domingo, 15 de janeiro de 2012

ENERGIA NUCLEAR – BASES, o blogue avança

Energia Nuclear - GLOSSÁRIO
Constituição do átomo
Exemplos de elementos e nuclidos naturais
Carta de nuclidos
Radioactividade e radiações
Alcance das radiações ionizantes
Cisão nuclear
Centrais termoeléctricas
Constituição e funcionamento de uma central nuclear
Barreiras de segurança
Escala INES – International Nuclear Events Scale
Como se faz funcionar um reactor nuclear
Efeitos ambientais de centrais nucleares
Resíduos radioactivos

O dislate da revisão da lei do tabaco

Estudo aponta para a proibição de fumar à porta
de cafés, bares e restaurantes

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Um Fundamentalismo Tão Deprimente
… quanto mais empurrar os fumadores para uma espécie de guetos.

Como não fumador de sempre, acho este tipo de proibicionismo absolutamente disparatado. É verdade que me desagrada comer fumo, mas daí a querer proibir as pessoas de fumarem em todo e qualquer lugar é um rematado disparate. Sendo o alcoolismo um histórico flagelo social em Portugal para quando a proibição de beber à refeição em locais públicos?
E já agora, será permitido fumar, nesse país distópico maravilhoso, à porta de hospitais e escolas?
Paulo Guinote


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(…) O legislador português é como as crianças hiperactivas: não sabe estar parado. E multiplica os disparates.
Um dos dislates anunciados passa pela revisão da lei do tabaco. Eu, que nunca fumei na vida, nunca fui a favor do proibicionismo ou de qualquer controlo excessivo do que as pessoas fazem com a sua saúde. Muitas das normas da lei em vigor até já me pareciam excessivas, mas parece que os fundamentalistas do costume se preparam para as declarar insuficientes. Querem proibir de vez fumar em restaurantes ou cafés, o que é um insulto a todos os proprietários que investiram milhares e milhares de euros para adaptar os seus espaços às regras da lei de 2007. Pior: querem também proibir que se fume à porta desses estabelecimentos, pequeno passo para o desiderato mais geral de proibir que se fume nas ruas e nos jardins (não é ficção, já é lei em algumas cidades norte-americanas). Não há de facto nada pior do que os polícias da saúde alheia. (…)

José Manuel Fernandes
PÚBLICO, 13.Jan.2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O meu Bairro -- Distécnica (material informático)

A Distécnica [http://www.distecnica.pt] é um estabelecimento situado na Avenida Duque d’Ávila, em frente da Rua Alves Redol. À entrada, no vidro da montra, anunciam o que vendem – mobiliário de escritório, computadores e consumíveis. Lá dentro, conversando, percebe-se que se pode adquirir (quase) tudo o que seja equipamento da área de informática.


O Manuel explora a loja desde 1992. Com ele trabalha o Pedro, seu cunhado. Comércio local, negócio familiar… eis o que me convém. Tornei-me cliente da casa desde o princípio, há quase vinte anos, porque sou dado a simpatias e fidelidades, e aprecio o tratamento personalizado e a competência profissional. Na Distécnica encontro tudo isso.


Dir-me-ão: Nas grandes superfícies tens mais escolha e preços mais interessantes.
Talvez, mas não é a mesma coisa… 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O meu Bairro -- Restaurante Nova Arcádia

À medida que o tempo passa, o trabalho de confeccionar refeições e de lavar a louça vai-se tornando cada vez menos interessante para a Piedade, se é que alguma vez o foi… Outrora íamos comer fora raramente, mas, de há uns tempos para cá, o que era raro passou a tornar-se um hábito. Umas quatro vezes por semana almoçamos num restaurante do nosso Bairro.


Na Rua Pereira Carrilho há restaurantes para muitos gostos e preços, mas há um onde nos sentimos particularmente bem: é no restaurante Nova Arcádia, do bem-disposto Sr. João e sua esposa D. Lourdes (servido pelos simpáticos Sr. Henrique e Sr. Bruno, empregados “5 estrelas” como diz o primeiro quando quer pôr em relevo a excelência dos pratos do dia).


