quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Formação pessoal em França

Depois de ter iniciado a actividade no LFEN (Laboratório de Física e Engenharia Nucleares, Sacavém) e participado na calibração inicial do Reactor Português de Investigação (Outubro.1961 a Setembro.1962), fui enviado para Paris em Outubro de 1962 para aprofundar a formação em Física de Reactores no CEA (Commissariat à l’Énergie Atomique), beneficiando de uma bolsa de estudo do governo francês. O objectivo consistia em frequentar o curso de Génie Atomique ministrado no INSTN (Institut National des Sciences et Techniques Nucléaires) situado no CEN-Saclay (Centre d’Études Nucléaires de Saclay).

O curso compreendeu: (1) parte escolar (5 meses) de formação geral, seguida de formação especializada entre cinco opções possíveis (neutronique, thermique, contrôle, métallurgie, protection); (2) estágio de 1 mês num dos departamentos do CEA; e (3) elaboração de um projecto de reactor (3 meses) proposto pela direcção do curso.

Da equipa de projecto faziam parte Martinho e Rouvillois – neutronique; Arvet-Touvet e Desbordes – thermique; Saby – contrôle; Gatel – métallurgie. Foi-nos atribuído o projecto n.º 6 intitulado Réacteur de propulsion navale de 20000 CV à eau pressurisée en circulation naturelle et à circuit primaire intégré, com as devidas orientações específicas. O curso foi concluído em Julho de 1963 com a defesa colectiva do projecto perante uma dezena de jurados designados para o efeito. O relatório final do projecto compreendia um resumo geral do estudo efectuado, e quatro tomos correspondentes às especialidades envolvidas, uma das quais era a neutrónica [1].


Como referido acima, do Curso fazia parte um estágio de 1 mês num dos departamentos do CEA. A escolha recaiu no Département des Études de Piles – Service des Expériences Neutroniques (CEN de Fontenay-aux-Roses:) devido ao facto deste serviço explorar Minerve, um reactor de investigação do tipo piscina semelhante ao RPI, embora com especificidades de experimentação muito próprias. O estágio realizou-se em Março de 1963 e foi orientado pelo chefe da equipa Minerve, René Vidal, tendo consistido basicamente na familiarização com as características e potencialidades típicas do reactor e na colaboração em trabalhos de investigação que se encontravam em curso. [Nota: No final, René Vidal manifestou interesse em que prosseguisse o estágio em Minerve, uma vez terminado o curso de Génie Atomique. Concluído o curso e obtida a necessária autorização junto do director-geral do LFEN, em Setembro de 1963 foi retomado o estágio que duraria até Março de 1965, primeiro com uma nova bolsa do governo francês (6 meses) e depois como Collaborateur Temporaire Étranger equiparado a engenheiro CEA (12 meses).]


Núcleo actual do reactor Minerve (CEN-Cadarache)

Uma das actividades mais relevantes realizadas em Minerve consistia no estudo de elementos de combustível irradiado noutros reactores nucleares, utilizando para isso diferentes espectros de neutrões, concretamente com uma componente epitérmica mais ou menos importante em relação à componente térmica. Daqui decorria a necessidade de estudar o espectro de neutrões em cada uma das configurações utilizadas nas experiências. Um estudo efectuado em três configurações distintas de Minerve permitiu concluir que a caracterização dos espectros de neutrões pelo método de oscilação conduzia a resultados mais precisos do que recorrendo à técnica de activação de detectores [2].

