sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

José Cid, meu conterrâneo

José Cid, nome artístico de José Albano Salter Cid de Ferreira Tavares, nascido na Chamusca em 4 de Fevereiro de 1942, é um [muito conhecido] músico português.
Terceiro filho de Francisco Albano Coutinho Ferreira Tavares e de Fernanda Salter Cid Freire Gameiro, mudou-se com os pais para Mogofores, perto de Anadia, aos onze anos.
Iniciou a sua carreira musical em 1956, com a fundação de “Os Babies”, agrupamento musical que se dedicava à interpretação de covers. Em 1960 criou em Coimbra o Conjunto Orfeão, com José Niza [meu distinto colega de estudo em Santarém, recentemente falecido], Proença de Carvalho e Rui Ressurreição. (...) Cf. http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Cid.

José Cid é um conterrâneo meu, que muito aprecio por razões diversas. Acontece que na minha meninice convivi com José Cid, porque brinquei muito em casa de seus pais e sou afilhado de baptismo da sua irmã mais velha, Maria de São João (por isso mesmo me chamo Eduardo João).
Esta introdução é uma espécie de declaração de interesses antes do que se segue, que é uma carta que dirigi ao jornal O MIRANTE em Junho de 2009.

Site de José Cid: http://www.josecid.com

 José Cid (Lisboa - Campo Pequeno, 2009)  +  José Cid entre mim e a Celeste (1944)

Uma rua da Chamusca com o nome José Cid
A Câmara Municipal da Chamusca homenageou recentemente, e bem, três distintos chamusquenses [um dos quais vivo] com o descerramento de placas toponímicas em ruas da vila.
Tendo presente esta efeméride, afigura-se-me oportuno e justo referir aqui o nome de José Cid, que ama a sua terra e lhe tem dado uma visibilidade ímpar. Recordo que este ilustre chamusquense recebeu em Maio o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Segundo a SPA, o prémio atribuído a José Cid «distingue mais de quatro décadas de intensa e ininterrupta actividade criadora, como compositor-autor, de um dos mais populares nomes de sempre da música portuguesa, triunfador de vários festivais em Portugal e no estrangeiro e autor de alguns dos maiores êxitos musicais das últimas décadas».

Carta publicada no jornal O MIRANTE, 25.Junho.2009

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Estadia em Paris e... a Avenida das Tílias

Depois de ter sido admitido no Laboratório Nuclear de Sacavém em 1961, fui enviado para França em 1962 para completar os estudos em Física e Engenharia de Reactores Nucleares, tendo regressado em 1965. Foi assim que conheci Paris na primeira metade dos anos 60.
Durante esta permanência fui colega de hotel do Prof. Doutor António Marcos Galopim de Carvalho – Galopim para os mais íntimos – que havia sido meu assistente de Geomorfologia na Faculdade de Ciências de Lisboa. Aliás, foi o Galopim que me “puxou” para o Hotel Blanadet (Rue Monge) após uma curta estadia no Hotel Lisbonne (Rue Vaugirard, do lado do boulevard de Saint Michel) – tudo no Quartier Latin ou suas proximidades.

Acontece que, há dias, o Galopim encaminhou um e-mail que recebera com um power-point intitulado “Os Nostálgicos Anos 60” recheado de canções de artistas que então ouvíamos regularmente (Françoise Hardy, Sylvie Vartan, France Gall, Richard Anthony, Bécaud, Adamo e tantos outros).

Dizia o Galopim e a Isabel (sua esposa):
Caros amigos
Recebemos este e-mail e de quem nos lembrámos no imediato? Do casal Eduardo - Piedade!, das inúmeras vezes que estas canções foram entoadas e dos bons momentos que a elas estiveram associados. Bons tempos, de que restam saudades sem fim.
Um abraço bem apertado, esperando que se deliciem tanto quanto nós ao tornar a ouvir o que nunca foi esquecido.
Isabel e Galopim

E aí pensei: É desta vez que vou escrever um post sobre a estadia em Paris!
Mas… pensando melhor: Escrever para quê? O Galopim já o fez tão bem em livro! Basta copiar a “Avenida das Tílias”: está lá quase tudo o que eu poderia dizer para tipificar o ambiente geral em que vivíamos… E foi o que fiz. Apreciem a escrita colorida do Galopim. 


