O Centro Regional de Artesanato anima-se. A Câmara Municipal da Chamusca oferece um “Abafado de Honra” aos participantes na apresentação de um Livro de co-autoria de um Chamusquense. E depois da energia nuclear, radioactividade e histórias de cientistas que trabalharam a dobrar para saborear metade do conteúdo de garrafas de vinhos afamados, à procura do trítio, e de outros que descobriram que o vinho estava falsificado por ser pouco radioactivo, a conversa acerejou-se divergindo ao sabor do acaso, para, no final, se ajeitar uma Caminhada à Chamusca.
A Chamusca espraia-se ao longo da Estrada Nacional 118. É uma das últimas vilas ribatejanas, da borda-de-água, que mantém as características urbanísticas da região e que ainda não sofreu a pressão demolidora de um forte movimento demográfico. Porém, é notório, mesmo ao visitante mais descuidado, que tem havido um trabalho constante de melhoramento das condições de vida, acompanhado de preservação da identidade cultural. É uma vila limpa.

A vila nasceu ao longo da estrada. Na rua principal situavam-se os prédios dos moradores mais abastados; mais para o interior, acotovelavam-se as gentes das classes médias, relegando para os outeiros que cercavam a vila, as casas mais modestas do povo humilde. E quem pense que a morte iguala os homens, visite o cemitério da vila, onde encontrará reposta a mesma ordem social em tudo semelhante à terra dos vivos. Ali, na rua principal, os mausoléus dos poderosos, enquadrados pelas campas rasas, com direito a lápide perpetuadora de um nome que não quer ser esquecido; ao fundo, o chão liso, sepultura incógnita, à espera da vala comum.
Num prédio contíguo aos Paços do Concelho viveu, em meados do séc. XIX, o político Setembrista, Passos Manuel, dedicando-se à agricultura em propriedades, que, entretanto, havia adquirido. Também, por essas alturas, permaneceu algum tempo exilado na Chamusca o Infante Carlos de Bourbon, pretendente carlista e absolutista ao trono espanhol.
O relógio batia as 9H30, hora marcada para o encontro no Largo 25 de Abril. O dia estava convidativo para a prospecção. Éramos muitos, pois o pessoal do ITN também quer efectuar esta caminhada: o João Carranca, o José Salgado, o António Falcão, o Rui Silva, o Eduardo Martinho, a Márcia Vilarigues do ITN e o João Calado, genro do segundo nomeado.
Atravessada a Rua Direita (estrada nacional), cortou-se a 1.ª à direita e a primeira paragem é em frente do Poiso do Besouro e vem, à memória de alguns mais felizardos, o belo almoço, num outro sábado: petinga frita, moleja (sarrabulho), bacalhau assado com couves a soco… Se um dia por aqui passarem, numa visita sem tempo marcado, aconselho a prova.
Paredes-meias, encontra-se um antigo Lagar, inactivo e agora recuperado pela Câmara Municipal como um Centro de Arqueologia Industrial. Ainda aqui voltaremos mais tarde. Chegamos agora ao Largo da Srª das Dores. Em nossa frente a Igreja de Nª Srª da Piedade e das Sete Dores! Seguindo pela Rua Eng. José Belard da Fonseca atingimos o Dique que protege a vila e os campos ribeirinhos das enchentes do Tejo. Daqui, a vila, qual presépio, empina-se pelos montes fronteiriços.
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| Barcos no Porto das Mulheres |
Vamos até à beira de água, ao Porto das Mulheres, nome que abre a imaginação do viajante às mais diversas suposições. Em tempos idos, morada de avieiros e barcos de água-a-cima que sulcavam o rio de Lisboa até Abrantes. Levavam carvão, cortiça, vinho e outros produtos regionais; traziam o sal e outros mantimentos.
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| "Olhem que a estrada deve estar ainda cortada! Foi muita água!" |
Aqui encontramos o Sr. Joaquim, sorridente e colaborante: “Olhem que a estrada deve estar ainda cortada! Foi muita a água!” E os campos estão alagados. Atravessa-se um pomar de laranjeiras. É um desolo, as laranjas apodrecidas, rebentam sob os nossos pés.
Entra-se outra vez na vila pela Rua José Luciano de Castro, Travessa da Batoca, direito ao Largo da Misericórdia, onde se ergue a Igreja da Misericórdia, templo do séc. XVII.
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| Igreja Matriz + Largo da Igreja da Misericórdia + Convento de S. Francisco |
A próxima paragem é no Convento de S. Francisco, construído em meados do séc. XVIII e desafectado do culto católico a seguir à implantação da República, é hoje um centro de congressos e onde se assistirá a uma apresentação do Concelho.
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| Ermida de Nossa Senhora do Pranto |
Sobe-se depois até à Ermida de Nª Srª do Pranto. Construção de traços simples, caiada de branco, com listas azuis e recheada de azulejos do séc. XVIII. À esquerda do altar, um painel representa a circuncisão do Menino Jesus e a mãe, ajoelhada, lança uma lágrima furtiva, condoída do sofrimento que a origem judaica impõe ao seu filho, mal sonhando o martírio para que ele estava fadado. À direita, outro quadro mostra o jovem Jesus, sentado num trono erguido entre os doutores, mais resplandecente que todos eles. Mas se o interior é interessante, o largo fronteiriço abre-se sobre a vila a nossos pés e prolonga-se sobre a vastidão da lezíria, correndo ao fundo o Tejo. Lá está a Golegã, depois o Entroncamento, mais ao fundo Torres Novas e, há quem diga que em dias claros se avista Abrantes.