A casa serve comida tradicional portuguesa, com bons grelhados de peixe e carne, um excelente cozido à portuguesa, um arroz malandrinho de polvo, e outras iguarias. É certamente por boas razões que reencontramos no Nova Arcádia pessoas com quem já nos cruzámos antes, algumas das quais em mesas reservadas com carácter permanente. Quando as pessoas voltam assim, a aposta está ganha.  

Restaurante Nova Arcádia
Rua António Pereira Carrilho, 23B (Arroios) Lisboa

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O meu Bairro -- Minimercado Pérola dos Açores

Na Rua Ponta Delgada, a uma escassa centena de metros de nossa casa, está localizado o minimercado Pérola dos Açores. É lá que fazemos as nossas compras do dia-a-dia, porque não gostamos de frequentar as grandes superfícies. Quando começámos a morar em Lisboa, há quase 40 anos, o proprietário da Pérola dos Açores era o Senhor Manuel, um homem sereno e prestável.


Agora o minimercado é explorado pelo Hélder e pela Mina, sua esposa, desde há muitos anos. Casal extremamente simpático, o Hélder e a Mina conseguiram naturalmente criar um ambiente amigo de proximidade e boa vizinhança que atrai os clientes. É este acolhimento personalizado, marcado por uma grande disponibilidade, que faz a diferença e a beleza do comércio local. Aí se encontram e conversam muitos vizinhos. Além de conversarem, às vezes “confessam-se”… e a ajuda não falta!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Na Rota da Terra Branca - CHAMUSCA

O Centro Regional de Artesanato anima-se. A Câmara Municipal da Chamusca oferece um “Abafado de Honra” aos participantes na apresentação de um Livro de co-autoria de um Chamusquense. E depois da energia nuclear, radioactividade e histórias de cientistas que trabalharam a dobrar para saborear metade do conteúdo de garrafas de vinhos afamados, à procura do trítio, e de outros que descobriram que o vinho estava falsificado por ser pouco radioactivo, a conversa acerejou-se divergindo ao sabor do acaso, para, no final, se ajeitar uma Caminhada à Chamusca.


A Chamusca espraia-se ao longo da Estrada Nacional 118. É uma das últimas vilas ribatejanas, da borda-de-água, que mantém as características urbanísticas da região e que ainda não sofreu a pressão demolidora de um forte movimento demográfico. Porém, é notório, mesmo ao visitante mais descuidado, que tem havido um trabalho constante de melhoramento das condições de vida, acompanhado de preservação da identidade cultural. É uma vila limpa.


A vila nasceu ao longo da estrada. Na rua principal situavam-se os prédios dos moradores mais abastados; mais para o interior, acotovelavam-se as gentes das classes médias, relegando para os outeiros que cercavam a vila, as casas mais modestas do povo humilde. E quem pense que a morte iguala os homens, visite o cemitério da vila, onde encontrará reposta a mesma ordem social em tudo semelhante à terra dos vivos. Ali, na rua principal, os mausoléus dos poderosos, enquadrados pelas campas rasas, com direito a lápide perpetuadora de um nome que não quer ser esquecido; ao fundo, o chão liso, sepultura incógnita, à espera da vala comum.


Num prédio contíguo aos Paços do Concelho viveu, em meados do séc. XIX, o político Setembrista, Passos Manuel, dedicando-se à agricultura em propriedades, que, entretanto, havia adquirido. Também, por essas alturas, permaneceu algum tempo exilado na Chamusca o Infante Carlos de Bourbon, pretendente carlista e absolutista ao trono espanhol.

O relógio batia as 9H30, hora marcada para o encontro no Largo 25 de Abril. O dia estava convidativo para a prospecção. Éramos muitos, pois o pessoal do ITN também quer efectuar esta caminhada: o João Carranca, o José Salgado, o António Falcão, o Rui Silva, o Eduardo Martinho, a Márcia Vilarigues do ITN e o João Calado, genro do segundo nomeado.

Atravessada a Rua Direita (estrada nacional), cortou-se a 1.ª à direita e a primeira paragem é em frente do Poiso do Besouro e vem, à memória de alguns mais felizardos, o belo almoço, num outro sábado: petinga frita, moleja (sarrabulho), bacalhau assado com couves a soco… Se um dia por aqui passarem, numa visita sem tempo marcado, aconselho a prova.


