sexta-feira, 29 de abril de 2011

Díptico "Vanessa cardui"

Teoria?

Tenho uma teoria perfeita sobre os sonhos:
nascem de ovos.
Não importa o tamanho
não importa a cor, tão pouco a dor para os dar à luz.
Nascem de ovos os sonhos
tenho a certeza.
Já nem é bem uma teoria.

(Olhei para uma borboleta que passou...
... se não era um sonho de coisa que já rastejou
o que seria?)

Teresa Martinho Marques
http://www.sabordepalavra.blogspot.com (poesia)
http://tempodeteia.blogspot.com (fotografia)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sessão comemorativa dos 50 anos do RPI

A Mesa (a partir da esquerda): Jaime da Costa Oliveira, Júlio Pistacchini Galvão, 
Júlio Montalvão e Silva (presidente do ITN), Frederico Gama Carvalho, 
António Gonçalves Ramalho e Cândido Marciano da Silva. (Programa aqui)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Reactor Português de Investigação (1961-2011)

Vista exterior e interior do RPI no início da década de 60 do séc.XX

No próximo dia 27 de Abril serão comemorados os 50 anos decorridos desde a entrada em funcionamento do Reactor Português de Investigação. A celebração terá lugar no Instituto Tecnológico e Nuclear (http://www.itn.pt/); o respectivo programa encontra-se em http://www.itn.pt/pt/ev/2011/50AnosRPI%20-%20Programa.pdf .

quarta-feira, 20 de abril de 2011

domingo, 17 de abril de 2011

Fukushima em Tancos?!

O grande destaque da primeira página do PÚBLICO de hoje, a toda a largura, tem por título «Acidente em Portugal como o de Fukushima afectaria 1,6 milhões de pessoas em 48 horas», a que se segue o sub-título «Exército simula desastre em Tancos e conclui que radioactividade chegaria a 12 mil km2 do território. (...)».


A notícia ocupa as primeiras quatro páginas interiores do jornal. Trata-se, portanto, de um “caso” a que se quis dar uma relevância fora do comum. A questão é: justificar-se-á a relevância?

Na página 2 ficamos a saber que a simulação foi levada a efeito pelo Centro de Defesa Nuclear, Biológica, Química e Radiológica e Protecção Ambiental, e que «Para a hipotética central em Portugal, escolheu-se um local arbitrário: Tancos, por ser aí, na Escola Prática de Engenharia do Exército, que fica o centro (...).» E ficamos a saber também que a central escolhida para ser colocada em Tancos (aprox. 50 km a nordeste de Santarém) foi, nada mais nada menos, a central de Fukushima «com danos severos no núcleo de dois reactores (...) com fuga maciça de radiação».

É sabido que a simulação de acidentes, quaisquer que sejam, é sempre útil desde que permita tirar conclusões aceitáveis/aproveitáveis. Para isso é indispensável dispor pelo menos de: (a) software adequado e (b) dados de entrada credíveis. Se assim não for, os resultados da simulação são pura ficção.

Posto isto, é de perguntar: terá sido uma boa opção “colocar” a central de Fukushima em Tancos? Julgo que não. Em primeiro lugar, porque não há acidentes nucleares com consequências idênticas e, em segundo lugar, porque a central de Fukushima foi atingida por um inimaginável terramoto de nível 9 e, em seguida, apenas uma hora depois, por um “muro de água” com mais de 10 metros de altura que tudo destruiu à sua passagem, donde resultou a gravidade do acidente. Poderia ocorrer uma tal situação em Tancos? Consegue o leitor imaginar o nível de destruição que afectaria Portugal antes de o (eventual) maremoto chegar a Tancos? Eu não.