Uma outra actividade desenvolvida no Service des Expériences Neutroniques consistia na deter­minação de parâmetros nucleares como secções eficazes e integrais de ressonância. Em geral, na determinação destas grandezas recorre-se à técnica de activação, com e sem cobertura de cádmio, por ser a menos exigente em meios de experimentação. Em contrapartida, a perturbação do campo de neutrões originada pelo cádmio e a incerteza na energia de corte deste filtro constituem uma fonte de erro a ter em conta, nomeadamente quando a energia da ressonância principal é baixa e o integral de ressonância é pequeno comparado com a secção eficaz para neutrões térmicos. O método de oscilação utilizado em Minerve permite ultrapassar estas dificuldades porque a captura epitérmica é deduzida da taxa de reacção total subtraindo-lhe a taxa de reacção devida à captura térmica, após calibração do sistema com um material cuja secção eficaz varia como 1/v. Uma vez caracterizado o espectro de neutrões na posição central do núcleo do reactor com amostras de ouro, foram determinados os integrais de ressonância de absorção de manganésio, ferro, cobalto, níquel, cobre, zircónio e molibdénio. Para cada material, as experiências foram realizadas recorrendo a amostras com várias espessuras (fornecidas pelo Bureau Central de Mesures Nucléaires, Geel, Bélgica) de modo a obter curvas da secção eficaz efectiva susceptíveis de serem extrapoladas para a espessura “zero”, a partir de cujo valor era deduzido o integral de ressonância [3].

Nota: Este post constitui um registo para memória futura. 

[1] E. Martinho, X. Rouvillois: Projet nº 6 du Cours de Génie Atomique (Neutronique) - Avant-projet de réacteur de propulsion navale. INSTN, Saclay, France, Juin.1963
[2] E. Martinho, P. Menessier: Mesures de caractéristiques de spectres par la méthode d’oscillation. CEA/CEN - Fontenay aux Roses, France, SEN/MIN-74 (1965)
[3] R. Vidal, E. Martinho: Mesures des intégrales de résonance d'absorption (Mn, Fe, Co, Ni, Cu, Zr, Mo). Rapport CEA-R-2840  (1965)

Cf. Sítios da net para eventual consulta:

Em Fontenay-aux-Roses conheci ZOÉ, o 1.º reactor nuclear francês
La pile Zoé (Z comme zéro, O comme oxyde d'uranium et E comme eau lourde) est la première pile atomique française. La réalisation de ce réacteur nucléaire fut lancée en 1947 par Frédéric Joliot-Curie, alors directeur du CEA. Installée au centre d'études de Fontenay-aux-Roses, dans le fort de Châtillon, elle fonctionna pour la première fois le 15 décembre 1948 et vit, en 1953, sa puissance portée à 150 kW. Elle fut arrêtée en mars 1976.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Acordo Ortográfico é mais do que um “aleijão”


1. No blogue Tantas Páginas, perguntaram a Paulo Franchetti (crítico literário, escritor e professor universitário brasileiro) o que achava do Acordo Ortográfico. Início da resposta: O acordo ortográfico é um aleijão. Linguisticamente malfeito, politicamente mal pensado, socialmente mal justificado e finalmente mal implementado.

2. A propósito, vale a pena  ler AQUI o editorial do Jornal de Angola  intitulado Património em risco. Termina assim: O português falado em Angola tem características específicas e varia de província para província. Tem uma beleza única e uma riqueza inestimável para os angolanos mas também para todos os falantes. Tal como o português que é falado no Alentejo, em Salvador da Baía ou em Inhambane tem características únicas. Todos devemos preservar essas diferenças e dá-las a conhecer no espaço da CPLP. A escrita é “contaminada” pela linguagem coloquial, mas as regras gramaticais, não. Se o étimo latino impõe uma grafia, não é aceitável que através de um qualquer acordo ela seja simplesmente ignorada. Nada o justifica. Se queremos que o português seja uma língua de trabalho na ONU, devemos, antes do mais, respeitar a sua matriz e não pô-la a reboque do difícil comércio das palavras.

3. Há quem julgue, e bem, que a questão levantada pelo Acordo Ortográfico está muito para além da grafia, das consoantes mudas, do “comércio das palavras”... É uma questão política. E a pergunta é: Com que legitimidade se outorga o poder político o direito de interferir na evolução de uma língua?!

