domingo, 9 de novembro de 2014

South e North City... ou "A união faz a força"

Hugo Martinho Chaves (Londres, 2013)

O autor do texto seguinte é o meu neto Hugo (12 anos), aluno do 7.º ano da Escola Europeia de Woluwe, Bruxelas. Na aula de Português foi debatido o tema “a união faz a força” tendo por pano de fundo o valor da “reconciliação”. Seguiu-se um trabalho de casa em que cada aluno devia congeminar uma história tendo em vista o tema em causa. Este foi o texto do Hugo, que mereceu a classificação de 10/10… :)


South e North City

Há dois séculos atrás, entre o Oklahoma e o Texas, no meio da Pradaria, havia duas cidades, uma com o nome de South City e outra chamada North City. As duas tinham sido fundadas por um grupo de peregrinos honestos e bondosos. Antes formavam uma única cidade, mas durante uma cheia do rio da zona a cidade dividiu-se, pois uma noite uma enorme onda vinda de lá destruiu o centro da antiga vila e formou a ribeira que, naquele tempo, dividia as duas cidades. Bem, podemos dizer que a divisão da vila não foi instantânea, pois enquanto a geração peregrina continuasse forte, presente e junta, a cidade ia continuar unida, mesmo dividida por um meio natural. Fizeram pontes, diques e até tentaram secar a ribeira, plano que não chegou a executar-se por falta de meios e homens. Mas esta localidade tinha ficado tanto tempo isolada do mundo civilizado (o município tinha sido dos primeiros a ser fundado no Oeste selvagem, mas antes da época da colonização da região, fazendo-a ser esquecida e ignorada até à chegada do «homem moderno», de uma certa maneira) que os habitantes ficaram espantados e até com um bocado de medo do novo género de homens e mulheres que tinham substituído o simpático e religioso peregrino : o cowboy, homens que sabiam manejar o revólver, substituto mais pequeno e prático do mosquete a um tiro, e tratavam de enormes manadas de vacas, o desperado, os novos bandidos que tornavam tudo o que roubavam em álcool, e, o que mais impressionava, era a nova mulher, que sabia usar armas, guinchar mais alto que as suas predecessoras, desafiar o marido, que era pecado para as mulheres peregrinas e, ainda mais pecador para elas, ser chefe de família, posto que era dado apenas aos homens. Ora, para o grande mal dos peregrinos, das três «raças», a mais presente na vila eram os que se aproveitavam da localização isolada da cidade para se esconderem da Lei. Sob a sua influência, construíram-se saloons, hotéis e bancos, que substituíram as casas de chá inglesas e as escolas. Os peregrinos não subsistiram muito tempo com esta presença inoportuna e, ao fim de cinco anos, o grupo peregrino compunha-se apenas dos anciões da cidade e alguns comerciantes honestos. Mas a divisão começou, por mais estranho e estúpido que pareça, com discussões que eram mais ou menos assim : «Ei George, queres ir para o lado sul da cidade. ‘Tá mais quente.» «Nã’, prefiro ficar aqui. No lado norte, ‘tá sempre mais fresco». Depois começavam a discutir violentamente e, no final, estavam os dois no chão, ensanguentados, a dispararem um para o outro. As discussões repetiram-se, mas a gota de água que fez transbordar o copo foi quando Dirty McGirt, um bandido famoso, e Jack o Lamacento, outro bandido famoso, os dois « patrões » dos dois lados da cidade (Jack a norte e Dirty a sul) desafiaram-se num duelo e ambos aproveitaram a rivalidade dos dois lados para os apoiarem. Construiu-se uma ponte de madeira para o duelo na ribeira para que o duelo não fosse em nenhum dos lados e, no evento, os dois dispararam ao mesmo tempo e ambas as balas acertaram ao mesmo tempo um no outro. Os dois lados da vila irritaram-se e atiraram os dois cadáveres ao rio e começaram a lutar na ponte que, com o excesso de peso, quebrou. Após este acontecimento, voltaram todos para casa ensopados e nunca mais os dois lados se falaram e se deram bem. Pouco tempo depois, a Lei e a Ordem chegaram e, quando tentaram tornar ambos os lados num só município oficial, houve outro combate ainda mais violento, onde até a Cavalaria teve de intervir. Após esta cena, a decisão era clara : haveria dois municípios. Foi assim que nasceram South City e North City. Continuando a nossa história, os dois lados não se deram bem até ao dia onde os Pés Roxos, uma tribo de índios que se encontrava bastante próxima das duas cidades, declararam guerra aos brancos e planearam atacar os municípios! Após saberem desta notícia, os habitantes decidiram esperar pela Cavalaria, que chegava sempre a horas, mas já se começava a ver os Pés Roxos a aproximarem-se e o pânico aumentou: a Cavalaria, pela primeira vez, não ia chegar a horas! Então, os dois presidentes da câmara decidiram, por muito difícil que tenha sido, falarem um ao outro e disseram aos habitantes para pegarem nas armas e irem combater juntos os índios. Apesar de muitos «não», não tiveram outro remédio e no combate foram tão unidos que massacraram os índios vinte minutos antes da Cavalaria, atrasada, chegar! Ficaram tão contentes e orgulhosos com esse acontecimento que secaram o rio e, na estrada onde se bifurcava em dois caminhos e onde se encontravam duas placas, estava agora apenas uma a dizer: Large City, a cidade mais unida do Oeste!

