segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Parabéns Bruno!

O meu neto Bruno, filho do Paulo Miguel e da Filomena, faz hoje 19 anos. Nasceu e vive na cidade da Guarda, pelo que só nos vemos de vez em quando. Mesmo assim, tivemos oportunidade de observar flores, insectos e outras curiosidades nos passeios que dávamos, de brincar aos "gabinetes secretos" com velhos telefones instalados numa sala onde só ele e eu podíamos entrar, de fazer experiências de Física (ele ainda hoje se lembra do balão vermelho que se encheu por si, magicamente, no interior de uma garrafa que fora aquecida antes), e de montar engenhocas diversas num “laboratório” à entrada do qual ele colocava o aviso do not enter. Enfim, divertimo-nos.



Vai longe o tempo em que o Bruno, sentado ao meu colo, brincava pela primeira vez com o teclado de um computador. Mais tarde, entretinha-se a desmontar e a montar de novo o miolo de um velho PC. Hoje, frequenta o 2.º ano do curso de Tecnologias e Sistemas de Informação na Universidade da Beira Interior. Agora, quando tenho problemas informáticos, é ele o meu conselheiro! Cresceu... É bom ter-te entre nós...


domingo, 21 de novembro de 2010

Chama-se Ana

Sentou-se ao meu lado num banco desconfortável de uma das salas de espera do Hospital de Santa Maria. Era uma moça esguia, de tez escura, onde só os olhos negros e muito expressivos emprestavam ao conjunto um certo encanto.

A conversa surgiu: falou-me na dura experiência de dois meses de internamento, vividos ali, numa enfermaria sem condições, após uma melindrosa operação. Mas acrescentava, pressurosa, que quanto a cuidados médicos, tudo correra muito bem. Hoje viera para uns exames. Estava liberta. Finalmente!

Natural de Angola, casada e com um filho, o Miguel. Do marido, só más recordações. Largara-se dele há tempo e recolhera-se no afecto de uns tios que muito lhe queriam. Deambulara por França, trabalhando como empregada de um casal. Adoecera entretanto e, com o diagnóstico dos médicos franceses, regressara a Portugal para ser hospitalizada.

Voltou a falar do homem com o qual viveu seis penosos anos, tentando o impossível para manter a chama. Mas tudo fora inútil. Se soubesse até onde chegou o meu desespero! Pensei suicidar-me... Continua casada e espera ganhar forças para iniciar o processo de divórcio. É que está sem emprego e sem dinheiro. Os tios sustentam-na, e ao menino, enquanto o marido vive bem e alheado de todos os problemas.

Decorrera uma hora. Eu aguardava notícias do meu doente. Alguém veio chamá-la. Levantou-se e despediu-se com gentileza. Vi-a desaparecer através da larga porta de vidro, que dá acesso ao elevador.

Chama-se Ana e como adorno tem aqueles olhos grandes, muito escuros.


Crónica de Maria da Piedade Pinheiro Martinho publicada no jornal O Mirante em Setembro de 1989

Ilustração: Mulher de Angola - Quadro de Toia Neuparth

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sim, Senhor Doutor! Sim, Senhor Engenheiro!

Há dias tive a oportunidade de ver um certificado de passagem de ano lectivo de uma aluna que frequenta uma Universidade belga, concretamente a Universidade Livre de Bruxelas (ULB). Refira-se desde já que, contrariamente ao que se passa na Universidade portuguesa, a aluna não tinha tido necessidade de requerer o certificado, e os respectivos serviços administrativos não haviam levado tempos infindos a passá-lo. De facto, quando acaba o ano lectivo, e com as classificações lançadas em computador, os professores da ULB reúnem-se em sessão pública e, logo ali, distribuem o certificado pelos alunos que concluíram com êxito os seus exames.

Na posse desse documento, os alunos podem então inscrever-se no ano lectivo seguinte, candidatar-se a um quarto numa residência universitária, solicitar uma bolsa de estudo nos serviços sociais da Universidade, etc. Como se percebe, o sistema está concebido para funcionar com operacionalidade e sem burocracias exageradas, e funciona mesmo.

