... mas cumprimos sonhos que nem sabíamos que o eram!(Gentil oferta do trio do Noéme, Guarda: Filomena, Paulo Miguel e Bruno)
... mas cumprimos sonhos que nem sabíamos que o eram!(Gentil oferta do trio do Noéme, Guarda: Filomena, Paulo Miguel e Bruno)

Veio dentro da noite, pelo telefone, aquela voz clara, aquela voz que a noite tivera quase estrangulada. Veio e disse: «Amanhã o ‘Canal da Crítica’ não deve falar senão da Isabel e do Padre Alberto.» Era um pedido, não sei. Ou seria uma sugestão para esquecer o acessório e fixar apenas o essencial. (...)
Maria Isabel não tem dúvidas. Ela disse no “Gente Crescida” de anteontem, que foi um dos mais esclarecedores e autênticos encontros de toda a série: podia o 25 de Abril não ter trazido mais nada: a conquista da Paz em África teria sido, só por si, razão bastante para o justificar. Porque a Maria Isabel tem lá em casa um irmão de 18 anos que, de outro modo, estaria agora em vésperas de ser mandado para lá, a matar ou a morrer. E com ele milhares de outros, irmãos ou não de outras Isabéis lúcidas.
«Cautchú» gostou tanto, tanto do programa televisivo «Gente Crescida», de segunda feira passada, que não resiste a pôr aqui, preto no branco, a sua opinião: a Isabel e o padre Alberto são as «vedetas TV» da semana (ou do mês? ou do ano?). O número 3, que o padre Alberto aqui exibe (pedindo uma substituição quando, quatro anos atrás, era dirigente do futebol do Sporting) é o mesmo que lhe atribuímos (nota «3», a máxima do «Somelos-Helanca») pela sua grande «exibição» no «Gente Crescida» (tal como a Isabel): humanismo, inteligência e... coragem. As mesmas qualidade que, no Sporting, o tornaram um director muito querido dos jogadores – alguns dos quais, já adultos, já «craques», ele muito ajudou a voltarem a estudar: Pedro Gomes, Chico, Damas, Libânio...
1. Embora o dicionário de Rodrigo Fontinha tenha lá escarrapachado que uma bicha -- no sentido de fila, entenda-se! -- é «um grupo de pessoas em fileira, uma a uma ou duas a duas, etc.», é mentira. A bicha lusitana não responde a este apelo. Nas bichas da nossa terra, as pessoas nunca se colocam «uma a uma» ou «duas a duas», colocam-se sempre em «etc.». Por natureza, a bicha nacional é um magote, tudo ao molho e fé em Deus.
2. Quando o padeiro pergunta «Quem é que está a seguir?», há pelo menos dez bocas que se abrem, esfomeadas de vez, prontas para comer o vizinho que se atrever a responder primeiro. O homem, à cautela, ainda diz «Tenham calma, que há pão para toda a gente», mas ninguém se comove. Cheira a complicação na padaria do bairro.
3. Quem diz padeiro, diz mercado, talho ou mercearia. Diz café de esquina à hora do almoço em pé ou bicha de autocarro em hora de ponta. Onde quer que seja necessário o pessoal ordenar-se, é certo e sabido que se estabelece o caos, a entropia aumenta. Só há civilidade na bicha quando não há ninguém à frente de ninguém. A bicha nacional é a imagem da falta de organização do País.
Procurei nas minhas prateleiras uma ideia, uma resposta por entre os amigos que por lá se encostam uns aos outros, meio desalinhados de tão remexidos... E o olhar levou-me até Sepúlveda: “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”.
O Professor vai ser sempre uma espécie de Soldado Desconhecido, uma Sereiazinha que salva secretamente o Príncipe para depois o entregar nas mãos de uma Princesa.
As bruxas têm sempre nos meus grupos um lugar muito especial. Elas são em geral velhas tontas que fazem coisas inconcebíveis, mas que apresentam ao mesmo tempo traços do quotidiano infantil. São simultaneamente figuras misteriosas e anedóticas... assustadoras e hilariantes. E é assim que, de meio para meio, as bruxas tomam aspectos diferentes e diferentes são os rituais e os espaços que nos ligam a elas. Assim, se numa aldeia da Beira Alta as bruxas moram em casas abandonadas, apanham míscaros, preparam a vianda dos porcos e bebem vinho, numa vila como Tábua outras coisas podem acontecer...
