perturbou-me. Uma escritora tem de ler muito, tem de amar a leitura até não poder passar sem ela. Bebê-la de um trago, ou lenta e pausadamente, dependendo da ocasião, do livro escolhido. A Maria sem ler, a Maria sem livros, era uma imagem que eu não queria ter comigo. Uma imagem que não fazia sentido.

Procurei nas minhas prateleiras uma ideia, uma resposta por entre os amigos que por lá se encostam uns aos outros, meio desalinhados de tão remexidos... E o olhar levou-me até Sepúlveda: “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”.

Há duas semanas atrás, numa aula de Ciências, entreguei-lhe discretamente o livro. “Lê quando te apetecer, demora o tempo que quiseres e no fim diz-me como foi.” Não precisei de lhe pedir que fosse sincera, porque sei que o é sempre.

Ontem não resisti e perguntei sorrateiramente (não queria pressioná-la, mas a curiosidade é um defeito que tenho). A Maria respondeu-me baixinho: “Já li três capítulos e estou a adorar!”. Os olhos brilhantes reforçaram as palavras sussuradas.

Não sei se vai ser este o tal livro, ou outro que um dia cruze o seu caminho...

Sei que prometo não sentir ciúme.

Afinal, se os meus livros não tocaram fundo o coração da Maria, terá sido para dar lugar nele, quem sabe, ao livro do grande Luís. Com a vantagem de ser eu, e não o Luís, quem vai ter a sorte e o prazer de a conhecer e de a ver crescer à minha frente... a ela e a todos os meninos que me levam pela mão até onde se esconde a realidade mais mágica de todas (aquela que alguns conhecem e nenhum livro conta). Serei eu a acompanhá-los na descoberta de alguns mistérios da vida, dos animais, do corpo humano, a ajudá-los a entender a importância de reciclar e mais tantas outras coisas, durante dois anos inteirinhos.

O Professor vai ser sempre uma espécie de Soldado Desconhecido, uma Sereiazinha que salva secretamente o Príncipe para depois o entregar nas mãos de uma Princesa.
Vai ser sempre o Gato que ensina Gaivotas a voar.

Não quer, nem espera mais do que isso...
...mas comove-se (esquece as dores e os dias escuros) quando um dia mais tarde alguém se lembra dele com saudade.
Quando descobre que, afinal, ficou guardado em mais corações do que aqueles que se atreveu a imaginar.


Teresa Martinho Marques
http://tempodeteia.blogspot.com/
13.Janeiro.2006

Excerto de um texto publicado no Correio da Educação,
CRIAP / ASA, N.º 214, 28 de Fevereiro de 2005

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Uma bruxa muito especial...

As bruxas têm sempre nos meus grupos um lugar muito especial. Elas são em geral velhas tontas que fazem coisas inconcebíveis, mas que apresentam ao mesmo tempo traços do quotidiano infantil. São simultaneamente figuras misteriosas e anedóticas... assustadoras e hilariantes. E é assim que, de meio para meio, as bruxas tomam aspectos diferentes e diferentes são os rituais e os espaços que nos ligam a elas. Assim, se numa aldeia da Beira Alta as bruxas moram em casas abandonadas, apanham míscaros, preparam a vianda dos porcos e bebem vinho, numa vila como Tábua outras coisas podem acontecer...

Havia no Jardim de Infância um canto revestido a tijoleira com um fogão a lenha bem preto e sugestivo. Era a casa da bruxa. Tínhamos já feito um grande chapéu bicudo em cartolina preta e a bruxa tinha também disfarces e adereços: um xaile, o lenço para a cabeça, o espelho mágico, uma cesta de maçãs, uma grande colher de pau e claro... lenha para o lume.

Nessa casa, coisas mirabolantes aconteciam todos os dias. Faltava a vassoura mágica, importantíssima para os arrojados voos da bruxa pela sala... Foi assim que no dia da feira mensal partimos à procura de uma vassoura, daquelas mágicas. Não foi sem algum receio que o grupo se aproximou do senhor que vendia vassouras de milho painço. Decididamente, um velhote que vende vassouras voadoras, só pode ser um bruxo disfarçado... mas lá se fez a escolha e a compra foi feita. Claro que no regresso ao Jardim de Infância já iam três montados na vassoura. É verdade que de início, para alguns, foi de certo modo uma decepção verificarem que a vassoura não os levava realmente pelos ares, mas depois todos entraram na fantasia do jogo e a vassoura todos os dias voava nas nossas histórias.