«Avenida das Tílias
Como disse atrás, França ainda era para nós, neste começo dos anos 60, o destino da maioria dos nossos jovens em início de carreira docente e/ou científica, a fim de aí estagiarem com os mais conceituados mestres. Essencialmente francófonos, tínhamos, com as conceituadas instituições francesas, grande proximidade e um relacionamento vindo do último quartel do século XIX. Nas estantes das nossas bibliotecas dominavam os livros escritos em francês. Nem todos os estudiosos liam o inglês com a eficácia desejável, como acontece nos dias de hoje, e eram raros aqueles que se serviam dos livros alemães, não obstante a qualidade das obras escritas nas duas línguas e o prestígio dos respectivos autores e dos laboratórios e universidades nos quais exerciam as suas actividades.

Estagiar em França fora a principal opção dos docentes e investigadores de diversos domínios científicos que me antecederam e, ao chegar a minha vez de alargar os horizontes do conhecimento, foi para França que me mandaram. O boom da investigação científica no pós-guerra, à escala mundial, com relevo para os Estados Unidos da América, e a globalização da língua inglesa, quase puseram fim a esta nossa dependência do saber francófono. Como um dos derradeiros representantes de uma classe de bolseiros na terre des gaulois, ali estava eu num pequeno hotel, na Cidade das Luzes, a cerca de um quarto de hora, a pé, do Museum.

Naquele ano de 1962, fui o primeiro de uma série de portugueses, a cumprirem estágios científicos em Paris, que, por meu intermédio, fixaram residência neste mesmo hotel. Recomendado por um amigo, jornalista de profissão, fui responsável por uma vaga de admissões de colegas, na maioria geólogos. De início instalados num qualquer andar, Mlle. Bruel ia-os encaminhado para o último, à medida que aí vagava um quarto ou um apartamento. Assim, o 6.º andar, por nós baptizado como Avenida das Tílias, passou a ser uma muito unida comunidade lusíada, com um americano encravado e bem aceite no seu seio. Bill McLean, texano, estudante de sociologia, a preparar uma tese de doutoramento sobre os graƒƒittis de Paris, foi um agradável companheiro nesses anos. Sozinho, cozinhava, tratava da sua roupa e do arrumo do seu apartamento que, como diria a minha mãe, era um brinquinho. Muito crítico da sociedade americana e um tanto ingénuo, fora casado com uma alemã de quem se separara porque, como ele próprio afirmava, num certo tom malicioso,
- Elles [as alemãs] ne savent pas ƒaire l’amour.

Este nosso amigo corria os bairros urbanos e suburbanos da cidade, a fotografar escritos, pinturas, desenhos e outros riscos nas paredes e onde quer que os descobrisse. Entrava em tudo o que eram instalações sanitárias de cafés, restaurantes, escolas, universidades e quartéis, em busca de todos os elementos que servissem o seu objectivo. No apartamento convertia todos esses elementos em fichas que sistematizava por temas sociais, políticos, escolares, de caserna, pornográficos, etc. Com o regresso a Portugal perdi-lhe o rasto, mas, anos mais tarde, ao consultar um catálogo de uma livraria francesa, tive a alegria de ver o seu nome como autor de um volumoso estudo – a sua dissertação – sobre os graffittis de Paris.
No período da minha estadia, viviam sete portugueses no último andar do Blanadet, todos com varanda para a rua, e, ainda, o nosso amigo texano, nas traseiras, com uma óptima vista para as arènes de Lutèce. Da comunidade lusa apenas dois casais dispunham de apartamento com sala e mesa suficientemente amplas, para as confraternizações que fazíamos, e uma pequena cozinha. Para serem T1 só lhes faltava a casa de banho privativa, coisa que não havia em nenhum dos andares. Havia, sim, um WC colectivo, no corredor, e uma casa de banho, propriamente dita, com chuveiro, no 3.º andar. Para tomar um duche, o cliente pedia a chave na recepção e pagava a quantia estipulada. Para obviar a esta deficiência muito francesa, os quartos e apartamentos tinham lavatório com água quente e fria e um bidé.

Um desses dois apartamentos mais amplos era nosso. O outro era o dos Martinho. De vez em quando, aos domingos, num ou noutro, reuníamo-nos todos em portuguesíssimos almoços, prolongados e ruidosos, contando e ouvindo episódios do dia-a-dia de cada um de nós, ávidos de falar a própria língua, ao fim de uma semana de francofonia e de restaurante universitário em self-service. Nessa altura, em que o franco francês rondava os seis escudos (o preço de um litro de gasolina), comprava-se no talho um coelho médio por sete a oito francos, com a curiosa particularidade de a metade dianteira, o devant de lapin, quase sempre rejeitado pela clientela mais desafogada, ser vendida aos clientes de menores posses por apenas um franco. O dèrrière, ou seja, os quartos traseiros, bem mais caro, ficava pelos restantes seis ou sete. Com as cabeças, as mãos, os peitos e as fressuras de três ou quatro coelhos comia-se, no dizer de todos, o melhor arroz do dito, um pouco ao jeito do sabor da cabidela perfumada com cominhos.