Nessa casa, coisas mirabolantes aconteciam todos os dias. Faltava a vassoura mágica, importantíssima para os arrojados voos da bruxa pela sala... Foi assim que no dia da feira mensal partimos à procura de uma vassoura, daquelas mágicas. Não foi sem algum receio que o grupo se aproximou do senhor que vendia vassouras de milho painço. Decididamente, um velhote que vende vassouras voadoras, só pode ser um bruxo disfarçado... mas lá se fez a escolha e a compra foi feita. Claro que no regresso ao Jardim de Infância já iam três montados na vassoura. É verdade que de início, para alguns, foi de certo modo uma decepção verificarem que a vassoura não os levava realmente pelos ares, mas depois todos entraram na fantasia do jogo e a vassoura todos os dias voava nas nossas histórias.
Para dar credibilidade à situação, nada como fazê-la aparecer no pinhal. Foi assim que uma manhã deixei a Isabel de chapéu de cartolina e vassoura de milho painço no depósito da água, esperando a nossa visita. No passeio pelo pinhal o grupo sentou-se à sombra do depósito para lanchar e surgiram como habitualmente os desafios à bruxa... e a bruxa apareceu mesmo, com um grande sorriso. Desta vez não estava a dormir... O momento foi de emoção e silêncio, mas logo apareceram balões multicores que a bruxa ia dando enquanto explicava que viera de Lisboa na sua vassoura...
Foi assim que começou a semana das bruxarias... Todos os dias a bruxa aparecia na escola e tudo rodava à volta dela, das histórias que ela contava, das danças e jogos que ensinava, das magias que fazia.
A minha primeira reacção foi de surpresa. Miúdos em greve?! Pensei que haveria ali algum exagero. Nos dias conturbados que se seguiram ao reencontro de Portugal com a democracia, havia agitação na Universidade e nas escolas secundárias, mas não constava que o movimento se tivesse estendido às escolas preparatórias. Assim, foi com expectativa que meti os pés a caminho do bairro da Madre de Deus.
Iniciado o debate na sala de aula, cedo me apercebi que a tarefa não ia ser fácil. De facto, a experiência da vida mostra que o diálogo, em geral, é um exercício complicado. Não poucas vezes, um diálogo transforma-se num somatório de monólogos..., situação que equivale ao chamado diálogo de surdos. Para comunicar, é necessário acertar os códigos de linguagem, assegurar que não estão uns a falar em alhos e outros em bugalhos. Para comunicar, é necessário saber ouvir, importa fazer um esforço no sentido de compreender o ponto de vista do outro. Em suma, comunicar é uma tarefa que exige uma atitude de generosidade e humildade, o que é difícil. Se a isto se juntar um clima de contestação, opondo pessoas de gerações muito diferentes, pode-se imaginar o aperto em que me vi metido.
A rapaziada percebeu a mensagem. O ambiente modificou-se. O prazer do entendimento estabeleceu-se. Finalmente, o diálogo aconteceu. E eu nunca mais esqueci a esfera bicolor daquela manhã de Maio!
A Carolina era aquela senhora de cabelo grisalho e sorriso simpático que ajudava a Mãe nas limpezas. Era também uma companheira de sonhos e aventuras quando os pais se ausentavam. Nesses momentos a Carolina não tinha descanso. Éramos quatro a desafiá-la, à porta da cozinha, para que largasse o alguidar da louça. Por vezes éramos nós que acabávamos a passar pratos e copos, junto ao alguidar enorme, cheio de água. E assim, com as mãos quentinhas, conversávamos longamente com a Carolina...
Nascida ali a ideia, foi ao aeroclube da zona [Santa Cruz, Torres Vedras] e convenceu um dos pilotos a fazer um voo sobre o jardim, em dia a combinar. O resto ficaria por conta dela.
Era uma vez uma vírgula bem colocada num texto, algures num decreto-lei. Não tinha bem consciência do seu valor. Dizia-se, porém, que tinha sido debitada por um ministro, pela módica quantia de 120 mil contos, numa folha de papel timbrado, daquelas que são, ou deviam ser, “A Bem da Nação”. É verdade que se sentira lisonjeada por ter sido desenhada por uma Parker dourada, mas, à parte isso, era uma vírgula modesta, bem comportada, que desejava apenas que a deixassem sossegada.