Foto via Google: viasdefact.blogspot.com

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Gato num apartamento vazio

Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há-de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.

Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.

Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.

Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.

Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direcção a ele
como que contrariado,
devagarinho,
com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios. Pelo menos no princípio.

Wislawa Szymborska
(Tradução de Manuel António Pina)


Poema publicado no jornal PÚBLICO - Suplemento P2, 11.Fev.2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Voltar à aldeia


Os habitantes de uma aldeia conhecem-se pelo rosto mas também pelas costas, pelo jeito de andar, pelo timbre da voz e, muitas vezes, até pela roupa. Hoje, como ontem, nas aldeias do interior as pessoas cumprimentam-se com o olhar, breves resmungos e caras sem vergonha. Mas daí a pouco, na taberna, no café ou na mercearia, já se riem e trocam afectos, e falam dos filhos e dos problemas caseiros como falariam com os mais íntimos da família.
 Na aldeia as pessoas abraçam-se no meio da rua para se cumprimentarem em situações especiais de lamento pela perda de um familiar; numa situação de doença; pela alegria de alguém que anunciou uma gravidez; que vai casar; que conseguiu o emprego da sua vida ou a casa dos seus sonhos.
Não tenho facebook, nem vou ter, porque gosto de ser do contra e tenho horror a modas e exposição demasiada. Para mim a melhor rede social é sair à rua e usar esta cara de pau que Deus me deu mas também este sorriso e esta alegria que é viver a duzentos à hora sem paragens nem interrupções.
Numa destas manhãs frias e ventosas, em que o sol aquece como uma lareira as ruas pouco movimentadas da minha terra, encontrei a dona Lourdes e dei-lhe um abraço que ela logo entendeu como os pêsames pela morte recente do marido.
Ficamos ali, primeiro no meio da rua, depois na esquina, dez ou quinze minutos a falar de outros tempos e das mil recordações que povoam a nossa memória.
E, como no fim tudo são borras, a dona Lourdes contou coisas que parecem mentira e, no entanto, passaram há tão pouco tempo, e algumas delas foram de tal modo vividas e sofridas que até se estranha como se esquecem tão depressa.
O meu marido chegou a percorrer de bicicleta 60 km todos os dias para ir e vir do trabalho; não podia chegar cinco minutos atrasado porque isso seria motivo de vergonha perante o patrão e razão para despedimento; às vezes não tinha luz na bicicleta e fazia o caminho sempre de noite, tudo isto durante mais de três anos, ou 30 anos, se contarmos outros caminhos e fizermos a conta a outras distâncias percorridas depois das habituais 10 horas de trabalho.
O Manuel “Travessa” era o pintor que há mais de trinta anos disputava com o Joaquim Pimpão o lugar de melhor profissional da Chamusca; e foi ele, com o Jorge “Faca”, que há três décadas pintou a minha casa nova comprada quando não havia dinheiro nem fiadores. Morreu recentemente. Pelo que me lembro dele deve ter morrido a trabalhar já que era o que mais sabia fazer. A dona Lourdes diz que ele morreu em grande sofrimento mas é claro que, para mim, ele morreu como eu ainda me lembro dele: em cima da escada a dizer-me que a minha casa ia ficar um mimo, e que eu era um tipo com sorte por ter uma casa no meio da vila que mais parecia a moradia de um homem abastado, enquanto, de verdade, eu não passava de um jovem e pobre rapaz filho do Eugénio Emídio.