Galopim, Isabel, Miguel Ramos, Piedade e Martinho

- Este manjar devia ser comido de joelhos, acompanhado de louvores à Natureza e à arte culinária, e sempre regado por um bom tinto du Rhône – afirmava o Miguel Ramos, um saudoso e alegre amigo, prematuramente desaparecido, a chupar à mão, uma a uma, as finas costelinhas do animal.

As nossas confraternizações prolongavam-se tarde fora, de mistura com muita conversa e animação que crescia na razão inversa do nível do líquido nas respectivas bouteilles. Muitas destas conversas visavam histórias decorrentes da nossa condição de irmãos dos imigrantes que enxameavam os bairros mais pobres dos arredores de Paris e ali asseguravam as tarefas profissionais menos qualificadas, que os franceses rejeitavam, à semelhança do que hoje aqui se passa com os milhares de africanos que tão mal tratamos, já esquecidos da experiência dolorosa que tivemos por essa Europa rica.
Uma outra causa de uma certa menorização, de que éramos alvo, residia na nossa condição de naturais de um país sem prestígio internacional, conduzido por um ditadorzinho a que nós, ovelhas submissas, não tínhamos artes de pôr fim. Os ventos da descolonização de África sopravam fortes e Salazar e sua política, de um Portugal uno e indivisível, ao arrepio desses ventos, eram causa de uma antipatia e de uma hostilidade que acabava por se reflectir em nós. Foi este o pano de fundo da nossa vivência parisiense, o que não quer dizer que não tivéssemos, todos nós, tido relações de amizade e de trabalho que apertaram laços para a vida.»

Et c'est tout...

domingo, 4 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Um mergulho inesperado


Quando no Verão nos juntamos na praia de Santa Cruz, os meus netos mais novos (Hugo, João Guilherme e Inês) costumam desafiar-me para ir à pesca com eles na zona das rochas em frente da Meia-Laranja. E aí vamos nós com o camaroeiro e os baldes, na expectativa de apanharmos alguns cabrozes (que depois devolvemos ao mar, diga-se).
Este ano a “coisa” correu menos bem... Ao tentar apanhar um peixe grandinho, com a excitação escorregou-me um pé nos limos e enfiei-me desamparadamente (caindo de costas!) numa poça com 1 metro de profundidade. Lá me levantei como pude, mas sem largar o camaroeiro com o cabroz. Quando o viu, o João entusiasmado gritou para os primos: “Peixe! Peixe!”… enquanto a água que me encharcava a roupa escorria por mim abaixo…
Eis o que justificou a oferta que me foi feita pelo João (com a cumplicidade da Mãe) no dia do meu aniversário: uma T-shirt recordando um mergulho inesperado, com os dizeres: Já fui atleta olímpico… e ainda faço mortal à rectaguarda! (com c e tudo!).

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

76.º Aniversário da morte de Fernando Pessoa



Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis


Ilustração
Paulo Miguel Pinheiro Martinho

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ainda a greve geral

No passado mês de Março [1988], ocorreu um acontecimento significativo no nosso País: pela primeira vez, as duas centrais sindicais — União Geral de Trabalhadores e Confederação Geral de Trabalhadores Portugueses — convocaram uma greve geral para o mesmo dia, em manifestação de dis­cordância em relação à última versão da chamada “lei dos despedimentos” proposta pelo Governo. Dir-se-á que já está tudo dito sobre esta matéria. Talvez, depende do ponto de vista. De qualquer modo, pa­rece adequado deixar registado o facto nesta coluna, para que conste da memória colectiva deste Jornal. Uma forma de registo possível teria por base a recolha de afirmações e de passagens de escritos produ­zi­­dos sobre o acontecimento e suas repercussões. Foi esta a opção seguida.