A partir daí, nos nossos passeios pelo pinhal, aconteciam coisas misteriosas e divertidas... o barulho de um avião era a bruxa voando apressada na sua vassoura e o depósito da água passou a ser a casa da bruxa. Assim, sempre que aí passávamos havia batidelas na porta, perguntas e provocações feitas à bruxa, desafios sem resposta; a bruxa era muito dorminhoca.

Foi por essa altura que chegou a Tábua uma visita, a minha irmã Isabel, que por coincidência reunia na altura características típicas das nossas bruxas... vestida de negro, saia comprida, dois brincos numa orelha e um corte de cabelo que lhe deixava na nuca uma madeixa mais comprida. A juntar a isto... um sentido de humor muito especial.

De repente surgiu a ideia... A Isabel ia ser bruxa durante uma semana. Uma bruxa simpática e divertida que deixasse saudades em Tábua.

Para dar credibilidade à situação, nada como fazê-la aparecer no pinhal. Foi assim que uma manhã deixei a Isabel de chapéu de cartolina e vassoura de milho painço no depósito da água, esperando a nossa visita. No passeio pelo pinhal o grupo sentou-se à sombra do depósito para lanchar e surgiram como habitualmente os desafios à bruxa... e a bruxa apareceu mesmo, com um grande sorriso. Desta vez não estava a dormir... O momento foi de emoção e silêncio, mas logo apareceram balões multicores que a bruxa ia dando enquanto explicava que viera de Lisboa na sua vassoura...

Um minuto depois choviam perguntas... «Tu és mesmo uma bruxa?»... «Vieste de Lisboa sempre a voar?»... «Oh bruxa, nós lá na escola temos um chapéu e uma vassoura assim... não foste lá roubar dentro?»... «Por que é que tens o sol e a lua nessa orelha?»... «A tua vassoura voa mesmo? Voa lá um bocadinho...». A bruxa não tinha descanso e as respostas loucas que dava punham o grupo a rir. Contou peripécias da viagem, segredos de magias... e acabaram todos a fazer a dança das bruxas aos pulos pelo pinhal. Claro que à hora de almoço todos queriam levar a bruxa para casa, mas expliquei que ela era minha convidada especial e ia ficar uns dias comigo.

Foi assim que começou a semana das bruxarias... Todos os dias a bruxa aparecia na escola e tudo rodava à volta dela, das histórias que ela contava, das danças e jogos que ensinava, das magias que fazia.

Até que uma das crianças se lembrou que eu já lhes falara de uma irmã chamada Isabel... «Oh Lena, eu acho é que esta bruxa é a tua irmã de Lisboa.»

Deixei-os na dúvida... Com o tempo, e depois do regresso da bruxa a Lisboa, todos eles descobriram que o era realmente e, no entanto, a magia continuou. Quiseram escrever cartas à bruxinha Isabel e desenhar «retratos» dela. Mandaram uma cassette com as suas recordações e mensagens gravadas. Pediam-lhe constantemente que voltasse a Tábua.

E ainda hoje, dois anos depois, chegam cartas de Tábua com beijos para a bruxinha. Uma bruxa que aterrou em Tábua... um dia... por acaso.


Crónica de Maria Helena Pinheiro Martinho publicada
na revista Cadernos de Educação de Infância, N.º 8, 1988

NOTA
Relato de uma situação passada no ano lectivo de 1985/1986 no Jardim de Infância de Tábua (Coimbra).


Ilustrações (pela ordem apresentada) encontradas em:
http://www.eb1-vale-remigio.rcts.pt/act.htm
http://www.imagensdeposito.com/casa/40544/casa+da+bruxas.html
http://dancaharah.blogspot.com/2009/10/dia-das-bruxasa-bruxa-do-dia.html
http://ebvpancora5a.blogspot.com/2010/10/vassoura-magica-da-maria.html