Vários aspectos impressionam nesse certificado, desde a sua simplicidade formal até ao volume de informação nele contido (que inclui a carga horária anual de cada disciplina e o nome dos respectivos professores), passando pela já referida eficácia com que o documento foi produzido, logo no final do ano lectivo, por recurso a uma tecnologia moderna de processamentos dos dados escolares.

No tocante à simplicidade formal, um aspecto saliente, a reter aqui, tem a ver com a forma como o nome dos professores é escrito no certificado: Mr. Salmon, Mr. Louis, Mr. David, etc. Ora, Mr. é a abreviatura de Monsieur, que quer dizer Senhor, cuja abreviatura é Sr.. Por outras palavras, professores conhecidos internacionalmente, pertencentes a uma Universidade prestigiada, são mencionados muito simplesmente como Sr. Salmon, Sr. Louis, Sr. David, ... Aliás, esta é a regra geral de tratamento das pessoas entre si na Europa, independentemente dos seus graus universitários: o Senhor X, o Senhor Y, ... É simples e prático, e ninguém se sente ofendido ou menos importante.

E que se passa em Portugal? No nosso País, terra de muitos convencimentos e equívocos, onde o reconhecimento de valores nem sempre obedece a critérios de rigor, há muitos e variados tipos de tratamento: Senhor Doutor, Senhor Engenheiro, Senhor Professor... sem falar nas variações utilizadas na forma escrita: Senhor Professor Doutor, Senhor Doutor Engenheiro, Senhor Professor Doutor Engenheiro...

Poderia pensar-se que, com o evoluir do nosso sistema político para uma democracia de tipo europeu ocidental, pudesse haver alguma iniciativa consistente para tentar modificar a situação no tocante à forma de tratamento entre os portugueses, retirando-lhe o convencionalismo reinante e a carga de subserviência que lhe pode estar (e está, muitas vezes) associada. Esta democratização do relacionamento entre os cidadãos poderia (deveria) ser encetada calmamente (que o hábito vem de longe e está enraizado) e sem demagogias, como um projecto a prazo, sem prejuízo do reconhecimento de que as pessoas são diferentes entre si, como distintas são as funções que desempenham na sociedade. No fundo, o respeito saudável por alguém é uma atitude natural, decorre daquilo que a pessoa realmente é e não dos títulos académicos, ou outros, que possa ostentar.

Poderia pensar-se que sim (com o evoluir do sistema político, dizia), mas não, nunca foram dados passos nesse sentido. Sê-lo-ão algum dia? É que mesmo pessoas esclarecidas e tidas como progressistas continuam agarradas a velhos hábitos e “privilégios”, que cavam a diferença e acentuam as distâncias, e defendem-nos ciosamente, forçando a hierarquização dos portugueses em cidadãos de primeira e cidadãos de segunda (onde se incluem cerca de dois milhões de analfabetos!), como se não fosse já suficiente a diferença real existente na prática.

É o caso do professor universitário que humilha um empregado da Faculdade apenas porque o tratou por “Senhor Doutor”: Senhor Doutor? Senhor Professor, quer dizer! Olhe que se for preciso puxar pelos galões, posso muito bem fazê-lo! É o caso do médico que invectiva a funcionária dos correios apenas por lhe ter enviado um aviso dos CTT sem o Dr. atrás do nome. E muitos outros exemplos poderiam ser mencionados.

Nesta matéria, como em muitas outras, Portugal está longe da Europa. E se é verdade que para conseguir certas evoluções são necessários fundos avultados, neste caso a mudança depende apenas de nós, assim haja coragem para encetar um caminho de igualização da dignidade. Agora que foi criado pelo Conselho de Ministros uma estrutura designada “Secretariado Europa 1992”, que «visa, no essencial, mobilizar o País para o desafio decisivo que é a construção da Europa sem fronteiras até 1992», talvez fosse uma boa oportunidade para eliminar certas fronteiras entre os portugueses!