«O Governo não se senta mais à mesa das negociações»
António Capucho, ministro, 26-03-88

«Foi a maior greve geral da história do movimento operário português»
Carvalho da Silva, coordenador-geral da CGTP, 28-03-88

«Se há greve, eu não a notei. E se a greve é geral, muito menos; tão-pouco parcial. Eu diria, quan­do muito, parcialíssima»
Cavaco Silva, primeiro-ministro, 28-03-88

«A adesão foi superior a 80 por cento, o que envolve mais de 1,7 milhões de trabalhadores»
Torres Couto, secretário-geral da UGT, 29-03-88

«Em relação a 80 por cento do País, a greve passou despercebida»
Cavaco Silva, primeiro-ministro, 29-03-88

«A chamada greve geral não passou de um acontecimento efémero, algo que se esgotou num dia e que, portanto, pertence ao passado»
Fernando Nogueira, porta-voz do Conselho de Ministros, 31-03-88

«Mesmo aqueles que não aderiram à greve geral de segunda-feira passada deverão reconhecer que a greve ultrapassou as expectativas.
Goste-se ou não da UGT e da Intersindical, o facto é que a mensagem das centrais sindicais “passou”: ou seja, muitos trabalhadores convenceram-se de que, caso o pacote laboral venha a ser aprovado, os seus empregos ficarão em risco. (…)»
José António Saraiva, Expresso, 01-04-88

«(…) Não posso corroborar ou infirmar os números divulgados pelos sindicatos. Alguma impren­sa internacional tomou-os por bons, mas a maior parte da que eu li deu-lhes desconto em grau variá­vel. O que eu não encontrei foi um jornal, americano ou europeu, que desse qualquer crédito aos nú­meros do Governo. (…)
(…) Mas o facto de o Governo ter, ele próprio, sucumbido à tentação das ameaças tornou impre­cisas as fronteiras entre as condutas de cada um. E muitos dos que discordaram da greve queriam vê-la vencida por argumentos e meios limpos, e não por corrupções e ameaças. (…)»
Nuno Brederode Santos, Expresso, 16-04-88

«(…) E se os deputados do PSD não quiserem, como é natural que não queiram, remeter-se à in­có­­­­moda função de “caixas de ressonância” do Governo, as consequências desta greve não deixarão de se fazer sentir no formato e na embalagem exterior — mas também no conteúdo — do “pacote laboral” que esteve na origem da acção grevista. (…)»
José Silva Pinto, O Jornal, 31-03-88

«Intransigente, a bancada do PSD inviabilizou as mais de 70 propostas de alteração do pacote laboral do Governo apresentadas pela oposição. A bancada da maioria apenas foi flexível consigo própria, ao introduzir duas alterações e um aditamento ao texto do Executivo. E assim, horas e horas a fio, a oposição viu gorados todos os seus esforços para alterar um vírgula do texto. (…)
Jerónimo Pimentel, Expresso, 16-03-88

«Dizem uns:
— Não tiro nem uma vírgula!
Dizem outros:
— Não cedo nem um milímetro!
(…)
Não tirar nem uma vírgula é o primeiro passo para não tirar nem uma palavra. E, depois, um pe­ríodo. E, depois, um parágrafo. E, depois, uma página. E, por fim, o que quer que seja. Justamente, não tirar nem uma vírgula é não tirar coisa nenhuma.
Tal como não ceder nem um milímetro é o primeiro passo para não ceder nem um centímetro. E, depois, um metro. E, depois, um quilómetro. E, por fim, o que quer que seja. Precisamente, não ceder nem um milímetro é não ceder coisa nenhuma.
Mal vai o regime que se corta em arestas e se talha em abismos. Não é um regime, é uma pedreira.
Mal vai o regime que baliza as fronteiras da sua vontade, da sua acção, da sua afirmação, em vírgulas finais e em milímetros definitivos. Não é um regime, é um medo sitiado.
Ou é um totalitarismo ou não é, sequer formalmente, uma democracia
Artur Portela, Diário de Notícias, 11-04-88.

Texto publicado no jornal O Mirante, n.º 6, Abril.1988

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Crónicas de Além: Miami (USA)


Há por aqui 'cromos' com fartura, que tenho vontade de fotografar, mas há que respeitar a privacidade. Só que eu não resisti a fotografar este parzinho, e partilhar com os leitores. Até o Japonês ficou com os olhos em bico e a boca aberta! Vistos de frente são uma delícia, com uma maquilhagem forte mas interessante, e percebe-se que há um macho e uma fêmea. Não posso partilhar esta visão com vocês porque seria demasiado indiscreto.”