ADENDA via e-mail recebido de Bruxelas enviado pela minha filha Maria Isabel:
Esta história da bruxa foi super-cómica. Ainda me lembro de um dos miúdos mais malandros estar à frente do grupo a chamar pela bruxa e, quando apareci de surpresa, ficou com os olhos esbugalhados e desatou a correr a gritar que afinal havia mesmo uma bruxa. Quando vi o ar atrapalhado de alguns deles, comecei a distribuir rebuçados para que não ficassem dúvidas de que era uma bruxa boa. Tive que inventar uma história louca que a minha vassoura estava estragada e que tinha que a pôr a arranjar, pois eles queriam à força que eu voasse. Boas recordações :-)

Horizonte-Poente

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Horizonte

No horizonte
o sol esconde-se
e regressa.
O livro abre-se
e fecha-se, sem pressa,
exactamente a meio
numa linha inventada
aparente, irreal
que liga o céu à Terra
a página à página
o desenho ao poema
o sol ao sal.



Poema de Teresa Martinho Marques (http://sabordepalavra.blogspot.com/)
in Das Palavras, Edições Eterogémeas (http://www.eterogemeas.com/)
ilustrado por Paulo Miguel Pinheiro Martinho (http://pintapalavras.blogspot.com/)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Pontos de vista ou a esfera bicolor

Numa manhã de Maio de 1974, preparava-me eu para sair de casa para ir trabalhar, recebi um telefonema. Um membro da Associação de Pais da Escola Preparatória Luís António Verney (Lisboa), a que eu pertencia, porque os meus filhos mais velhos a frequentavam, pedia-me para comparecer. “Venha depressa. O ambiente está agitado. Os alunos estão em greve!”.

A minha primeira reacção foi de surpresa. Miúdos em greve?! Pensei que haveria ali algum exagero. Nos dias conturbados que se seguiram ao reencontro de Portugal com a democracia, havia agitação na Universidade e nas escolas secundárias, mas não constava que o movimento se tivesse estendido às escolas preparatórias. Assim, foi com expectativa que meti os pés a caminho do bairro da Madre de Deus.

Quando lá cheguei, era grande a confusão... e a greve uma realidade. Havia movimento e vozearia, alunos excitados que discutiam em grupos, pais atónitos que não percebiam o que se estava a passar, outros que ofereciam tabefes aos filhos perante aquela rebeldia inesperada, professores que procuravam acalmar os ânimos, membros da Associação de Pais que tentavam ajudar os professores a organizar o caos.

E foi assim que me vi metido numa sala de aula, sentado à secretária do professor, tendo na frente uma trintena de jovens com idades à volta dos 12 anos. Havia-se combinado antes que se fariam primeiro reuniões parcelares, a nível de turma, para conhecer e debater as razões de queixa dos alunos. A seguir, haveria uma reunião geral no ginásio, onde se procuraria identificar os problemas mais prementes, como primeiro passo para (tentar) solucioná-los.

Iniciado o debate na sala de aula, cedo me apercebi que a tarefa não ia ser fácil. De facto, a experiência da vida mostra que o diálogo, em geral, é um exercício complicado. Não poucas vezes, um diálogo transforma-se num somatório de monólogos..., situação que equivale ao chamado diálogo de surdos. Para comunicar, é necessário acertar os códigos de linguagem, assegurar que não estão uns a falar em alhos e outros em bugalhos. Para comunicar, é necessário saber ouvir, importa fazer um esforço no sentido de compreender o ponto de vista do outro. Em suma, comunicar é uma tarefa que exige uma atitude de generosidade e humildade, o que é difícil. Se a isto se juntar um clima de contestação, opondo pessoas de gerações muito diferentes, pode-se imaginar o aperto em que me vi metido.

Foi então que tive uma ideia salvadora. Pedi aos jovens uns minutos de atenção, para lhes propor um enigma semelhante ao que estávamos a viver, em que, animados de boa vontade, dizíamos coisas uns aos outros mas não conseguíamos entender-nos. Julgando talvez que ia contar-lhes uma história, fez-se silêncio. “Imaginem que em cima da secretária está uma esfera grande e suponham que, em verdade, eu digo que a esfera é verde e vocês afirmam que a esfera é vermelha. Como explicar isto?”

Apanhados de surpresa, ficaram a pensar no assunto. Então, a pouco e pouco, fui encaminhando-os para a solução do problema. Levei-os a compreender que, se trocássemos de posição, eles poderiam observar o que eu via e eu poderia observar o que eles viam. E concluiríamos que, afinal, a chave do enigma era simples: a esfera era bicolor! Embora o objecto fosse o mesmo, a perspectiva em relação a ele era diferente, portanto as afirmações eram diferentes. E, no entanto, ambas eram respeitáveis, porque honestas.