Em suma: A meu ver, o termo “fonte de radiação” utilizado na referida simulação é aberrante. Em consequência, os resultados obtidos não são para levar a sério. Assim sendo, por que razão terá dado o PÚBLICO uma relevância tão grande à “notícia” em questão?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O cartão de crédito

2008 Cartão de crédito (1)


De crédito, és Cartão
meu amigo, meu irmão...
Vazia, a carteira
mas tu, companheiro
dás dinheiro
a vida inteira
por isso, fica comigo
e eu contigo...
O povo diz
"Quem não tem Cartão
no bolso ou na mão
faz mal
é infeliz
é excluído social"...
Sem qualquer hesitação
mete pois o Cartão
marca o código secreto
e a carteira, antes vazia
por golpe de pura magia
já tem o papo repleto...
Altruístas, geniais
conheço mesmo Cartões
que conquistam corações
pois dão-te sempre o "pilim"
mesmo que não tenhas mais...
Sim...
venham, venham
não se detenham...
qual de vós é o primeiro
a gastar adiantado
um saboroso ordenado
ainda não trabalhado?
Abençoado Cartão
és nosso pai, nosso irmão
tudo me dás, quando peço
e só por vezes, confesso
me sinto
frágil, como um pinto
sozinho
longe do ninho
chupado até ao tutano
cérebro oco, tipo cano
mas, quando essa crise pressinto
a lucidez sempre finto
pois se o macaco quer bananas
a vaca, verdes canas
o porco, tenras bolotas
o comilão, boa mesa
o guloso, sobremesa...
eu quero o Cartão que dá notas!!!


Paulo Miguel Pinheiro Martinho (Mizangala): http://pintapalavras.blogspot.com

sábado, 9 de abril de 2011

Barcos

Barcos são

instantes azuis

com sonhos presos

num carrocel.

Miragens

e reflexos

de vidro

madeira

e papel.


Poema de Teresa Martinho Marques (http://sabordepalavra.blogspot.com/), in Das Palavras (Edições Eterogémeas - http://www.eterogemeas.com/), ilustrado por Paulo Miguel Pinheiro Martinho (http://pintapalavras.blogspot.com/).

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ludoteca GIRA-SOL... um espaço onde tudo pode acontecer

10 horas. É tempo de abrir o portão da Ludoteca para mais oito horas de animação, conversa, surpresas, combinações, novidades, cumplicidades. Quando se sobe a rampa que dá acesso ao exterior da Ludoteca, nunca se sabe bem o que se vai encontrar...

Será natural deparar com a Joana envolta em tecidos fulgurantes, bruxa colorida sobre patins em linha, num ritual em torno de um caldeirão mágico...

Ou descobrir as enérgicas Lia e Diana, brincando no alto de uma árvore frondosa, criando um esconderijo com tecidos, para alvejar com bugalhos os desprevenidos passantes...

Ou encontrar as doces Diana, Catia, Deonilde e mais amigas, amenamente conversando sobre toalhas multicores, na relva, depois de delirantes brincadeiras com água, e grandes banhos de mangueira ou de piscina...

Ou ainda, surpreender o engenhoso e diabólico Fábio, transformado num verdíssimo dinossáurio, dançando e saltitando com uma cabeleira e cauda de esponja, construídos na Ludoteca à imagem de um dos seus heróis favoritos...

Nada mais natural...

Por isso nos habituámos a dizer da Ludoteca que «é um espaço onde tudo pode acontecer». Foram já 18 meses de descobertas, numa experiência onde a rotina não tem lugar. O ritual sim... porque é o ritual que nos dá força e segurança, que constrói a amizade e nos dá coragem para continuar. Todos os dias o prazer de rever um amigo, de o desafiar para um jogo... o prazer de continuar projectos... de pôr em acção a imaginação...

Há amigos de longa data. .. aqueles que, desde o primeiro dia, não dispensam uma passagem quase diária na Ludoteca. Há os que vêm todas as semanas. Há os que só regressam no Verão, vindos de outros países, e que todos os anos esperamos ansiosamente... Depois há todos os outros que nunca sabemos quando vão aparecer, com que ideias, com que desejos e propostas de jogo...

São cerca de 360 crianças e jovens com idades entre os 5 e os 16 anos. É imensa a variedade de origens e de experiências. Por isso não há dois dias iguais na Ludoteca. As capacidades individuais são postas em acção, e funcionam naturalmente como motor e estímulo para grupos de crianças. As ideias circulam, voam, contagiam, fazem nascer projectos...