Crónica publicada no jornal O Mirante em Setembro de 1988, e de novo em Junho de 2007 com a seguinte anotação da Direcção do jornal: Quase 20 anos depois resolvemos republicá-la, com a autorização do autor, para percebermos melhor o país em que ainda vivemos.

Fotografia da ULB encontrada em http://commons.wikimedia.org/wiki/User:Roby

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Quando eu nasci


Quando eu nasci,

ficou tudo como estava.


Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve Estrelas a mais...

Somente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...


P'ra que o dia fosse enorme,

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...



Sebastião da Gama

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os avós Manuel e Márcia

Esta fotografia do meu avô Manuel Cardoso foi tirada em 1912 no Brasil para onde ele emigrara. A minha avó Márcia ficara em Famalicão (Anadia) com os dois filhos mais velhos: Maria Emília (minha Mãe) e o meu tio Francisco. Viriam a nascer ainda mais cinco filhos.

Após o regresso do Brasil, a família Cardoso acabou por vir para a Chamusca, julgo que por iniciativa de minha Mãe (que para aqui tinha vindo trabalhar e onde havia casado em 1936). É uma história de que não conheço o essencial.

Não me lembro muito bem do meu avô Manuel porque, quando ele faleceu, eu teria uns dez anos e não tínhamos convivido muito. Ficou-me uma ideia da tristeza do seu olhar, da finura do seu trato e da consideração que tinham por ele (informaram-me mais tarde), porque era uma pessoa educada e cumpridora. Escrevia facilmente e tinha uma caligrafia bonita, aliás como a minha Mãe.

Recordo-me que o meu avô Manuel fumava cigarros enrolados, que acendia com um “isqueiro” em que uma torcida enfiada no interior de um pedaço de cana funcionava como mecha. A lembrança mantém-se porque me fascinava a perícia com que ele acendia a mecha fazendo saltar uma faísca de uma pedra esquinada por fricção das arestas com uma pequena lima de ferro.

Em suma, o que me lembro dos meus avós maternos é apenas um pouco mais do que nada. E tenho pena de ter sido curta para mim a sua “eternidade”... Por isso, aqui fica uma pequena achega para alongá-la junto dos meus netos.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O avô Joaquim

O avô era um bonito homem. Alto, esbelto, feições correctas, um bigode ruivo muito cuidado e aquele ar altivo parecendo dominar tudo e todos. Dizia-se que fora grande conquistador de corações nos tempos da juventude. Ainda na época em que o conheci da fama não se livrava, sob a complacência da avó, habituada a sofrer em silêncio as agruras de todas as infidelidades.

Fiquei com ele, na casa onde nasci, nos primeiros anos. Do respeito que lhe tínhamos, mistura de medo e admiração, ainda hoje retenho a impressão que nos causava. Tempo de silêncios quando ele se anunciava, no gesto habitual de abrir a porta ou no subir vagaroso da velha escada. O certo é que nunca o avô se zangou connosco. Nos jantares das quintas-feiras, reunida a família, os pequenos tinham já nessa época o privilégio de contestar pequenas coisas. Nesses momentos, por entre os esgares aflitos dos pais e dos tios, o avô esboçava sempre um sorriso discreto de condescendência e ternura, camufladas embora pelo ar austero que a ele mesmo se impunha.

Guardo em mim, como um marco indelével, aquele seu gesto amável quando terminei a quarta classe. O avô comprou uma pasta de cabedal (o meu sonho de sempre) que colocou num dos degraus a meio da escada que eu subiria mais tarde. Foi a surpresa mais sensacional do tempo que passei com ele. Deixei-o pouco depois, para ir viver com os meus pais.

Dele guardei recordações de infância que fazem parte do meu imaginário. Até hoje.