A rapaziada percebeu a mensagem. O ambiente modificou-se. O prazer do entendimento estabeleceu-se. Finalmente, o diálogo aconteceu. E eu nunca mais esqueci a esfera bicolor daquela manhã de Maio!






Crónica publicada no jornal O MIRANTE em 27.Abril.1993

Ilustrações:
http://www.museudapessoa.net (1.ª)
http://vaninha-pedagogia.blogspot.com (3.ª)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tríptico "Formas nas Rochas"


Selecção de três fotografias do geólogo Fernando Ornelas Marques de entre as muitas que tem publicado no seu blogue http://cronicasdealem.blogspot.com sobre "formas nas rochas”.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

No tempo da Carolina...

Há, na vida de todos nós, rituais e pessoas que, sem conseguirmos explicar porquê, nos são tão importantes que lhes reservamos um lugar apesar da separação, da distância, da morte...

A Carolina era aquela senhora de cabelo grisalho e sorriso simpático que ajudava a Mãe nas limpezas. Era também uma companheira de sonhos e aventuras quando os pais se ausentavam. Nesses momentos a Carolina não tinha descanso. Éramos quatro a desafiá-la, à porta da cozinha, para que largasse o alguidar da louça. Por vezes éramos nós que acabávamos a passar pratos e copos, junto ao alguidar enorme, cheio de água. E assim, com as mãos quentinhas, conversávamos longamente com a Carolina...

Noutros dias éramos índios e morávamos numa cabana, na varanda. Um cobertor entalado entre a janela do quarto e o parapeito da varanda servia de toldo. E ali ficávamos em aventuras pelo quarto e recolhendo-nos para as refeições trazidas pela Carolina. Até a salada de fruta era mágica... e mágicos eram os momentos em que a Carolina se transformava em cavalo índio, companheiro de aventuras.

Em dias mais calmos, a Carolina deixava a louça esperar por momentos... assim que ouvia: "Já está!". E então era prender a respiração e esperar que o nosso esconderijo fosse o melhor...

A Carolina morava na praceta. A mesma praceta da nossa casa. Mas a casa dela não era como as outras. Era como a Carolina... cheia de surpresas e coisas especiais. A magia começava cá fora. Aquele recanto dos brincos-de-princesa era a porta para um mundo diferente. E lá dentro havia de tudo... até uma barbearia de enormes cadeiras de recosto, de um verde apagado, onde víamos passar os homens da terra.

Umas estreitas escadas em madeira escura levavam-nos ao primeiro andar... O quarto das costuras será sempre para mim o quarto dos botões. Das caixas de papelão saiam dezenas deles... uma autêntica colecção que se espalhava no chão e entrava no jogo. Botões grandes e pequenos, rasos, curvos, rugosos e lisos, brilhantes... botões de todas as cores e formas... botões de madeira, veludo, latão, madrepérola... um desafio à imaginação e à invenção de toda a espécie de jogos. Nesse quarto passávamos tardes a brincar. Ali no chão, ao nosso lado, começava o vaivém do pedal da máquina antiga, onde a Carolina cosia. E aquele embalo vibrante do som, ora pára ora anda... fazia-nos perder a noção do tempo.

O quarto da Carolina tinha uma janela especial. Lá de cima dominávamos a praceta e o jardim. A janela contava todas as histórias boas e más que aconteciam na terra. Festas, procissões e carnavais desfilavam sem descobrir o nosso recanto secreto... a lama das cheias, os estragos, eram olhados de longe por trás do vidro...

E a janela erguia-se como um escudo protector quando os tempos eram maus e havia medo no ar.

E a Carolina estava lá, nesse tempo.

E ria e cantava e contava histórias.

E tudo voltava a ser bom.

Não era transparente... não voava... mas era a pessoa que eu conhecia mais parecida com uma fada...