Criámos um folheto mensal que funciona como veículo de comunicação para as crianças, famílias e profissionais de educação. Nele noticiamos alguns planos e uma calendarização para as animações especiais de cada mês. Estas podem ser surpresas organizadas pelas educadoras: lançamento de ateliers (de construção de brinquedos, marionetas, fantoches de esponja, papagaios, pintura de camisolas, reciclagem de papel), passagem de diaporamas criados na Ludoteca, teatros de sombras...

Também podem ser momentos que surgem da colaboração com grupos culturais da comunidade: espectáculos de teatro e música ao vivo...

Muitas vezes são propostas de grupos de frequentadores da Ludoteca: sessões de aeróbica ministradas no ginásio por entusiásticas raparigas, torneios de futebol propostos por grupos de rapazes...

O folheto mensal pode ainda divulgar momentos rituais como o banho de mangueira, os jogos de água na piscina, a limonada a meio da tarde. Funciona ainda como desafio para certas actividades, como por exemplo a colaboração na elaboração do jornal «Gira-Sol» que lançamos no final de cada ano.

Criou-se o ritual de preparar animações em grupo, que funcionam como surpresa para os outros frequentadores da Ludoteca. E quando chega o momento, todos são convidados a assistir ou a participar... Desfiles de moda (com os adereços do «camarim de teatro»), simulacros de programas televisivos, concursos, gincanas, teatros de marionetas ou fantoches, animações dramáticas de rua, absolutamente contagiantes, são alguns dos momentos criados entre eles. Como animadoras tentamos dar seguimento aos desejos e iniciativas individuais ou de grupo, resolvendo problemas técnicos, colaborando na organização, criando materiais, servindo como mediadores nos contactos entre crianças ou jovens que se desencontraram na vinda à Ludoteca.

E quando o desafio é para «entrar no jogo»... «fazemos a festa»! Por vezes damos com eles surpreendidos com algumas inesperadas performances a que o sentido de humor nos leva. É que nós levamos o jogo a sério! E é esta cumplicidade que tem feito nascer o companheirismo e a abertura com que eles sabem que podem contar. Tentamos promover diferentes vivências: momentos de prazer estético (como criadores ou observadores), momentos de diversão pura (que por vezes revemos em filme, sempre com o mesmo gozo) e momentos de «estar só a estar»... com tempo, com serenidade, na relva, em confidência com um amigo, deitado num banco de jardim, à sombra do guarda-sol, com uma música envolvente no ar, lendo um livro sossegadamente... pairando distante. Tentamos, diariamente, diversificar os momentos de jogo e de prazer... mas, também, ajudá-los a melhorar regras de convivência, a perder preconceitos, a rever ideias estereotipadas que os limitam, a abri-las para novas experiências e para novos valores de amizade e solidariedade.

Tudo isto faz parte do nosso jogo de vida. Tudo isto faz parte integrante da qualidade de vida que queremos oferecer. Quando uma menina nos confidencia: «Eu nunca tinha estado num sítio tão bonito como este...». Ou um rapaz exclama: «Este sítio foi mesmo feito a pensar em mim!...» sabemos que estamos no bom caminho. Pouco habituados a coisas boas que vêm para ficar, ainda hoje há alguns que se aproximam de nós perguntando se a Ludoteca vai acabar ou se é para sempre...

... É para sempre.

Com eles continuaremos a fazer girar o sol.


Maria Helena Pinheiro Martinho

Crónica publicada em Cadernos de Educação de Infância, N.º 40, 1996

NOTA 1 – À data da publicação da presente crónica, as animadoras da Ludoteca “Gira-Sol” eram Helena Martinho e Elisete Moreiras

NOTA 2 – Helena Martinho foi a responsável pela elaboração, implementação e montagem do projecto da Ludoteca “Gira-Sol” da Creche do Povo (Torres Vedras), em funcionamento desde Janeiro de 1995, de que foi coordenadora pedagógica até 2001. Este projecto foi financiado pelo programa NOW (New Opportunities for Women), do Fundo Social Europeu.

terça-feira, 5 de abril de 2011

sábado, 2 de abril de 2011

As nossas mãos, encontro de sentidos

O ano começa e vou até ti de mãos nuas. Tento despejar de mim todos os cansaços passados, todos os desalentos, todos os pensamentos, preocupações, todos os escuros. Tento acender luz nova nos meus olhos para os teus sedentos. Quero ajudar-te a sentir o prazer de olhar e ver as coisas profunda, vagarosa e demoradamente. Assim nascem as melhores perguntas, as que mais nos fazem caminhar e aprender.