Paredes-meias, encontra-se um antigo Lagar, inactivo e agora recuperado pela Câmara Municipal como um Centro de Arqueologia Industrial. Ainda aqui voltaremos mais tarde. Chegamos agora ao Largo da Srª das Dores. Em nossa frente a Igreja de Nª Srª da Piedade e das Sete Dores! Seguindo pela Rua Eng. José Belard da Fonseca atingimos o Dique que protege a vila e os campos ribeirinhos das enchentes do Tejo. Daqui, a vila, qual presépio, empina-se pelos montes fronteiriços.


Barcos no Porto das Mulheres
Vamos até à beira de água, ao Porto das Mulheres, nome que abre a imaginação do viajante às mais diversas suposições. Em tempos idos, morada de avieiros e barcos de água-a-cima que sulcavam o rio de Lisboa até Abrantes. Levavam carvão, cortiça, vinho e outros produtos regionais; traziam o sal e outros mantimentos.


"Olhem que a estrada deve estar ainda cortada! Foi muita água!"
Aqui encontramos o Sr. Joaquim, sorridente e colaborante: “Olhem que a estrada deve estar ainda cortada! Foi muita a água!” E os campos estão alagados. Atravessa-se um pomar de laranjeiras. É um desolo, as laranjas apodrecidas, rebentam sob os nossos pés.

Entra-se outra vez na vila pela Rua José Luciano de Castro, Travessa da Batoca, direito ao Largo da Misericórdia, onde se ergue a Igreja da Misericórdia, templo do séc. XVII.

Igreja Matriz + Largo da Igreja da Misericórdia + Convento de S. Francisco
A próxima paragem é no Convento de S. Francisco, construído em meados do séc. XVIII e desafectado do culto católico a seguir à implantação da República, é hoje um centro de congressos e onde se assistirá a uma apresentação do Concelho.


Ermida de Nossa Senhora do Pranto

Sobe-se depois até à Ermida de Nª Srª do Pranto. Construção de traços simples, caiada de branco, com listas azuis e recheada de azulejos do séc. XVIII. À esquerda do altar, um painel representa a circuncisão do Menino Jesus e a mãe, ajoelhada, lança uma lágrima furtiva, condoída do sofrimento que a origem judaica impõe ao seu filho, mal sonhando o martírio para que ele estava fadado. À direita, outro quadro mostra o jovem Jesus, sentado num trono erguido entre os doutores, mais resplandecente que todos eles. Mas se o interior é interessante, o largo fronteiriço abre-se sobre a vila a nossos pés e prolonga-se sobre a vastidão da lezíria, correndo ao fundo o Tejo. Lá está a Golegã, depois o Entroncamento, mais ao fundo Torres Novas e, há quem diga que em dias claros se avista Abrantes.


Miradouro do Pranto de onde se avista toda a vila

É um bom mirante subir ao depósito da água - obra de 1938 do chamado Estado Novo, que quis perpetuar na legenda tamanha façanha, para que os vindouros pudessem reconhecer a visão de progresso que animava os governantes de então; as vistas são ainda mais largas, abarcando de um lado a lezíria e do outro a charneca ribatejana. No cimo de um monte surge a Ermida do Senhor do Bonfim. Lá chegaremos, com a sua ajuda.


Da Ermida da Senhora do Pranto, repicaram os sinos avisando o povo assustado, refugiado na Igreja da Misericórdia, do Milagre que o Senhor fez num dia chuvoso do Outono de 1807. A história conta-se em poucas palavras. Para espalharem no nosso país o ideal de igualdade, liberdade e fraternidade que o povo francês tinha lançado aos ventos em 1789, o exército de Napoleão invadiu Portugal. Ei-lo, do outro lado do rio, na vizinha Golegã onde praticou as maiores atrocidades. Concentrados nos Outeiros do Pranto e de S. Pedro, os Chamusquenses, aterrados, observavam os acontecimentos, angustiados com o seu futuro próximo: Seguiriam os franceses pela margem direita, na sua caminhada triunfal até Lisboa, abandonada à sua sorte pela Corte, que foi buscar no longínquo Brasil a chegada de melhores dias? Ou atravessariam o rio para saquear mais uma pequena vila indefesa? Abandonados pelo poder dos homens, só lhes restava rogar ao Senhor Deus da Misericórdia! Mas eis que, alegremente, se ouve o sino da Ermida da Nª Srª do Pranto. É que o Tejo, seguramente por intervenção divina, se enchera repentinamente, com uma corrente forte e caudalosa, arrastando consigo as barcas dos soldados. Chamusca estava salva!