Texto de Maria da Piedade Pinheiro Martinho publicado no jornal O Mirante (Dezembro.1992)


A avó Rosa

A imagem da avó, se bem que esbatida, continua presente. Revejo-a no modo terno como me acarinhava e lembro-a no seu jeito pesado de se deslocar pela casa, roupas escuras que sempre lhe conheci e os hábitos familiares e rotineiros que cumpria com rigor e sem queixumes. Está junto ao fogão de lenha, desfaz pacientemente o feijão que servirá para a sopa. Num passador, ela deita o feijão cozido e, com pancadas ritmadas, tenta desfazê-lo com uma colher de pau, sem pressas. Olho-a extasiada! Nem sequer posso ajudá-la, que a colher é muito grande e é preciso bater com força. Lembro-a sentada a engomar, o ferro pesado, a carvão (sentada, porque o corpo doente lho não permitia de outro modo). E nas épocas festivas, confeccionando as broas e os coscorões – tudo colocado na mesa comprida e escura da sala.

Às quintas-feiras, pontualmente , chegavam para o jantar os filhos já casados, as noras, os genros e os pequenos. Quantas brincadeiras à volta dos pontapés que dávamos uns aos outros, por debaixo da toalha. E os nossos pais, que nos lançavam olhares reprovadores! O avô mantinha, lá no topo, uma presença austera, mas era quinta-feira... Nós sabíamos bem que isso nos era permitido e mesmo recusar a sopa, se por acaso nos agradava menos. O sorriso do avô, só para nós e às quintas-feiras. Grande festa!

Vem-me à memória os anos 43 ou 44, com o racionamento de alguns géneros alimentícios. Se bem que nos não tenha afectado, porque o avô fiscalizava o mercado municipal e vinham todos os dias as alcofas repletas de tudo muito fresco, apenas eu o sentia no rebuçado ou na colher de mel que a avó colocava no fundo da minha caneca para adoçar o leite com café. É que o leite continuava bem amargo e eu reclamava sempre. Nos tempos livres a avó tricotava, em fio de algodão, lindas meias rendadas para os netos. Usava cinco agulhas muito finas de metal, cujo tilintar e arte no manejo me causava sempre grande surpresa. Nos momentos menos bons ou nos dias de temporal, ela recolhia ao quarto e rezava diante do grande oratório, suspenso numa das paredes e no qual se misturavam imagens de santos de aspecto mais ou menos triste, flores secas e pavios que, alimentados a azeite, emprestavam ao ambiente um cheiro não muito agradável. No conjunto, e para mim, era um local misterioso e sinistro. Detestei sempre o velho oratório!

A avó acompanhou entusiasmada a minha entrada na escola primária. Esmerava-se nas minhas batas, sempre lindas, e destinara em casa, num cantinho, uma secretária para os meus afazeres, que os tínhamos nessa altura e em quantidade, todos os dias.

Cresci com ela até aos nove anos. De repente, a avó ficou muito doente. Ninguém me preveniu, mas eu sabia que ela ia deixar-nos. Sentava-me junto dela o tempo todo. Quiseram afastar-me. Recusei. Levaram-na numa tarde de sol. Seguiram-se noites de pesadelos e mágoa. Com muita dificuldade, retomei naquela casa o meu lugar, agora sem ela.

Texto de Maria da Piedade Pinheiro Martinho (1992)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Libertação pelo conhecimento

Li algures uma frase com o seguinte significado: o conhecimento é o que fica depois de se esquecer tudo. Numa primeira leitura, poderia ser-se levado a pensar que, esquecendo tudo, nenhum conhe­cimento ficaria... Visivelmente, porém, não é esta a conclusão a tirar. Na verdade, da vivência pessoal de cada um, não se esquece aquilo a que alguma vez se aderiu completamente, ou seja, aquilo que se interiorizou em nós a ponto de passar a fazer parte integrante do nosso conhecimento.