Serás novo para mim. Eu nova para ti. E haverá no nosso mútuo olá de primeira vez uma coisa fresca de fruta doce de Outono. Hei-de ajudar-te a distinguir os sabores que o saber pode partilhar. E o gosto apurar-se-á em cada colher de sopa mágica que tomarmos na mesa que vamos partilhar. Sei que te darei tudo o que puder, mas pedir-te-ei muito mais do que aquilo que te posso dar. Para que sejas tu a progressivamente saborear, a construir (e não eu através de ti).

E já sei que, provavelmente, as minhas mãos se encherão das tuas. Nelas vais ler os muitos anos na companhia de ti sem seres exactamente tu. Perceberás as mil texturas de que é feita uma estrada. E descobrirás que também consegues moldar formas novas, tornar macio o áspero, encontrar o quente que se esconde no frio. Te direi, um dia, das minhas causas, das minhas lutas, porque as não esqueço e é por ti que elas se desenham e cumprem. Mas apenas depois de crescermos os dois um bocadinho mais, nesse exercício de aves aprendendo a voar juntas e separadas. As tuas causas, as tuas lutas serão as tuas.

O ano começa e vou até ti de mãos nuas. Porque quero ter espaço para ti em mim. Quero os meus sentidos livres no encontro com os teus. Sacudo os restos do pó acumulado do ano que já foi. Lavo-me (procuro lavar-me?) de tudo o que fere o sorriso que te quero dar. Afasto o cheiro menos bom do que é velho e desnecessário, perfumo a preciosidade antiga que faz falta, decido partilhar o aroma dos futuros possíveis. Das flores que semearmos a meias. Mereces um sorriso fresco e claro. Um cheiro a cama feita de fresco. Tudo novo por ser mesmo novo ou apenas porque o é aos olhos de quem vê pela primeira vez o que pensava já conhecer.

E sei que, nos anos contados a partir desse sorriso primeiro, iremos entrelaçar-nos numa teia macia que não prende, e ajudará o difícil exercício de libertação. E abraçar-nos-emos de mil formas possíveis, percorrendo com o corpo bem desperto todos os caminhos reais e sonhados. E hei-de escutar-te sempre, mesmo quando não te ouvir. E ajudar-te-ei a descobrir essa arte preciosa de saber colar os ouvidos ao universo infinito que nos habita por dentro e ao mundo, que tantas vezes dizemos ser pequeno, desarrumado fora de nós. Na escuta se aprende o prazer e a importância do som. Se cresce em cada aventura entranhada nos dias. Tudo é música, até o silêncio.

Vais descobrir. Basta quereres, deixares, aceitares as minhas mãos, quando bater à tua porta. Acreditas em mim se disser que está também nas tuas mãos? E as minhas mãos na companhia das tuas passarão a ser as nossas mãos.

(Com um cuidado especial, segredo que todos os Professores deviam conhecer: saber sempre, em cada minuto partilhado, onde acabam os meus dedos, onde terminam os meus sentidos e começam os teus... As tuas asas?)


Texto de Teresa Martinho Marques


Correio da Educação ASA, n.º 265, 11.Setembro.2006


quarta-feira, 30 de março de 2011

Reactor Português de Investigação (1961-2011): Da régua de cálculo aos computadores

O Reactor Português de Investigação (RPI) funcionou pela primeira vez em 25 de Abril de 1961. Dois dias depois era inaugurado o Laboratório Nuclear de Sacavém (actual Instituto Tecnológico e Nuclear, http://www.itn.pt/). Significa isto que se completam proximamente 50 anos desde a altura em que Portugal passou a dispor de meios significativos de investigação no domínio da Física e Engenharia Nucleares. Ao lembrar estas efemérides, pareceu-me interessante e oportuno passar em revista a evolução dos meios de cálculo de que dispuseram os investigadores do RPI durante o último meio século. Quem viveu a experiência por dentro, vê-se confrontado com sentimentos que vão desde a vertigem do tempo que passou ao espanto pelo incrível tempo vivido, tal foi o inimaginável caminho percorrido e as extraordinárias mudanças operadas. É uma história que vale a pena recordar...