Texto de homenagem (a uma pessoa especial) escrito por Helena Martinho
e publicado na revista Cadernos de Educação de Infância, n.º 13, 1990


ADENDA 1 – Depois de ter lido esta entrada, a minha filha Maria Helena enviou-me o seguinte e-mail: Gostei de reler o artigo... já nem me lembrava bem dele... ainda bem que o escrevi naquele momento. Acho que revela uma parte daquilo que nós quatro tivémos a sorte de viver na infância. Qual TV? qual computador? quais jogos comprados...? sem materiais ou quase só com o material "imaginação", palavras, e alguns botões... as coisas que nós vivíamos! Uma querida, a Carolina. Terá ganho a sua imortalidade na lembrança que ainda temos dela.

ADENDA 2 - E-mail recebido de Bruxelas enviado pela minha filha Maria Isabel: Está muito bonito. Não tenho todas estas recordações. Acho que era muito pequena. Guardo na lembrança breves momentos com a Carolina, em casa, no alguidar, a entrada da casa dela, por isso é óptimo ler o artigo da Lena que completa essas memórias da vida em Alverca.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Notáveis da praia de Santa Cruz

Antero de Quental (1842-1891)

















Senhor António, concessionário da praia central
















D. Romana (com o neto Duarte), proprietária da papelaria mais antiga

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Tempo de amizades

Com a aproximação do mês de Agosto, agitava-se a vida lá em casa. Todos preparavam as férias com entusiasmo. As crianças idealizavam, há tempo já, as primeiras brincadeiras de Verão na praia de Santa Cruz, com a areia e os banhos. Tinham saudades daquele mar quase sempre "indisposto", mas belo.

O senhor João vinha buscá-los cedo no primeiro dia de Agosto, para os levar no seu táxi. A bagagem acumulava-se no átrio. A mãe preparara as roupas e... tudo o mais, enquanto o pai dava sugestões no meio daquela azáfama. Para os pequenitos, o mais importante era não esquecer o saco com os baldes, as pás, as formas, as bolas e os livros.

Foi assim durante anos. Na pensão Miramar onde se acolhiam, a D. Conceíção recebia os hóspedes com grande afabilidade. Que boa comida fazia o velho cozinheiro (ai, aquelas conchas recheadas!). O seu grande chapéu branco espantava e divertia os mais pequenos. Após o jantar, enquanto o sol se escondia, as crianças organizavam ainda, apesar do cansaço, os últimos jogos e correrias. Os pais cavaqueavam na varanda ou na sala de entrada junto ao velho piano. Televisão não havia, felizmente. Tempo bom de lazer! Recolhiam cedo. "Quem acordar primeiro, chama os outros, combinado?" - cochichavam os miúdos.

As brincadeiras com as caricas, as lutas com as almofadas ao fim do dia, a caça aos peixinhos junto às rochas (que eram devolvidos ao mar, diga-se), tudo pertence ao passado. Eles e os amigos cresceram e foram-se dispersando.

Mas os pais voltam sempre que podem à praia. De quando em quando juntam-se aos filhos e os amigos de todos aparecem também. O reencontro é sempre motivo de alegria.

Esses foram, sem dúvida, tempos bonitos de amizade.

Crónica de Maria da Piedade Pinheiro Martinho publicada no jornal O MIRANTE em Março.1990

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Um Jardim de Infância onde tudo pode acontecer

Há uns anos, a minha irmã Lena [Helena Martinho, Educadora no Jardim de Infância do Vimeiro] encomendou à Amazon uns livros para os seus meninos. Explicou-lhes que o havia feito e que os livros viriam de avião… e teriam que passar por vários meios de transporte até chegarem às suas mãos…

Oh Lena! Achas que o avião podia passar por aqui e deixar cair os livros para não se gastar tanto tempo?

Hummmmm. Talvez... Acho que vou falar com eles...

Nascida ali a ideia, foi ao aeroclube da zona [Santa Cruz, Torres Vedras] e convenceu um dos pilotos a fazer um voo sobre o jardim, em dia a combinar. O resto ficaria por conta dela.

Uma costureira, avó de uma das crianças, em segredo construíu um pára-quedas grande e colorido. Depois a Lena aguardou a chegada dos livros. Atou-os ao pára-quedas e escondeu tudo. No dia certo, à hora combinada, momento de recreio, um contacto do piloto por telemóvel anunciava estarem os motores a aquecer… passados poucos minutos já o avião fazia vários voos sobre o Jardim, luzes acendendo e apagando, piloto acenando... (ela soube mais tarde que algumas pessoas da zona, surpresas, haviam telefonado ao aeroclube preocupadas com as manobras.)