Admitamos que se pergunta a alguém: Ainda sabe andar de bicicleta? ou O açúcar tem um sabor ácido, amargo ou doce? ou ainda Normalmente, em que época do ano faz mais frio em Portugal? Ninguém duvida que as respostas a tais perguntas serão dadas correctamente e sem hesitação. Supo­nhamos agora que se interroga um jovem estudante do ensino secundário, por exemplo, sobre questões relacionadas com matérias já versadas nas aulas. Nesta situação, como é óbvio, não se pode afirmar antecipadamente se as respostas serão correctas ou erradas. Isso dependerá da conjugação de vários factores intervenientes no processo de aprendizagem das matérias, de que se salientam aqui a capaci­dade dos professores e os meios laboratoriais e audiovisuais postos ao serviço do ensino.

Vem isto a propósito da minha passagem pelo Colégio Padre Fernando Eduardo Pereira – Outubro de 1949 a Julho de 1951 – e do conhecimento que me ficou desses dois anos lectivos, depois de esque­cer tudo... De todas as disciplinas poderia recordar episódios ou aspectos que influenciaram positiva­mente a minha actividade escolar subsequente. Citarei apenas um caso. Talvez levemente desfocado, porque esbatido pelo tempo. Mas autêntico.

Aulas de Ciências Naturais em manhã de sol. Foi até necessário fechar a janela para realizar a de­monstração, que a claridade era excessiva na sala. Da vitrina de um móvel, onde era guardado o pouco material didáctico que havia no colégio, saiu um aparelho que de há muito despertava a nossa curiosi­dade. Preparado o equipamento em cima da secretária da professora, a D. Carlota Serra, todos nos co­locámos à sua volta, atentos. A Terra era um pequeno globo, a Lua era uma esfera de cortiça espetada na extremidade de um arame encurvado, o Sol era uma vela reflectindo-se num espelho tosco. Accio­nadas por meio de uma manivela, as engrenagens, um tanto enferrujadas, entraram em funcionamento. A Terra começou a rodar em torno do seu eixo, a Lua iniciou o movimento de translação à volta da Terra, enquanto o Sol, bruxuleante, desempenhava a contento a missão. Eu e os meus colegas agitá­vamo-nos, interessados. Vieram as perguntas e as explicações, repetiu-se a demonstração. Como diria Sebastião da Gama: aconteceu uma aula! E, em meia hora, fiquei a compreender completa e definiti­va­mente como se sucedem os dias e as noites, como se explicam as fases da Lua, como se dão os ecli­pses da Lua e do Sol. Dera o primeiro passo no conhecimento dos mistérios da “máquina universal”.

Foi desde então, creio, que passei a olhar a Natureza com tranquilidade.

Artigo publicado na revista Chamusca Ilustrada em Maio de 1977

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Recordando outros tempos

Nota: A autora deste texto é minha companheira de viagem desde há quase 50 anos. É natural, pois, que partilhemos este espaço de recordações, no que será um blogue a várias mãos...

No ano de 1961, aquando do início da guerra colonial, era o meu irmão ainda um adolescente. Com a guerra cresceram, nos anos que se seguiram, os jovens portugueses, aguardando como condenados, a hora da partida. O pesadelo chegara traiçoeiro, ensombrando milhares de famílias e trazendo a muitas delas o luto, que hoje ainda se mantém vivo.

Em nossa casa, os filhos viveram a guerra através do tio, que um dia também partiu, rumo à Guiné. Ele que fora menino pacato, que se fizera homem recusando toda a violência, lá foi de abalada, entregue à sorte, que outra coisa o não poderia proteger. Aqui ficámos nós, com o medo dos que ficavam e viam partir os familiares. Chegavam com frequência os aerogramas endereçados aos sobrinhos, recheados de engraçados desenhos que ele coloria, de muitas histórias ou divertidas charadas. Acolhíamos as notícias sem entusiasmo, porque cada minuto em África escondia mil perigos, e as cartas chegavam sempre com grande atraso. Só os pequeninos faziam da chegada do carteiro um motivo de alegria. Era natural. Por vezes eles procuravam saber mais coisas sobre a guerra. As irmãs perguntavam: O Paulo Miguel também vai? Nós acreditávamos que tudo terminaria entretanto, ou que, de alguma forma, o não «deixaríamos» ir.