Se hoje perguntarmos a um estudante universitário se sabe o que é uma régua de cálculo e como se utiliza, porventura poucos responderão afirmativamente. Todavia, na primeira metade da década de 1960, foi com réguas de cálculo que foi feita grande parte dos numerosos e fastidiosos cálculos relacionados com a calibração inicial do RPI.

Nos casos em que era necessário assegurar uma maior exactidão dos resultados, era utilizada uma máquina de calcular electro-mecânica Monroe. A velhinha Monroe era, toda ela, lentidão, movimento e ruído quando se lhe pedia um cálculo relativamente mais exigente. Para se ter uma noção do que isto significava, vale a pena apreciar o vídeo http://il.youtube.com/watch?v=Z-LwIHe72FA&feature=related. No caso ilustrado, trata-se de uma Monroe-Matic do início da década 1960 a fazer inicialmente uma divisão de 12,345 por 167...

Para calcular uma exponencial ou uma função trigonométrica, recorria-se a espessos livros da “especialidade” contendo infindáveis valores tabelados a intervalos regulares... que quase sempre era necessário interpolar. Ainda não havia as agora familiares calculadoras científicas de bolso que fariam facilmente estas operações.

Na segunda metade da década de 1960, passámos a ter acesso ao computador IBM 1620 do Centro de Cálculo Científico da Fundação Calouste Gulbenkian, por amável deferência desta instituição. Neste caso, era necessário escrever o programa em linguagem Fortran em Sacavém, perfurar os cartões e levá-los numa carrinha, em caixas, até à avenida D. João V (Lisboa) no dia e hora aprazados. Aí, o operador dava-os a “mastigar” à máquina para editar o algoritmo programado. Às vezes a máquina engasgava-se porque os cartões tinham pequenas dobras... Ou seja, também o IBM 1620 fazia o que podia... mas a verdade é que ajudou a resolver muitos problemas.



Em meados da década de 1970 dispusemos de uma pequena e frágil calculadora científica programável, TEK.31. Com ela fizemos pequenos programas para resolver sobretudo problemas em que o cálculo era repetitivo mas envolvia algoritmos relativamente simples. E no início da década de 1980, foi adquirido um computador PDP-15 da Digital Equipment Corporation, empresa pioneira e líder do mercado de minicomputadores durante longos anos.


A utilização do PDP incidiu sobre a resolução de problemas relacionados com a determinação de fluxos e espectros de neutrões térmicos e rápidos, mas também com o cálculo da evolução temporal da potência residual do RPI a partir de dados registados por um sensor calorimétrico e com o cálculo do consumo do combustível do reactor. Entretanto passámos a dispor de um computador da Norsk Data, a que se seguiram outros ...

Tudo se passou muito rapidamente nas últimas três décadas, fruto da evolução da tecnologia que se seguiu à descoberta do transístor em 1947 (William B. Shockley, John Bardeen, Walter H. Brattain, prémio Nobel da Física em 1956) e do circuito integrado em 1958 (Jack S. Kilby, prémio Nobel da Física em 2000).


A partir de meados de 1990 começa a era dos “personal computers”, com cada vez mais capacidade e maior celeridade no processamento da informação. A lei de Moore tem-se revelado certeira... Os cálculos mais “pesados” referentes ao núcleo do Reactor Português de Investigação estão agora ao alcance dos investigadores a partir de um PC instalado no seu gabinete ou a partir de um computador portátil com performance equivalente.


Vai longe o tempo da régua de cálculo e da (barulhenta e saltitante) velhinha Monroe!