Atinge-se o fim da vila, termina a estrada alcatroada e segue-se por um estradão ladeado de tojos e eucaliptos. E é pena, pois a paisagem que se disfruta merecia muito mais, mas, infelizmente, apesar de existir um aterro sanitário no concelho, não falta o lixo abandonado ao longo de todo o percurso. O caminho é fácil, com uma inclinação ligeira. Embrenhamo-nos pela charneca, com terrenos arenosos onde o eucalipto está a roubar espaço ao sobreiro. Já perto da Outeiro da Cabeça Alta, o terreno enruga-se, e numa centena de metros é preciso trepar cerca de quarenta. Mas vale a pena o sacrifício, pois é deslumbrante a paisagem que nos aguarda lá em cima.

Depois do almoço, descemos em direcção à ribeira de Arraiolos e acompanhamos de perto o seu cantar, rolando os seixos do leito. Atravessa-se a ponte construída em 1894, que substituiu uma antiga ponte romana. Por perto existe uma Cova da Moura. Foi certamente uma princesa moura, encantada pelo pai extremoso, emir da região, para a livrar de um saque eminente de um exército cristão pouco cristão e que, no fundo da cova, espera o beijo libertador do seu amado príncipe, que tarda a chegar. Talvez, no princípio, nas noites de verão de lua cheia, acompanhando o sussurro da brisa nocturna, a moura cantasse e chorasse a sua triste sina.

Ponte na zona da Cova da Moura

A ribeira estreita-se, e é altura de saltar para a outra margem e começar a subir para o Senhor do Bonfim. É uma ermida modesta, um pouco degradada. Do seu miradouro, a vista estende-se novamente por sobre a lezíria. No seu interior alguns ex-votos. Foi um local de devoção das mães que viram partir para África os seus filhos durante a guerra colonial. Aqui os vinham encomendar à sua protecção. Apetece descansar um pouco.

 A etapa seguinte é o Parque Municipal, onde se pode visitar uma casa rural tradicional, reconstituição de uma casa camponesa dos anos 30.

Vista do Parque Municipal
Estamos outra vez no Largo 25 de Abril. No outro lado da Estrada Nacional está sediado o Centro Regional de Artesanato, onde se destacam as cerâmicas, os trabalhos em madeira, o restauro de móveis antigos, a cestaria, a tecelagem, os bordados, os ferros forjados, a latoaria, os brinquedos que nos encantavam quando éramos crianças e oficinas onde artesãos mostram o seu trabalho.

A caminhada termina com uma visita a um antigo lagar de azeite, hoje um museu de arqueologia industrial.

Para combater a moda dos McDonald's aqui vai uma receita típica.

José Francisco Salgado


Bacalhau assado com couve a soco
Ingredientes: Bacalhau, couve, batata, pão, alho e azeite.
 Corta-se a couve a soco [Separam-se as couves e dá-se um soco nos talos. Apertam-se as folhas de couve em molho com a mão esquerda - como quem vai cortar caldo verde. Puxam-se as folhas, com um esticão, partindo-as e repete-se a operação até ao fim das folhas.] e coze-se com a batata. No fim da cozedura, coloca-se o pão e escorre-se a água. Se necessário, junta-se mais pão de modo que o preparado fique mais seco. Mexe-se, abre-se um buraco no meio do preparado e coloca-se o azeite e o alho. Deixa-se cozer o azeite, volta-se a mexer e acompanha-se com bacalhau assado.
In: Sabores, A gastronomia no Concelho da Chamusca, Novo Observador, 1999.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Desenhos/presentes natalícios

São dos meus três netos mais novos (Hugo, 9 anos; João, 7 anos; e Inês, 7 anos)
os desenhos que se seguem.