O tio regressou da Guiné «salvo», que lá por dentro as recordações amargas não se apagariam nunca. Regressavam os mortos, os estropiados e os «outros», tristes e envelhecidos, doentes na alma, com um ror de lembranças que raramente partilhavam. Numa noite, o meu irmão ficou connosco até tarde. Do relato inesperado e espontâneo que então surgiu, colhidos pela surpresa e emocionados, escutámos o desabafo. Estivemos com ele no mato guineense, atravessámos clareiras de morte, silêncio e medo. Sentimos o suor no corpo cansado e vimos cair companheiros.

O dia 25 de Abril de 1974 foi para nós, em família, um dia diferente.

As perguntas sucediam-se (os quatro filhos tinham então entre 7 e 13 anos): A guerra ia acabar? O que era a PIDE? Porque havia presos políticos? Porque é que nunca lhes tínhamos falado nestas coisas? Explicámos o que era a polícia política e falámos do medo que se instalara em muitas famílias, receosas de que uma simples conversa em casa pudesse trazer algo de muito desagradável.

No dia seguinte as aulas reabriram e os filhos retomaram a sua actividade. Vi-os partir nessa manhã, muito assustada. Estava ainda escuro e Lisboa tinha sido palco, na véspera, de incidentes próprios de um tempo de revolução. Mas eles tranquilizaram-me. Tudo ia correr bem, disseram. E assim foi...

Recordo um diálogo acontecido em Setembro de 1977 num programa da TV intitulado Gente Crescida, em que a mais nova (então com 12 anos), tendo como parceiro de conversa o Padre Alberto (professor, grande amigo dos jovens e conhecedor profundo dos seus problemas, que foi assassinado barbaramente dez anos depois), dizia após longo e interessante diálogo: Se não fosse o 25 de Abril, o meu irmão, que tem agora 18 anos, iria para a guerra!.

A cerca de três décadas de distância, há que reconhecer: 25 de Abril de 1974 foi o início de um tempo diferente, para melhor, apesar de tudo.


Artigo de Maria da Piedade Pinheiro Martinho publicado no jornal O Mirante (Abril.1989) e lido no programa radiofónico A História Devida, RDP-Antena1 (06.Setembro.2006).


Inês Fonseca Santos, Nuno Artur Silva e Miguel Guilherme, nos estúdios da Antena 1, durante as gravações de um dos programas d'A História Devida.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

As lições do Joaquim

O Joaquim era o meu companheiro preferido de brincadeira, em tempo de férias da escola primária. Com ele calcorreava a quinta onde moravam os meus avós paternos, no Pinheiro Grande, que foi palco das mais excitantes descobertas e aventuras da minha meninice. A propriedade era pertença do senhor David Salgado, conhecido farmacêutico na Golegã, que ali vinha passar fins-de-semana e períodos de férias com a família.

Com o Joaquim aprendi a armar ratoeiras, a fazer fisgas com elásticos e couro flexível montados num pedaço de ramo em Y, e a construir armadilhas, com bocados de cana presos com guita, para caçar melros e tordos vivos, sendo o engodo as lagartas que ele desencantava com perícia nos caules do milho.

No tanque que ficava no cimo da encosta, já a caminho da charneca, observávamos deliciados o verde mesclado e brilhante das rãs e, coisa espantosa, impressionavam-nos os insectos que deslizavam à superfície da água, por impulsos descontínuos, apoiados nas patas, cujas extremidades pareciam ter almofadas flutuadoras. Era aí também que púnhamos a navegar os pequenos barcos construídos com casca de pinheiro, que se deixava facilmente moldar com o canivete. Recordo-me que, na fase dos acabamentos, esfregávamos as partes a bolear nas paredes de cimento do tanque, que era a lixa que tínhamos à mão.