Fernando Ornelas Marques
http://cronicasdealem.blogspot.com/
27.Novembro.2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

105.º Aniversário de Rómulo de Carvalho

Rómulo de Carvalho (1906-1997)

Amostra sem valor

Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.

António Gedeão

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Neutrão, meu improvável Elemento

O neutrão foi descoberto em Inglaterra quatro anos antes de eu nascer. Quando a cisão nuclear foi descoberta na Alemanha, tinha eu pouco mais de dois anos. O primeiro reactor nuclear funcionou nos Estados Unidos da América três anos depois.  


Nessa altura eu vivia no Ribatejo, mais precisamente na Chamusca, nascido de uma família humilde. A minha mãe era empregada em casa dos Tavares e o meu pai trabalhava na padaria do senhor Samouco. Eu acompanhava a minha mãe e brincava o tempo todo. Mais tarde, comecei a aprender as primeiras letras no improvisado pré-escolar que funcionava em casa da D. Gualdina. Essa iniciação permitiu que eu entrasse directamente na 2.ª classe da escola primária, onde tive como mestre o saudoso professor Filipe Baptista. Recordo-me que foi na padaria do senhor Samouco, com o meu Pai ao lado amassando o pão, que consegui ler sozinho as primeiras palavras num velho jornal. Foi uma revelação marcante.

É claro que nesse tempo nunca tinha ouvido falar de neutrões, nem de cisão nuclear ou reactores nucleares. Um dos primeiros temas de conversa de que me lembro era sobre as peripécias relacionadas com a II Guerra Mundial. Em certas noites apagavam-se todas as luzes e protegiam-se as vidraças para prevenir os efeitos de um eventual ataque (do inimigo, presumia eu, sem perceber o significado daqueles cuidados). O racionamento obrigava-nos a adoçar o café com rebuçados ou com mel, e utilizávamos senhas para comprar certos bens alimentares. Para nos aquecermos nas noites frias, quando faltava o carvão, era serradura que púnhamos no fogareiro disposta ao redor de um buraco: era com curiosidade que via a serradura arder lentamente, avivada pelo ar que entrava por baixo. Nessa época de racionamento percebi que quem tinha dinheiro sofria menos com a crise...

Nestas circunstâncias, quem poderia prever que a minha actividade futura seria precisamente em domínios em que o neutrão, a cisão nuclear e os reactores nucleares estão presentes?

Teria eu uns 13 ou 14 anos quando alguém, certamente com razão para estar indisposto comigo, me disse abruptamente e com ar convicto: Tu nunca serás nada na vida! Foi uma afirmação demasiado forte para o miúdo que eu era… Impressionado, fiquei a pensar naquilo durante uns tempos. Mas, como é sabido, a vida é feita de acasos, e, por acaso, aconteceu tudo o que era necessário acontecer para que aquela “profecia” não se concretizasse [cf.aqui].

Aconteceu até que o Reactor Português de Investigação, instalado no Laboratório Nuclear de Sacavém [cf.aqui], funcionou pela primeira vez em Abril de 1961, precisamente o ano em que concluí a licenciatura na Faculdade de Ciências de Lisboa. Convidado para o efeito, foi aí que logo iniciei a minha carreira profissional, a qual só terminaria mais de 40 anos depois.

Toda a vida trabalhei com neutrões, mas nunca vi nenhum… Isso não impediu que “sonhasse” com eles ao longo do tempo em diversas situações. Houve experiências desafiantes, noites mal dormidas cogitando soluções, resultados frustrantes mas, felizmente, ideias estimulantes e realizações gratificantes. A finalizar a carreira, tive até a sorte de participar numa descoberta relevante no âmbito da Física das Radiações de Reactores Nucleares [cf.aqui], descoberta que tem feito um interessante caminho a nível internacional [cf.aqui].

Não tenho motivos de queixa da “vida”, bem pelo contrário. Contra tudo o que era previsível na minha infância, acabei por encontrar no neutrão o meu improvável Elemento – na acepção de Ken Robinson [cf.aqui].

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Números redondos...

2011, ano com datas assinaláveis a nível pessoal:
50.º Aniversário do meu casamento
50.º Aniversário do meu filho Paulo Miguel
50.º Aniversário da conclusão da licenciatura na Faculdade de Ciências de Lisboa
50.º Aniversário do início da minha carreira no Laboratório Nuclear de Sacavém
20.º Aniversário do meu neto Bruno
75.º Aniversário deste tardio bloguista.