Hugo Martinho Chaves

Inês Martinho Chaves

João Guilherme Martinho Quintas

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

“Retrato de grupo com o país ao fundo”

«Um acidente de automóvel numa estrada qualquer. Um despiste, o carro caído na valeta. A televisão mostra o carro acidentado, o carro da polícia, a ambulância, a curva da estrada, os bombeiros, entrevista o polícia, o bombeiro, o condutor que ia a passar, a senhora que ouviu o barulho, o homem que viu uma pessoa a sair do carro, a câmara mostra vidros no chão, a casca arrancada da árvore, a vedação destruída, a mancha de sangue se houver. O repórter faz o directo indirecto: “Foi aqui que, há precisamente seis horas…” Foi pena não ter sido preciso desencarcerar ninguém, porque se a equipa de reportagem tivesse chegado seis horas antes e tivesse filmado o desencarceramento isso é que era televisão, mas pronto. Mudança de plano para o parque de estacionamento do hospital onde uma médica fala, grave, do acidentado grave, “estável mas com prognóstico muito reservado”. Por acaso não foi preciso helitransportar ninguém porque isso é que era televisão, mas o INEM está preparado para helitransportar. Cinco ou seis minutos de informações inúteis mas dramáticas.

Mas aconteceram outras coisas no mundo: no Algarve, um bando não identificado assaltou durante a noite uma máquina de tabaco, no interior de um estabelecimento comercial. A câmara mostra a vitrine, os ferros torcidos, vidros partidos no chão, entrevista a empregada da loja, a polícia, torna a mostrar as mesmas imagens da vitrine, dos ferros torcidos. Há imagens captadas pelas câmaras de vigilância, a preto e branco, que mostram homens encapuzados aos saltinhos na filmagem sincopada.

Mas não, ainda não é tudo. Há ainda uma máquina Multibanco assaltada com recurso a uma escavadora. Numa demonstração de grande perícia os assaltantes conseguiram extrair o cofre com um dano mínimo no cubículo que o albergava. A câmara mostra a marca deixada pelos dentes da retroescavadora na parede do edifício. Podemos ver em detalhe cada marca de cada dente na parede e ainda temos tempo para chamar a família. “Ó Guida, vem cá ver o que eles agora fazem com uma retroescavadora!…” Mas não é tudo, há também uma ourivesaria assaltada. A câmara mostra a vitrine partida, uns ferros torcidos, entrevista a dona da loja, o polícia, a senhora que viu, o homem que ouviu, outro que não deu por nada, outro que não viu mas foi por pouco porque se tivesse passado uns minutos antes ou depois, outro que comenta estes assaltos que há agora, outro que diz que não há polícia que chegue, outro que diz que não há suficientes câmaras de videovigilância, porque se houvesse uma câmara a espreitar pelo rabo de cada cidadão em tempo real poderiam evitar-se todos os crimes e fazer a despistagem do cancro do cólon ao mesmo tempo.

Mas não é tudo. Finalmente uma notícia, sobre uma coisa que interessa a todos: os aumentos em 2012, os aumentos da electricidade, da saúde, dos impostos, dos restaurantes, dos transportes, de tudo. A notícia fala dos aumentos e entrevista “populares”. Há reacções resignadas, sarcásticas e discordantes. Não há ninguém indignado, nem sequer contestatário e muito menos agressivo. A sociedade portuguesa está resignada. Porque é que são os aumentos? Bom, a peça não diz mas percebe-se que é porque tem de ser. Há quem não concorda, mas são aqueles que são sempre do contra. Noutro programa, numa mesa-redonda, o moderador olha com indisfarçado ar de nojo para um sindicalista a quem pergunta com enfado: “Mas não há nestas medidas anunciadas pelo Governo nenhuma com que concorde?” O subtexto é claro: se concordasse com metade das medidas e discordasse da outra metade, ainda vá lá! Mas assim… só pode ser porque é um ressabiado de maus fígados.