As crianças, que ao longo do tempo foram sendo preparadas para a possibilidade, ficaram agitadas e felizes:

Lena! Lena! Deve ser o avião que traz os nossos livros!!!! Vamos ver! Vamos ver!

Sim, sim... mas primeiro vão já com a Cristina lavar as mãos porque está quase na hora do almoço e depois vêm ter comigo lá fora.

Saíu a correr, trepou a uma árvore com atrapalhação e prendeu o pára-quedas como se este tivesse caído dos céus e ali tivesse ficado suspenso...

Conseguem imaginar a festa, a alegria das crianças quando vieram ao exterior e deram com os livros na árvore? Pois...

E aqueles livros, para sempre com um significado especial, tornaram-se durante muito tempo o centro da vida... já fazendo crescer água na boca pelo aprender a ler um dia e decifrar-lhes todos os mistérios escondidos nas palavras...

Teresa Martinho Marques
http://tempodeteia.blogspot.com
Ilustração: http://kadaideia.blogspot.com

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O enigma da virgulação

Era uma vez uma vírgula bem colocada num texto, algures num decreto-lei. Não tinha bem consciência do seu valor. Dizia-se, porém, que tinha sido debitada por um ministro, pela módica quantia de 120 mil contos, numa folha de papel timbrado, daquelas que são, ou deviam ser, “A Bem da Nação”. É verdade que se sentira lisonjeada por ter sido desenhada por uma Parker dourada, mas, à parte isso, era uma vírgula modesta, bem comportada, que desejava apenas que a deixassem sossegada.

Estava a pobre coitada no tranquilo desempenho da sua função, quando, de repente, citada na televisão por uma jornalista e retomada depois num jornal pela pena de um deputado, a vírgula saiu inesperadamente do anonimato, tendo sido catapultada da sua condição de insignificância para a posição de autêntica vedeta do PdB (sigla de País das Bananas, onde se passou esta história). [É claro que uma tal projecção fez com que muitos ficassem roídos de inveja, com a ciumeira própria dos ignorados. Cada um manifestou-se à sua maneira: os estupefactos alinharam com os pontos de exclamação, os incrédulos juntaram-se aos pontos de interrogação e os peremptórios fizeram coro com os pontos finais.]

Não fosse o diabo tecê-las, o Grande Chefe levou duas semanas a abalançar-se na denúncia pública do perigo que seria deixar pairar a dúvida sobre a credibilidade das vírgulas nos decretos-lei do seu país. Compreende-se a hesitação: aquela vírgula poderia ser um trunfo para, ou contra, os adversários. Ganha a necessária afoiteza, foi anunciado aos quatro ventos: “É preciso esclarecer o caso da vírgula!”.

Entretanto, os PdBeses, que, apesar de serem um povo sofrido, tinham um grande sentido de humor, foram-se a elas, às vírgulas, e foi um regalo. Houve de tudo na brincadeira. Glosaram-nas em todos os tons, escreveram artigos, alguns sem pontuação (como fazia a Guidinha, nas suas redacções de boa memória), inventaram anedotas, compuseram cantigas, eu sei lá. Se tivesse sido dada uma ordem ao Banco Central das Vírgulas para lançá-las no mercado para regularizar o sistema, a inundação não teria sido maior.

Quanto aos partidos políticos representados no Parlamento, uns eram de opinião que se devia ir à procura da vírgula, e mesmo de outras vírgulas malparadas, outros manifestavam a sua perplexidade perante tanto zelo neste caso e o deixa-andar-Maria-vai-com-as-outras noutros casos virgulentos, e os restantes entendiam que o Parlamento não devia lançar-se em correrias atrás da primeira vírgula que lhes pusessem à frente. Por fim, os parlamentares acordaram na ideia altamente original e inovadora de criar uma comissão para deslindar o mistério. Sabe-se que foram distribuídas lupas pelos membros da Comissão de Inquérito à Vírgula. Ignora-se o resto.

Tudo indica que esta história, como outras, terminará bem. Provavelmente a vírgula casa-se com um ponto, têm um filho, o ponto e vírgula, e são felizes para sempre.

Texto publicado no jornal O MIRANTE em 02.Março.1993