Ilustrações -- Régua de cálculo: http://en.wikipedia.org/wiki/Slide_rule ; Máquina Monroe: http://www.xnumber.com/xnumber/pic_monroe_electr.htm ; IBM-1620: http://en.wikipedia.org/wiki/IBM_1620 ; Cartão perfurado: http://www.maximumpc.com ; PDP-15: http://hampage.hu/pdp-11/mas/pdp15.jpg ; Fita perfurada: http://www.wps.com/projects/paper-tape .


domingo, 27 de março de 2011

O príncipe Armelim


O Armelim é assim... já nasceu fadado para ser príncipe. Começou no berço. Começou no nome... É príncipe desde o levantar, manhã cedo.


Chega sozinho à escola com ar decidido e eu digo-lhe: «Olá príncipe Armelim!». E assim começa o dia...

Entra como o vento pela sala e num repente tudo fica encantado. De capa e calça brilhante, montado no fiel cavalo de pau... parte à desfilada. Vence bruxas e gigantes, espinhos mágicos em torno de castelos, dança nos bailes, acorda princesas, casa... quase todos os dias. Cavalgando pelas florestas, brandindo a sua espada, ele é um herói invencível... ele é o sonho de qualquer princesa.

Vive com emoção a construção de um palácio, mesmo como o dos reis... torre... trono... espelho mágico... cama... guarda-roupa real.

Às vezes, no meio de uma história, em momento de perigo, levanta-se com emoção, desembainha uma espada imaginária e ergue-a bem alto pronto a terminar pesadelos... mas a história continua ainda e volta a guardá-la sentando-se e suspirando...

Ele é Cinderlad cavaleiro, ele é Jack o Matador de gigantes, ele é príncipe rã... vivem nele todos os príncipes do mundo... É assim... o príncipe Armelim.

E é por isso que, quando o dia acaba, e já sem manto e sem cavalo regressa a casa, não resisto a dizer: «Adeus príncipe Armelim!»...

Depois fico a pensar nele...

Fui bruxa vezes sem fim... Já vivi muitos contos de fadas...

Mas nunca tive um príncipe tão príncipe na minha vida...


Crónica de Maria Helena Pinheiro Martinho publicada na revista Cadernos de Educação de Infância, N.º 17-18, 1991

NOTA – O Armelim era um menino de 4 anos que frequentava o Jardim de Infância de Famalicão da Nazaré Ilustrações: http://presentesdejulia.zip.net

sábado, 26 de março de 2011

Sem título

Desenho a lápis em papel e (depois de digitalizado) colorido num PC, feito
pelo meu neto João Guilherme Martinho Quintas (6 anos e meio)

quinta-feira, 24 de março de 2011

FUKUSHIMA, por Peter Heller

Dr. Peter Heller é astrónomo e físico. Nasceu em 1966 em Velbert, Alemanha.



O artigo que se segue foi escrito uma semana após o acidente de Fukushima.



  • Não há nenhum outro lugar na Terra onde me agradasse mais estar neste momento do que em Fukushima – exactamente na central nuclear, no centro do acontecimento. Digo isto porque sou físico, e não há outro lugar que possa ser mais emocionante e interessante para um físico. O mesmo se pode dizer de muitos, se não da maioria dos físicos e engenheiros, no planeta.

  • Ainda de tenra idade, sabia que um dia iria estudar Física. Quando menino, recebi um telescópio pelo Natal, e a partir dessa altura o meu olhar fixava-se no céu noturno; observar longamente enxames de estrelas, nebulosas e galáxias era a minha ocupação favorita. Foi só depois que soube que essas luzes cintilantes eram realmente manifestações de uma caótica e violenta força da natureza – a conversão directa da matéria em energia no decurso da fusão de núcleos atómicos.

  • A curiosidade transportou-me, como se estivesse nas alturas, ao longo de 10 semestres de estudo e subsequente graduação. Foi um tempo de descoberta que envolveu a esforçada tarefa da compreensão. Por vezes senti desespero e dúvida pessoal em relação à amplidão e complexidade do que havia para aprender. No entanto, havia momentos de alegria sempre que o nevoeiro se desfazia e a clareza e a beleza das descrições físicas dos fenómenos naturais apareciam em seu lugar. Foi um tempo que, infelizmente, passou muito rapidamente e que agora se situa num passado que ficou para trás há muitos anos.