Mas há boas notícias! Nem tudo é mau. Uns voluntários distribuem sopa e bolo-rei a sem-abrigo durante a noite. Pessoas abnegadas e bondosas, que prescindem do conforto do lar para ajudar o próximo. A apresentadora do noticiário exulta, de sorriso rasgado, está feliz, é Natal! É Natal! A voluntária entrevistada pela repórter que acompanhou os voluntários exulta por esta experiência de solidariedade que teve oportunidade de viver. Que bom que é haver pobrezinhos que nos dão oportunidade de sermos solidários. Que bom que é ver a sociedade civil a ocupar o lugar que o Estado não pode ocupar. “O Estado não tem vocação para gerir instituições de solidariedade social”, diz o bem-aventurado ministro Pedro Mota Soares, com a boa consciência a transbordar fatias de bolo-rei. Os sem-abrigo aceitam a sopa, o bolo-rei, quase nenhum aceita ser filmado, só do pescoço para baixo. É natural. Têm vergonha. São os únicos que não são voluntários.

Passei uma boa parte da vida a dizer que as manipulações da informação a que assistimos na imprensa – e, com maioria de razão, na televisão – eram na sua maioria acidentais, fruto de incompetências, desleixos. Seria demasiado complicado orquestrar tudo isso.

Mas, seja qual for a razão, será que os jornalistas da televisão se dão conta do retrato que fazem do país? Um país resignado, onde o único discurso pertence ao Governo, onde não há opções políticas, reais discordâncias, debates em pé de igualdade, alternativas, revolta, indignidades, hipocrisias? Onde há apenas assaltos para justificar o medo, acidentes para emocionar, pobres para justificar a caridade e governantes tão generosos que dão sete euros por mês aos mais pobres e que nos explicam que não sobra dinheiro para o SNS depois de pagar o juro das dívidas que meteram nos bolsos dos seus amigos?»

José Vítor Malheiros
PÚBLICO, 3.Jan.2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

In memoriam Maria Helena Pires de Matos

«Primeira intérprete portuguesa a reunir distinções internacionais, na área da música clássica, como o Choque Musique e o Diapason d`Or, Maria Helena Pires de Matos [1938-2011] tinha no canto gregoriano a missão de uma vida, tanto ao nível da investigação, como da divulgação, tendo fundado o Coro Gregoriano de Lisboa, em 1989, com alunos, antigos alunos e professores do Instituto Gregoriano e da Escola Superior de Música de Lisboa.

Licenciada em Engenharia Química pelo Instituto Superior Técnico, com o curso superior de piano do Conservatório Nacional, que terminou em 1963, foi professora coordenadora da Escola Superior de Música de Lisboa, onde presidiu o conselho científico e assumiu a responsabilidade da cadeira de Canto Gregoriano até ao final de 2008.

Foi ainda membro da Comissão Instaladora do Instituto Gregoriano de Lisboa, entre 1978 e 2000, tendo ainda leccionado a disciplina de Canto Gregoriano da Licenciatura em Música na Escola de Artes da Universidade Católica do Porto de 2000 a 2003.

Ao nível da investigação destaca-se, em particular, o trabalho em paleografia musical e história da liturgia.

A morte de Maria Helena Pires de Matos [10.Dezembro] coincide com a edição do último disco do Coro Gregoriano de Lisboa, por si dirigido, "Os Apóstolos", que integra obras recolhidas pela própria musicóloga, em códices dos séculos XI a XIII.

Sob a direcção de Maria Helena Pires de Matos, o Coro Gregoriano de Lisboa foi distinguido pelo álbum "Liturgia de Santo António" (1993), com o Prémio "Choc" do Le Monde de la Musique, e por "Missa pela Paz" (1997), com um Diapasão de Ouro (Diapason d`Or), tendo as suas edições em disco, que incluem ainda "Missa pela Chuva" e "Liturgias de santos europeus do primeiro milénio", integrado escolhas discográficas de referência dos guias Penguin e Gramophone.»


Maria Helena Pires de Matos era esposa de António Pires de Matos, meu amigo e colega de muitos anos no Laboratório Nuclear de Sacavém.
Para ti, António, aqui fica o meu testemunho de profunda solidariedade e um fraternal abraço.