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Meter o nariz onde não se é chamado...



«De acordo com dados do gabinete de estatísticas europeu, em 2013, 25,3% da população da União Europeia entre os 15 e os 64 anos tinha completado estudos superiores, enquanto a percentagem portuguesa era de 17,6% e a alemã de 25,1%

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Pequenas-grandes alegrias...

Nos anos 2001-2004, uma equipa do Laboratório Nuclear de Sacavém obteve um conjunto de resultados inovadores no domínio da Física de Neutrões (Neutron Self-Shielding –Towards Universal Curves): http://edmartinho.wordpress.com/.
Para assinalar o 10.º aniversário da conclusão desse trabalho, nada melhor do que ver confirmada a sua validade e utilidade através de citações diversas (cerca de oito dezenas). Desta vez, trata-se de um documento recente do Culham Centre for Fusion Energy (UK Atomic Energy Authority, Culham Science Centre):


Jean-Christophe C. Sublet, James W. Eastwood and J. Guy Morgan
The FISPACT-II User Manual
CCFE-R(11)11 Issue 6 (June 2014)
Cf. A.4.4 Self-shielding of resonant channels, using the universal curve model, 
páginas 147 a 149.

Eduardo Martinho, José F. Salgado e Isabel F. Gonçalves (2006)

Trabalhos citados:
[21] E. Martinho, I.F. Gonçalves, J. Salgado: Universal curve of epithermal neutron resonance self-shielding factors in foils, wires and spheres. Applied Radiation and Isotopes 58 (3) (2003) 371-375
[22] E. Martinho, J. Salgado, I.F. Gonçalves: Universal curve of thermal neutron self-shielding factors in foils, wires, spheres and cylinders. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry 261 (3) (2004) 637-643
[23] J. Salgado, E. Martinho, I.F. Gonçalves: The calculation of neutron self-shielding factors of a group of isolated resonances. Journal of Radioanalytical and Nuclear Chemistry 260 (2) (2004) 317-320

sábado, 25 de outubro de 2014

Gente de má-fé

«Não aceitem o engodo, não acreditem neles, querem enganar-vos e, depois de se reformarem, cortam-vos o que vos prometerem no passado para vos empurrar para a reforma. Como fizeram com os trabalhadores do Metro. Eles são gente de má-fé.»

 José Pacheco Pereira, Público, 25.Outubro.2014

domingo, 19 de outubro de 2014

A Ciência na educação pré-escolar

 

Dia 21 de Outubro, às 17h30, no Instituto Camões, o ensino das Ciências nos jardins de infância estará em debate, com base na apresentação pública de um novo estudo da Fundação. A Ciência existe na educação pré-escolar, dos 3 aos 5 anos, em Portugal? Quais são os conhecimentos, atitudes e competências valorizados na promoção da desejável literacia científica de crianças antes da idade escolar? Serão as nossas salas dos jardins de infância “amigas das ciências”? Apresentam-se os resultados de um estudo nacional em que se identificam as características de uma “sala amiga das ciências” e mostram-se boas práticas de promoção da literacia científica, apresentadas na forma de relatos de práticas. 

* * *
Projectos da Educadora de Infância HELENA MARTINHO 
(Jardim de Infância do Vimeiro) incluídos no livro:
Projeto «Viagem ao mundo da luz» – no âmbito do Concurso Ciência na Escola da Fundação Ilídio Pinho 6 meses a realizar experiências de Física sobre os fenómenos: reflexão, refração da luz e sombra, entrecruzando esse lado experimental com atividades de educação artística. Registo sistemático do percurso do projeto, em desenho, texto, fotos, vídeo. Elaboração de exposição final com todo o material criado/explorado.
Projeto de Biologia – Descobrindo os pequenos animais nossos vizinhos Projeto em parceria com uma mãe formada em biologia e um pai Professor de Ciências. Incluindo: saídas de campo; Observação durante as saídas com lupas e coposlupa; recolha, observação e registo de insetos e aracnídeos, com utilização de lupa binocular; desenho das observações realizadas; sessão informativa com os referidos pais para destrinçar os conceitos e aprender terminologia a específica dos seres vivos observados.

sábado, 18 de outubro de 2014

A frase do dia

«Lamento, mas não acredito em nada do 
que estes senhores [governantes] dizem.»