Joaquim António Emídio
Jornal O MIRANTE, 10.Fev.2012 


Período de semi-desintegração do ouro-198

Devido às suas propriedades físicas e nucleares, o ouro (ouro natural = 100% de ouro-197) é talvez o elemento de referência a que mais se recorre em vários domínios envolvendo a detecção de neutrões pela técnica de activação (por exemplo, determinação de fluxos e espectros neutrónicos, determi­nação de parâmetros nucleares, análise por activação pelo método do factor k0). Daqui resulta o interesse de conhecer com rigor certos parâmetros nucleares referentes ao ouro-198, que resulta da absorção de neutrões pelo ouro-197.
Paralelamente aos estudos de metrologia de radiações conduzidos no Reactor Português de Investigação desde o início da década de 60, procedeu-se à determinação do período de semidesintegração do ouro-198 numa experiência realizada em condições muito cuidadas. [O período de semi-desintegração é o intervalo de tempo ao fim do qual a actividade de uma fonte radioactiva simples (contendo um único radionuclido) diminui para metade, em consequência de desintegrações nucleares.] Cf. http://energianuclear-bases.blogspot.com/2011/11/energia-nuclear-glossario.html
O resultado a que se chegou foi publicado em 1970 [1]. Quarenta anos depois, o valor obtido conti­nua a ser mencionado na literatura [2-6] e a intervir no cálculo de médias ponderadas de referência. Regista-se aqui este facto para memória futura.

*  *  *

1. Maria Micaela Costa Paiva & Eduardo Martinho: Half-life of  198Au. International Journal of Applied Radiation and Isotopes 21 (1970) 40

2. J.R. Goodwin, V.V. Golovko, V.E. Iacob & J.C. Hardy: The half-life of 198Au: High-precision measurement shows no temperature dependence. European Physics Journal A 34 (2007) 271-274

3. Update of X-Ray and Gamma-Ray Decay Data Standards for Detector Calibration and Other Applications. Volume 2: Data Selection, Assessment and Evaluation Procedures. STI/PUB/1287, International Atomic Energy Agency, Vienna, 2007 (page 108)

4. G. Ruprecht, C. Vockenhuber et al.: Precise measurement of the beta-decay and electron capture of  22Na, 198Au, and 196Au in low-temperature metal hosts, and re-examination of lifetime modifications. Physical Revue C 77, Issue 6 (2008)

5. Huang Xiaolong: Nuclear Data Sheets for A = 198. Nuclear Data Sheets, Volume 110, Issue 10 (October 2009) 2533-2688

6. Jun Chen, Scott D. Geraedts, Christian Ouellet & Balraj Singh: Evaluation of half-life of 198Au. Applied Radiation and Isotopes 69 (2011) 1064–1069

Adenda (Junho.2013):
John Randall Goodwin: Can environmental factors affect half-life in beta-decay? An analysis. PhD Thesis, Texas A&M University, USA, December 2012 (full text here)


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O meu Bairro – Tabacaria da Portugália

Um dia, depois de almoço, desafiei o meu neto João Guilherme para me acompanhar numa volta em que eu me propunha comprar cigarrilhas. Fizemos a Rua Ponta Delgada em direcção ao Largo da Estefânia onde há um quiosque de jornais que costuma ter as cigarrilhas que eu procurava. Negativo. Descemos a Rua Pascoal de Melo, procurei num outro quiosque. Não tenho, mas na tabacaria da Portugália talvez encontre.
E foi assim, por acaso, que conheci a D. Maria do Céu. Metida num pequeno espaço encravado no átrio da cervejaria, arranjou maneira de fazer uma conversinha com o cliente que acabara de conhecer. Nasceu numa pequena aldeia próximo da Guarda, veio aos treze anos para Lisboa, conheceu o marido, que era chefe da secção de mariscos, e por cá ficou. Agora vou lá comprar as cigarrilhas Pérolas e por vezes tenho “direito” a um pequeno bónus, sinal de simpatia da D. Maria do Céu.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O meu Bairro – TETRALUZ, equipamento eléctrico

Todos nós precisamos, de vez em quando, de resolver pequenos problemas caseiros: substituir uma lâmpada que chegou ao fim ou substituir lâmpadas incandescentes por lâmpadas de baixo consumo ou adquirir uma extensão para facilitar o acesso a uma tomada eléctrica. Noutras situações, menos triviais, temos necessidade dos serviços de um electricista competente para fazer uma instalação segura para o computador e seus periféricos, e precisamos da indicação de alguém que efectue esse trabalho. Mais recentemente (01 de Fevereiro), tivemos de superar o problema decorrente do “apagão” do sinal analógico da televisão.