À hora da merenda, subíamos a uma nespereira enorme, inclinada sobre uma courela, que ficava próximo do canavial onde pernoitavam bandos infindos de pardais barulhentos. Ou, então, descíamos à várzea, para saborear as ameixas mais perfumadas que já conheci. Outras vezes, respondia ao chamamento vindo de baixo, gritado da eira onde guinchava a máquina de descarolar o milho e se ouvia o bater compassado dos manguais, entremeado com a vozearia dos homens atarefados na debulha do feijão. Pão com queijo e uma pinga de café adoçado com mel de cortiços caseiros, era o tipo de mimos com que a avó Engrácia me apaparicava.

Guerras também as fazíamos, naquele tempo. O Joaquim era um especialista no fabrico de armas de arremesso. Uma delas era feita com um tronco direito de sabugueiro, a que se retirava o miolo, onde trabalhava um êmbolo feito à medida, em pau de marmeleiro: os projécteis eram pequenas rolhas de cortiça colocadas nas extremidades do tronco, que saíam com estrondo sob a pressão do ar. Numa outra arma, mais sofisticada, que até tinha gatilho, o Joaquim utilizava como espingarda um bocado de cana grossa com cavidades judiciosamente abertas, onde encaixava um ramo de marmeleiro dobrado: aqui, as balas eram pequenos canudos de cana fina colocados no interior do cano, encostados ao gatilho; desprendido este, lá voava o projéctil em direcção aos soldados alinhados nas trincheiras, feitos igualmente com canas.

Foi em casa do Joaquim que vi, pela primeira vez, fascinado, uma cultura de bichos-da-seda. E aí fui iniciado na lógica do raciocínio dedutivo. Face à conversa dele, peguei num casulo e afirmei, convencido: Mas isto não pesa nada!. O Joaquim olhou-me calmamente e corrigiu: Repara que nada mais nada é igual a nada, e eu tenciono vender os casulos ao quilo... Inesperadamente, eu acabara de tomar consciência da importância dos pequenos nadas. E mais: que era preciso atender às leis de conservação universais que regem as ciências experimentais, como a Física. Mas isso só o compreendi, verdadeiramente, muitos anos depois.

Interrogo-me hoje até que ponto me terão influenciado as brincadeiras com o notável Joaquim, que comigo partilhou fraternalmente a sabedoria adquirida com inteligência no contacto com a Natureza. Quem pode prever o destino das sementes caídas no terreno da infância?

Artigo publicado no jornal O Mirante (14-03-1995)
e no livro Histórias Devidas, Edições ASA, 2006.


Fotografia encontrada em http://casatuga.wordpress.com/2008/06/02/antigamente-que-era-bom/

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Poente(s)





Terminada hoje a curta estadia em Santa Cruz, esta é a última entrada (por agora) de uma pequena série em que a fotografia teve a palavra...

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um amor à primeira vista

Conheci Santa Cruz em 1965, depois de ter estado dois anos e meio em Paris (pós-graduação). Quando regressei, vinha sedento de mar e de sol. Uns amigos nossos, o José e a Clarisse Silva Pinto, deram-nos a conhecer a praia de Santa Cruz e… foi amor à primeira vista!

Nunca mais a nossa família deixou de passar em Santa Cruz os periodos de férias. E mais: tenho uma filha que reside aqui (a Maria Helena, Educadora de Infância no Vimeiro e mãe do João Guilherme) e uma outra que vem de Bruxelas propositadamente passar parte das férias a Santa Cruz (a Maria Isabel, funcionária da Comissão Europeia e mãe do Hugo e da Inês). Vontade expressa reiteradamente pelo Hugo (a caminho dos 9 anos): “Quero ir para a praia das barraquinhas”… Teremos aqui um embrião de continuidade?

Desde a minha aposentação (2002), aluguei uma casa a norte de Santa Cruz (Urbanização do Pisão), por ser uma zona mais tranquila. Para aqui vimos, eu e a Piedade, passar alguns dias por mês, como acontece agora mesmo.

Eis porque a última entrada dizia respeito à Santa Cruz dos primeiros tempos, e a entrada de hoje é a primeira de outras em que a fotografia tem a palavra.