  • Os grandes espíritos que me acompanharam ao longo dos meus estudos foram Planck, Sommerfeld, Bohr, Einstein, Heisenberg, e uma série de outros que, para nós físicos, ainda estão bem vivos hoje. Eles foram os grandes pensadores que contribuíram para desvendar os enigmas da natureza e as forças que mantêm o mundo como é assente em ínfimas estruturas, na sua maior parte. Eu devorava as histórias de Otto Hahn e Lise Meitner, de Enrico Fermi e Edward Teller – para citar alguns – e como eles abriram caminho a tecnologias completamente novas a partir de conceitos teóricos, mostrando como a energia armazenada no núcleo de um átomo poderia ser utilizada para o bem do Homem e como se tornava possível por um caminho nunca antes percorrido explorar em grande escala uma fonte de energia barata, limpa e abundante como nunca se vira antes: energia eléctrica que ilumina o nosso mundo, faz mover máquinas, permite-nos comunicar a grandes distâncias, tornando a nossa vida mais fácil e confortável. É uma fonte de energia que faz sair da pobreza e permite a prosperidade.

  • Electricidade: produzida pela divisão de núcleos atómicos com neutrões, adquirida através da conversão directa de massa em energia. É o princípio segundo o qual (através do processo inverso da fusão nuclear) as estrelas cintilam no céu noturno, um princípio pelo qual o Sol permite a vida no nosso planeta.

  • Como físico, enche-me de alegria e orgulho ver como o Homem é capaz de despertar esta força da natureza ao nível estrutural mais ínfimo, e depois ampliar, controlar e utilizar essa força em nosso benefício. Como físico, eu tenho o entendimento fundamental dos processos, posso imaginá-los e descrevê-los. Como físico, não tenho medo de uma central nuclear, nem da radioactividade. Finalmente, eu sei que a radioactividade é um fenómeno natural que está permanentemente connosco, à nossa volta, a que nunca poderemos escapar – e de que não precisamos de fugir. E vejo numa central nuclear um símbolo da capacidade do Homem para domar as forças da natureza. Como físico, não tenho medo do que a natureza tem para oferecer. Mais propriamente: tenho respeito. E este respeito convoca-nos a aproveitar os acasos favoráveis como os oferecidas pelos neutrões, que podem dividir núcleos atómicos e, assim, converter a matéria em energia. Qualquer outra coisa seria ignorância e cobardia da nossa parte.

  • Houve momentos na história em que a ignorância e a cobardia ofuscaram a vida humana. Foi uma época em que antepassados nossos eram obrigados a uma vida de superstição e medo, porque estavam impedidos de usar a criatividade e a fantasia. Dogmas religiosos, como o ser a Terra o centro do universo, ou a pseudo-teoria do criacionismo, levaram as pessoas a não questionarem a realidade da natureza. A proibição de autopsiar um corpo humano e de o examinar, impedia as pessoas de apresentar dúvidas. Hoje, tais concepções medievais aparecem como retrógradas e sem sentido. Nós, simplesmente não podemos imaginar que um tal modo de pensar tenha qualquer aceitação.

  • Mas nos últimos dias tenho sentido a preocupação crescente de estarmos novamente a caminho desses tempos sombrios. Reportagens histéricas e sensacionalistas dos media, a par de uma clara exibição de ignorância das inter-relações técnicas e científicas, assim como a tentativa de uma vasta maioria de jornalistas de provocar nas pessoas o medo e a oposição à energia nuclear – pura caça às bruxas disfarçada de modernidade.

  • Por isso, enche-me de tristeza e raiva ver como o trabalho dos referidos gigantes da Física está agora a ser arrastado pela lama, como as grandes descobertas científicas do século XX estão a ser redefinidas e criminalizadas. O debate actual na Alemanha é também um debate sobre a liberdade de investigação. A estigmatização e o ostracismo da energia nuclear, o pedido de uma paragem imediata da sua utilização, é também um pedido visando o fim da investigação e do desenvolvimento. Não haver oportunidades de emprego significa também não haver alunos, o que equivale a não haver faculdades, o que significa, em última análise, o fim do progresso do conhecimento humano. Banir a energia nuclear é, nada mais, nada menos, do que rejeitar o legado de Einstein, Heisenberg, Bohr e muitos outros. Equivale a fazê-lo em estilhaços, rotulando-a de perigosa – tudo num quadro de ignorância. E tal como os criacionistas tentaram banir a Teoria da Evolução dos livros escolares, quase parece que cada explicação factual e isenta na Alemanha está agora em vias de ser proscrita.