Pois bem, sempre que temos um problema desta natureza para resolver, a primeira porta a que batemos é no N.º 20 da Rua Carlos José Barreiros, a cerca de duzentos metros de nossa casa. O Senhor Jorge, homem (aparentemente) circunspecto mas prestável, lá está para encontrar uma solução. E geralmente encontra-a. Vantagens, uma vez mais, do comércio local, com tratamento personalizado.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Viajar


Vou pelas letras
bem devagarinho
até que as palavras
surgem no caminho.
E as palavras juntas
são como viagens...

Adeus! Adeus!
Vou voando nelas
para outras paragens.


Poema de Teresa Martinho Marques (http://sabordepalavra.blogspot.com)
in Das Palavras, Edições Eterogémeas (
http://www.eterogemeas.com
)
ilustrado por Paulo Miguel Pinheiro Martinho (
http://pintapalavras.blogspot.com)

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Buracos

Numa das muitas esperas desesperantes em filas compactas de um tráfego sem solução, dei comigo a pensar o que poderia acontecer se se perguntasse a várias pessoas o que lhes sugeria a expressão “Que bu­raco!”.
As respostas poderiam ser como segue:

O invisual: Caí num há dias.
O condutor de táxi: Lá se foi um pneu pró galheiro.
O prudente, bem-falante: Depende do contexto.
O pessimista: Tudo.
A mãe de família: Parece que andam às dentadas às meias.
O consciencioso, envolvido num desfalque: Hei-de tapá-lo.
O sapateiro: Quanto maior, melhor.
O reitor da Universidade: Como é que vamos pagar o subsídio de Natal aos professores?
O humorista: Esta não teve piada.
O pegador de touros: No que eu me meti.
O munícipe: Com estes vereadores, não vamos longe.
O alfarrabista: Malditas traças.
O ecologista: Ozono.
O astrofísico: Negro.
O jovem fogoso: Não me fale nisso.
O militante da Oposição: 200 milhões de contos.
O ministro das Finanças: Orçamento rectificativo.
O poeta popular: Rima com Cavaco.

Compreende-se a diversidade de “opiniões”. Cada um tende a tratar a informação de acordo com a sua perspectiva. No fundo, eu só estava irritado com o trânsito!

Texto publicado no jornal O MIRANTE, 30.Novembro.1991

sábado, 28 de janeiro de 2012

Ciclos do Sol no Brasil


RIO DE JANEIRO





NORDESTE BRASILEIRO






Fernando Ornelas Marques

O geólogo (e meu genro) F.O.Marques, qual vaqueiro do nordeste brasileiro, é o segundo a partir da esquerda.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O meu Bairro – Florista "O Sonho de Arroios"

Não é todos os dias que se compram flores, mas quando se quer assinalar um aniversário ou o regresso a casa de um amigo após internamento hospitalar, precisamos de confiar em quem no-las vende, não vão elas começar a dar sinais de murcho antes ou logo depois de terem sido oferecidas.
É aqui que se vê a vantagem recíproca de quem vende qualidade. Na Rua Alves Torgo temos a sorte de existir a Florista O Sonho de Arroios, que corresponde sempre às nossas expectativas. A simpática Isabel gere a casa (com o seu irmão) há 22 anos, tantos quantos passou em França quando era menina e moça. Por alguma razão, mesmo no tempo de crise que se vive actualmente, o negócio se mantém. Que assim continue…


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O meu Bairro – O quiosque de jornais (do Serafim)

Quando saía de casa para o trabalho, a minha primeira paragem era no quiosque dos jornais. Foi assim ao longo de muitos anos. Fui aprendendo a conhecer o Serafim e a merecer-lhe estima, que eu sinceramente retribuía. Homem de bom trato e muito bem-disposto, tinha sempre um dito jocoso a propósito de tudo e de nada: dava remoques sobre os resultados do futebol, comentava o dia-a-dia político, contava a sua anedota… Fazia-nos sorrir, o Serafim. E ajudava-nos a começar bem a jornada.