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| Miradouro do Pranto de onde se avista toda a vila |
É um bom mirante subir ao depósito da água - obra de 1938 do chamado Estado Novo, que quis perpetuar na legenda tamanha façanha, para que os vindouros pudessem reconhecer a visão de progresso que animava os governantes de então; as vistas são ainda mais largas, abarcando de um lado a lezíria e do outro a charneca ribatejana. No cimo de um monte surge a Ermida do Senhor do Bonfim. Lá chegaremos, com a sua ajuda.
Da Ermida da Senhora do Pranto, repicaram os sinos avisando o povo assustado, refugiado na Igreja da Misericórdia, do Milagre que o Senhor fez num dia chuvoso do Outono de 1807. A história conta-se em poucas palavras. Para espalharem no nosso país o ideal de igualdade, liberdade e fraternidade que o povo francês tinha lançado aos ventos em 1789, o exército de Napoleão invadiu Portugal. Ei-lo, do outro lado do rio, na vizinha Golegã onde praticou as maiores atrocidades. Concentrados nos Outeiros do Pranto e de S. Pedro, os Chamusquenses, aterrados, observavam os acontecimentos, angustiados com o seu futuro próximo: Seguiriam os franceses pela margem direita, na sua caminhada triunfal até Lisboa, abandonada à sua sorte pela Corte, que foi buscar no longínquo Brasil a chegada de melhores dias? Ou atravessariam o rio para saquear mais uma pequena vila indefesa? Abandonados pelo poder dos homens, só lhes restava rogar ao Senhor Deus da Misericórdia! Mas eis que, alegremente, se ouve o sino da Ermida da Nª Srª do Pranto. É que o Tejo, seguramente por intervenção divina, se enchera repentinamente, com uma corrente forte e caudalosa, arrastando consigo as barcas dos soldados. Chamusca estava salva!
Atinge-se o fim da vila, termina a estrada alcatroada e segue-se por um estradão ladeado de tojos e eucaliptos. E é pena, pois a paisagem que se disfruta merecia muito mais, mas, infelizmente, apesar de existir um aterro sanitário no concelho, não falta o lixo abandonado ao longo de todo o percurso. O caminho é fácil, com uma inclinação ligeira. Embrenhamo-nos pela charneca, com terrenos arenosos onde o eucalipto está a roubar espaço ao sobreiro. Já perto da Outeiro da Cabeça Alta, o terreno enruga-se, e numa centena de metros é preciso trepar cerca de quarenta. Mas vale a pena o sacrifício, pois é deslumbrante a paisagem que nos aguarda lá em cima.
Depois do almoço, descemos em direcção à ribeira de Arraiolos e acompanhamos de perto o seu cantar, rolando os seixos do leito. Atravessa-se a ponte construída em 1894, que substituiu uma antiga ponte romana. Por perto existe uma Cova da Moura. Foi certamente uma princesa moura, encantada pelo pai extremoso, emir da região, para a livrar de um saque eminente de um exército cristão pouco cristão e que, no fundo da cova, espera o beijo libertador do seu amado príncipe, que tarda a chegar. Talvez, no princípio, nas noites de verão de lua cheia, acompanhando o sussurro da brisa nocturna, a moura cantasse e chorasse a sua triste sina.
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| Ponte na zona da Cova da Moura |
A ribeira estreita-se, e é altura de saltar para a outra margem e começar a subir para o Senhor do Bonfim. É uma ermida modesta, um pouco degradada. Do seu miradouro, a vista estende-se novamente por sobre a lezíria. No seu interior alguns ex-votos. Foi um local de devoção das mães que viram partir para África os seus filhos durante a guerra colonial. Aqui os vinham encomendar à sua protecção. Apetece descansar um pouco.
A etapa seguinte é o Parque Municipal, onde se pode visitar uma casa rural tradicional, reconstituição de uma casa camponesa dos anos 30.
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| Vista do Parque Municipal |
Estamos outra vez no Largo 25 de Abril. No outro lado da Estrada Nacional está sediado o Centro Regional de Artesanato, onde se destacam as cerâmicas, os trabalhos em madeira, o restauro de móveis antigos, a cestaria, a tecelagem, os bordados, os ferros forjados, a latoaria, os brinquedos que nos encantavam quando éramos crianças e oficinas onde artesãos mostram o seu trabalho.
A caminhada termina com uma visita a um antigo lagar de azeite, hoje um museu de arqueologia industrial.
Para combater a moda dos McDonald's aqui vai uma receita típica.
José Francisco Salgado
Bacalhau assado com couve a soco
Ingredientes: Bacalhau, couve, batata, pão, alho e azeite.
Corta-se a couve a soco [Separam-se as couves e dá-se um soco nos talos. Apertam-se as folhas de couve em molho com a mão esquerda - como quem vai cortar caldo verde. Puxam-se as folhas, com um esticão, partindo-as e repete-se a operação até ao fim das folhas.] e coze-se com a batata. No fim da cozedura, coloca-se o pão e escorre-se a água. Se necessário, junta-se mais pão de modo que o preparado fique mais seco. Mexe-se, abre-se um buraco no meio do preparado e coloca-se o azeite e o alho. Deixa-se cozer o azeite, volta-se a mexer e acompanha-se com bacalhau assado.
In: Sabores, A gastronomia no Concelho da Chamusca, Novo Observador, 1999.