  • Os media sugerem uma catástrofe nuclear, uma mega-fusão, e que o apocalipse já começou. É quase como se as 10 000 mortes no Japão tivessem realmente sido consequência da energia nuclear, e não do terramoto ou do maremoto. Também aqui é preciso lembrar que Fukushima foi atingida por um inimaginável terramoto de nível 9 e, em seguida, apenas uma hora depois, por um “muro de água” com 10 metros de altura. Em consequência, FUKUSHIMA não se erguia já num país de alta tecnologia, mas sim num deserto de escombros. Tudo ao redor da central, infra-estruturas, áreas residenciais, vias de circulação, redes de energia e de comunicação, simplesmente já não existiam. Tudo foi destruído. Apesar disso, após uma semana, o apocalipse ainda não aconteceu. Somente foram libertadas quantidades relativamente pequenas de materiais radioativos, que tiveram apenas impacto local.

  • Se nos cingirmos aos factos, ou seja, àquilo que realmente é conhecido, torna-se evidente a falta de fundamento das interpretações de analfabetos científicos nos media. Só podemos chegar a uma conclusão: este triste estado de coisas vai se manter.

  • Na verdade, Fukushima não é a demonstração do fundamento de receios e advertências ideologicamente motivados. Fukushima mostra antes que somos realmente capazes de controlar a energia atómica. Fukushima mostra que podemos dominá-la mesmo quando catástrofes naturais além do previsível caem sobre nós. Ainda assim, em torno de Fukushima avulta o conflito entre criatividade e competência humanas e o aproveitamento da energia de ligação nos núcleos atómicos. É uma luta que mostra o que a inteligência humana, conhecimento adquirido, paixão, ousadia, respeito e capacidade de aprender nos permitem fazer. Pessoalmente isso não me enche de apreensão, mas de esperança. O Homem pode responder a este desafio, não só porque tem de o fazer, mas acima de tudo, porque quer fazê-lo.

  • Apesar de não trabalhar em Física há algum tempo, nunca deixarei de ser um cientista e um investigador, e não há outro lugar onde eu preferisse estar agora mais do que em Fukushima. Não há outro lugar neste momento onde se possa aprender tanto sobre a energia atómica, que no fundo mantém o nosso mundo tal como é, e sobre as possibilidades técnicas de se beneficiar dela. Não temos a coragem de aprender? Não aceitamos – com respeito e confiança – as oportunidades com que somos confrontados? Fukushima vai mostrar-nos possibilidades de usar a conversão directa da matéria em energia de uma forma melhor e mais segura, algo com que só Einstein e outros poderiam ter sonhado.

  • Eu sou físico. O meu desejo é viver num mundo com vontade de aprender e de melhorar tudo o que é bom. Eu só gosto de viver num mundo onde os grandes avanços da Física sejam vistos com fascínio, orgulho e esperança, porque nos mostram o caminho para um futuro melhor. Eu só gosto de viver num mundo que tenha a coragem de aspirar a ser um mundo melhor. Qualquer outro mundo para mim é inaceitável. Jamais. É por isso que vou lutar por esse mundo, sem nunca ceder.




Texto original, em Alemão: http://www.science-skeptical.de/blog/fukushima/004149/


Versão em Inglês: http://wattsupwiththat.com/2011/03/20/a-plea-for-a-return-to-science-on-the-nuclear-power-issue/


NOTA - A presente versão em Português beneficiou muito da gentil colaboração do meu colega e amigo Frederico Carvalho que, além de prestigiado Físico, é fluente em Alemão e em Inglês.


Foto de M. Planck: http://www.praticandofisica.com.br/ ; Foto de L. Meitner: http://www.mediathek.at/ ; Fotos dos restantes cientistas: http://en.wikipedia.org/