Um dia, inesperadamente, veio a revelação de que o Serafim tinha problemas pessoais, problemas que escondia e que não conseguiu ultrapassar. E desistiu da vida! Foi um choque no Bairro. Ainda hoje sinto o pesar da sua partida.

Passados vários anos, o quiosque dos jornais (situado na confluência das ruas António Pedro e Alves Torgo, junto à Rua António Pereira Carrilho) voltou a funcionar. Desejo a melhor sorte a quem veio preencher o vazio deixado pelo Serafim.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Elemento

Bruno tinha quatro anos quando começou, decididamente, a escolher livros técnicos e enciclopédias na hora de ir dormir. Aos cinco, em vez de brinquedos, pedia aos familiares e conhecidos que lhe dessem “máquinas para desmontar”. Sobre coloridas mantas, desmontava pequenos electrodomésticos e criava novas ligações entre os componentes inventando máquinas voadoras, naves, submarinos… brincando assim horas a fio. Hoje, com 19 anos, aluno de Tecnologias e Sistemas de Informação, para ter a possibilidade de produzir um anti-vírus que lhe tinha sido “encomendado” por um professor, resolveu levar por diante um projecto de construção de um computador pessoal com características que não se encontram vulgarmente no mercado. Uma vez definidos os parâmetros do computador, foi necessário identificar os respectivos componentes electrónicos, seleccionar a empresa fornecedora (inglesa) e fazer a encomenda (através da internet). Recepcionados os componentes, seguiu-se a montagem do conjunto, a realização de testes e, finalmente, pôr a máquina a funcionar, o que conseguiu com sucesso.



Serve esta breve história para situar o conceito de “Elemento” descrito no recente livro de Ken Robinson, conceituado especialista em Educação Artística. Define ele o dito conceito como a circunstância “onde se reúnem as coisas que adoramos fazer e as coisas em que somos bons”. Paixão e aptidão reunidas potenciam a realização e satisfação pessoal, condição para a boa evolução das comunidades e instituições. Refere que todos nascemos com capacidades extraordinárias e que é essencial alimentar o talento individual e “criar ambientes – nas nossas escolas, nos nossos locais de trabalho… – onde cada um se sinta inspirado a crescer criativamente”.