José Pacheco Pereira, Público, 18.Out.2014


sábado, 4 de outubro de 2014

Era uma vez uma intenção

Meu artigo publicado ontem em O MIRANTE online

“O Mirante” tem tido uma actividade editorial relevante em vários domínios, mas a sua acção tem sido surpreendente no campo científico. De facto, não é vulgar uma editora regional publicar títulos como: Energia Nuclear – Mitos e Realidades (2000); A Energia Nuclear em Portugal, Uma Esquina da História (2002); O Reactor Nuclear Português, Fonte de Conhecimento (2005); Memórias para a História de um Laboratório do Estado (2013) (o laboratório do Estado aqui referido implicitamente é o chamado Laboratório Nuclear de Sacavém).
Há mais quem reconheça o papel de “O Mirante” na área editorial. O físico Carlos Fiolhais, professor catedrático da Universidade de Coimbra e porventura o mais brilhante divulgador de ciência português da actualidade, escreveu a seguinte apreciação no seu blogue De Rerum Natura (blogue com mais de 4 milhões de visualizações): «“O Miranteé um semanário regional de Santarém cujo interesse por temas de ciência e tecnologia apraz registar.» E referiu-se ao livro “ENERGIA NUCLEAR – Mitos e Realidades”, de que sou co-autor com Jaime Oliveira, como sendo uma «obra pedagógica […] que se recomenda vivamente como introdução às questões do nuclear. Particularmente recomendável é o prefácio desse grande divulgador de ciência que é António Manuel Baptista. Ele insurge-se, e com razão, contra a actual fobia antinuclear
O desconhecimento em relação a certas matérias torna as pessoas vulneráveis e gera medos. É o que acontece frequentemente com o “nuclear”. Eis a opinião de um leitor do blogue De Rerum Natura (Julho.2007) em comentário ao post de Carlos Fiolhais “O Reactor Nuclear Português”: «Embora eu tenha pessoalmente uma opinião desfavorável relativamente à instalação de uma central nuclear em Portugal, concordo que não devem existir tabus na sua discussão. A grande razão para isso terá a ver com a ignorância científica sobre o assunto que perpassa na sociedade. O facto de, provavelmente, mais de 90% da população portuguesa ignorar a existência do reactor experimental de Sacavém demonstra-o cabalmente.»
A situação generalizada de “ignorância científica” fez-nos pensar, a mim e ao proprietário deste Jornal, que poderia fazer sentido utilizar um espaço no website de O MIRANTE onde questões desta índole pudessem ser abordadas, em particular tirando partido do livro “Energia Nuclear – Mitos e Realidades”.
Contrariamente ao que se possa supor, a iliteracia científica não se verifica apenas entre pessoas mais comuns, por vezes ”ataca” gente bem conhecida do grande público. Foi o que aconteceu com o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, quando há dias trouxe inopinadamente para a conversa… “uma TAC”. [Diga-se que a TAC (Tomografia Axial Computadorizada) é um meio de diagnóstico para visualização interna do corpo em que são utilizados raios-X, tal como na radiografia, só que envolve uma tecnologia mais sofisticada.] Ora, comentando os recentes pedidos de desculpa do ministro da Educação e da ministra da Justiça, o popular “professor Marcelo” disse isto: «Eles entendem que, pedindo desculpa, cumpriram a sua missão. Mas isto tem um preço. É um bocadinho como a TAC: quando uma pessoa faz uma TAC, a TAC fica no corpo, aquela radiação fica lá e não se cura...». O menos que se pode dizer desta afirmação é que é errónea.
Claro que se percebe que se tratava de uma analogia, mas há limites para certas comparações, sobretudo quando são feitas perante largas centenas de milhares de telespectadores, muitos deles necessitados eventualmente de fazer uma TAC… Pelo menos a estas pessoas, é preciso dizer o seguinte: (1) a TAC não fica no corpo (que coisa bizarra esta de dizer que "a TAC fica no corpo"!!!); (2) os raios-X não ficam “lá”: entram, atravessam o corpo e são detectados, caso contrário nem seria produzida qualquer imagem! E nem vale a pena referir o não se cura… Como dizia Carlos Fiolhais num email que me enviou a propósito deste episódio, “quando os nossos comunicadores não sabem ciência, espalham pseudociência...”
Voltemos ao que interessa. Numa próxima oportunidade iniciaremos a nossa “viagem” por temas científicos. Procuraremos utilizar uma linguagem simples, mas sem perda de rigor. Assim o deus Éolo nos enfune as velas na boa direcção…

sexta-feira, 3 de outubro de 2014