Auto-retrato (2008)

sábado, 12 de novembro de 2011

Haja o que houver...



não posso esquecer-me de colher as minhas rosas manhã cedo

 
não posso esquecer-me de fazer um desenho, ou um poema, ou uma canção com elas

 
não posso esquecer-me de as colocar no centro do peito

 
não posso esquecer-me de as oferecer a quem as queira fazer também suas

 
não posso esquecer-me que o tempo tem de ter algum tempo dentro do tempo que parece que não tem

não posso esquecer-me, não quero esquecer-me de nada do que é importante:
o equilíbrio
o peso certo para cada flor que faz parte dos dias
para que sejam sempre
bons dias...

(haja o que houver)


Teresa Martinho Marques

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Bebés mercadoria


No tempo em que fomos meninos, os nossos direitos não constituíam versão escrita para ponderar e cumprir. Os nossos pais deixavam simplesmente que o coração os guiasse e se as coisas corriam menos bem, podemos atribui-lo a carências materiais porque foram tempos de grandes dificuldades para muita gente. Certo é que eles conseguiram criar ambientes de segurança e respeito por nós, enquanto seres dependentes e em formação.

E agora como é? Apercebo-me há muito tempo através do que ouço, leio ou vejo, da pouca "atenção" que muitos educadores prestam aos direitos dos mais pequenos. Tornou-se habitual observar crianças dormindo nos cafés e restaurantes, em casa dos amigos até que os pais decidam regressar, nas ruas pela noite dentro e até frequentadores de ambientes ditos só para adultos. Quem é hoje capaz de recusar uma festa e ficar de guarda aos filhos? Uma amiga conta-me que um familiar, após ter saído da clínica onde nasceu o seu bébé, foi de imediato ao "Continente" fazer compras! E soube de um casal, ela médica de profissão, que não se priva de ir à discoteca e transporta o bébé debaixo do braço, tapado com um casaco!

Não começarão desta maneira desastrosa e louca os grandes problemas de instabilidade dos quais pais e professores se queixarão no futuro que é já hoje?


Texto de Maria da Piedade Pinheiro Martinho
publicado no jornal O MIRANTE, Outubro.1990

domingo, 6 de novembro de 2011

Tríptico "Produtos naturais exóticos"


Courgette papa-formigas, Homem pimento de nariz vermelho e Homem-pêssego

"Produtores" : Filomena Santos & Paulo Martinho (Guarda)

sábado, 5 de novembro de 2011

Staccato


A estranheza
e a morosidade
tingidas

aqui e ali
de alguma réstia
de deslumbre

dizem que
dizem que
viver é isso

a verdade é
não sei
não sei mesmo

mas algo me diz
a ser
a ser mesmo

assim
não me admirava
nada


Rui Caeiro

Poema inédito publicado in P2 (Público), 05.Nov.2011

Energia Nuclear - Bases, um novo blogue

Tenho constatado que visitantes deste espaço, em número significativo, procuram informação sobre temas relacionados com a energia nuclear.

Como este blogue não é vocacionado para os ditos temas – que têm aparecido aqui enquadrados em artigos de vulgarização que publiquei no passado em jornais ou então ditados por acontecimentos excepcionais, como foi o caso do acidente nuclear em Fukushima – resolvi iniciar um outro blogue, este orientado especificamente para o "nuclear", mas apenas com preocupações de natureza pedagógica: http://energianuclear-bases.blogspot.com/ .
O respectivo link encontra-se na secção “Outros websites” (coluna à direita).

Afigurou-se-me que uma maneira adequada de começar o novo blogue seria com um GLOSSÁRIO  [http://energianuclear-bases.blogspot.com/2011/11/energia-nuclear-glossario.html], no que segui o do livro Energia Nuclear – Mitos e Realidades  [http://tempoderecordar-edmartinho.blogspot.com/2010/12/energia-nuclear-mitos-e-realidades.html]

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Bibe


Tiro do bolso um botão
uma moeda, um carrinho
um papel de rebuçado
uma flor velhinha e seca
um segredo amarrotado
um berlinde e um pauzinho
um fio azul, um pião.
Nunca o bolso está vazio
quando nele meto a mão!

Quando tiver de crescer
e o meu bibe se rasgar
onde vou buscar surpresas
onde vou buscar um sonho
quando deles precisar?

 

Poema de Teresa Martinho Marques (http://sabordepalavra.blogspot.com)
in
Das Palavras, Edições Eterogémeas (http://www.eterogemeas.com)
ilustrado por Paulo Miguel Pinheiro Martinho (
http://pintapalavras.blogspot.com)