As ideias veiculadas por Robinson encontram uma fundamentação clara na teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner, psicólogo cognitivo e educacional norte-americano, ligado à Universidade de Harvard. Este identificou há já mais de 25 anos, as inteligências linguística, lógico-matemática, espacial, musical, cinestésica, interpessoal e intrapessoal (associando-se estas últimas no conceito de inteligência emocional) e, mais recentemente, as inteligências naturalista e existencialista.
Obviamente o conceito de criatividade, que tantas vezes erradamente associamos apenas aos domínios artísticos, está na realidade ligada a qualquer das inteligências acima referidas.
Gardner postula que essas competências intelectuais são relativamente independentes, têm a sua origem e limites genéticos próprios e dispõem de processos cognitivos específicos. Segundo ele, os seres humanos dispõem de graus variados de cada uma das inteligências e maneiras diferentes de as  combinar e organizar para resolver problemas e criar produtos. Gardner ressalta que, embora estas inteligências sejam, até certo ponto, independentes uma das outras, elas raramente funcionam isoladamente. Embora algumas ocupações ponham em relevo uma inteligência, na maioria dos casos ilustram a necessidade de uma combinação de inteligências. Gardner concluia que a educação deveria contemplar de forma equilibrada as diversas inteligências para que todas as crianças pudessem desenvolver as suas capacidades individuais.
A sua teoria sustenta que as inteligências não são objectos que possam ser quantificados, mas sim potenciais que poderão ser ou não activados, dependendo dos valores de uma cultura específica, das oportunidades disponíveis nessa cultura e das decisões pessoais tomadas por indivíduos e/ou suas famílias, seus professores e outros.
É fácil concluir que um bom sistema de ensino deve oferecer diversidade (com qualidade) e que cabe aos educadores/professores identificar precocemente as inteligências específicas de cada aluno, de forma  a trabalhar a sua educação de acordo com as suas necessidades e capacidades.
Ken Robinson refere a importância da qualidade do professor e o papel que este deveria ter como “mentor” da criatividade pessoal (reconhecendo, encorajando, facilitando e exigindo dos seus educandos o máximo naquilo em que são bons). Ironicamente Ken Robinson aponta a Escola como uma das principais causas da perda e estrangulamento da criatividade individual.
Tece duras críticas aos sistemas de ensino público de quase todos os países por serem redutores ao centralizarem os currículos nos domínios formais da matemática, línguas e ciências, colocando na hierarquia, em segundo plano, os estudos humanísticos e em terceiro as artes, sendo que neste domínio se dá maior relevo às artes visuais e à música e sendo característica geral a desvalorização do teatro e da dança.

Referindo-se ao insucesso, ao desinteresse, à falta de inspiração e imaginação dos jovens, refere sem hesitação: “O nosso actual sistema educativo seca-lhes sistematicamente a criatividade”. E acusa ainda: “Existe uma falha básica no modo como alguns governantes interpretam a ideia de regresso ao essencial, que visa melhorar a qualidade da educação (…), parecem considerar que ao alimentarem as nossas crianças com um menu nacional composto de leitura, escrita e aritmética, as tornarão mais competitivas e mais preparadas para o futuro.” Segundo ele, esta opção exclui à partida e destrói a vontade de aprender de uma grande percentagem de jovens.

No livro “O Elemento” nomeia, entre outros, como bom exemplo de prática educativa, a Experiência de Pré-Escolar de Reggio Emilia e é uma boa surpresa encontrar nesta obra a poesia do pedagogo Loris Malaguzzi sobre as 100 linguagens da criança.


Ken Robinson defende ainda que a Educação de que precisamos no séc. XXI não passa por uniformizar mas por personalizar; não passa por promover o pensamento de grupo mas por “cultivar a verdadeira profundidade de qualquer tipo de capacidade humana”.

Para concluir estas reflexões, não resisto a utilizar ainda uma passagem do livro “O Elemento”, que Ken Robinson  refere ser da autoria de Miguel Ângelo: «O maior risco não é que as nossas aspirações sejam demasiado altas e não as consigamos concretizar, mas que sejam demasiado baixas e as alcancemos


Helena Martinho

Texto publicado nos Cadernos de Educação de Infância – N.º 94, Setembro-Dezembro.2011

Referência bibliográfica:
Ken Robinson e Lou Aronica, O Elemento, Porto Editora, 2011

Uma opinião sensata sobre o "nuclear"

Humberto Rosa, ex-secretário de Estado do Ambiente, acaba de assumir a liderança de um dos directorados da Comissão Europeia para as alterações climáticas. Numa passagem da entrevista dada ontem ao jornal PÚBLICO, emitiu a seguinte opinião:
Pergunta – No menu de soluções para o baixo carbono, há lugar para o nuclear?
Resposta – É um facto que há. Os países do mundo desenvolvido que dependem muito do nuclear não podem, mesmo que queiram, desembaraçar-se de repente dele. Portanto, eu vejo a energia nuclear como uma energia de transição. Tanto mais que ela própria não é sustentável, depende de um combustível que não é eterno. Agora, o que Fukushima nos veio mostrar é que a segurança tem de figurar muito alto na agenda de quem pensa nesta opção ou a mantém.